De Mau Com o Espelho – Quadro Clínico

Capítulo do livro De Mal com o Espelho: O transtorno dismórfico corporal de Leonardo Gama Filho (Organizador). Mas cada capítulo é escrito por um médico e esse foi escrito pelo próprio Leonardo Gama Filho.

Update: Eu tinha escrito o nome de outro médico, agora já corrigi.

Muita gente vai se identificar com esse texto. Eu me identifiquei. E outra coisa que acho interessante nesse texto é porque trabalha com números, e não só aquele texto que a gente sempre lê por ai falando o que é a dismorfia.

Capítulo 4 – Item 3 – Quadro Clínico

Não raro, esses pacientes apresentam queixas físicas e suas preocupações em geral, envolvem defeitos imaginários na região da face ou da cabeça, tais como perda de cabelos, rugas, cicatrizes, palidez, rubor, desproporção facial, número excessivo de pêlos, etc. As preocupações mais importantes geralmente, estão relacionadas a partes específicas da face, como tamanho e forma do nariz, olhos, cabelos, pálpebras, sobrancelhas, lábios, orelhas, boca, dentes, queixo, mandíbula e bochechas.

Entretanto, qualquer outra parte do corpo pode ser “eleita” foco da feiúra imaginária (seios, genitália, pernas, braços , ombros, pés, mãos, musculatura ou tamanho corporal). A preocupação também pode concentrar-se simultaneamente em diversas partes do corpo. Em alguns indivíduos, as queixas são vagas e de difícil interpretação, como, por exemplo, a preocupação com um queixo “amassado” ou com olhos “murchos”.

Kaplan e Sadock, na nona edição do seu Compêndio de Psiquiatria (2007), citam um estudo de 1993 publicado no American Journal of Psychiatry com 30 pacientes portadores de TDC, 63% dos quais relatavam defeitos no cabelo (15 pacientes com queixas envolvendo cabelo da cabeça, dois com problemas quanto à barba e três apresentando preocupações com pêlos em outras partes do corpo). No mesmo estudo, 50% estavam insatisfeitos com a anatomia do nariz; outros 50% com “deformidades” na pele (a maioria dos casos de acne); e 27% com queixas relacionadas aos olhos. O total é maior que 100% em vista da maioria dos estudantes ter “defeitos” em mais de uma localização.

Os pacientes com TDC vivenciam intenso sofrimento psíquico, por mais esquisita que possa parecer sua queixa de suposta feiúra. Relatam suas preocupações como “intensamente dolorosas” e, com freqüência, passam horas ruminando sobre seus problemas. Alguns apenas saem de suas casas durante a noite, quando não podem ser vistos ou, em cerca de 35% dos casos, o paciente fica confinado em sua casa devido ao medo de ser ridicularizado. Esse efeito devastador pode ser responsável por abandono do emprego ou da escola, evitação de interações sociais, como relacionamentos íntimos ou amizade, e surgimento de dificuldades conjugais ou financeiras. A idéia sobre suicídio está presente em 45% a 80% dos casos e cerca de 25% dos portadores de TDC tentam o suicídio.

Comportamentos de verificação frente ao espelho ou a quaisquer superfícies refletoras (vitrines de lojas, vidros dos mostradores de relógios, por exemplo) são bastante comuns e, em alguns indivíduos, consomem horas por dia. Outros pacientes chegam a utilizar luzes especiais ou espelhos de aumento para poderem verificar suas “deformidades”. Um outro comportamento tipicamente encontrado no TDC é o cuidado excessivo com a aparência, como múltiplos escovares de cabelo, aplicações repetidas de maquiagens e remoção compulsiva de pêlos do corpo.

Apesar das verificações e dos cuidados com a aparência terem como objetivo a redução da ansiedade, tais atitudes muitas vezes alcançam efeito oposto, com aumento da angústia e das preocupações. Existem pacientes que exibem outros comportamentos, na tentativa de consertar ou reduzir os defeitos, como: dietas, exercícios, troca freqüente de roupas e “camuflagens”(como deixar a barba crescer para “esconder” defeito imaginário no rosto, uso de enchimento em cuecas para aumentar um pênis tido como muito pequeno, utilizar chapéu para disfarçar deformidades nos cabelos etc).

O insight acerca de suas idéias, na maioria das vezes, é pobre, sendo que alguns pacientes são francamente delirantes, isto é, apresentam convicção inabalável quanto à veracidade de suas queixas, tornando-se impossível faze-los mudar de opinião. Idéias angustiantes de auto-referencia estruturadas sobre a feiúra são muito comuns e consistem no medo de estar sendo observados ou de ser tema de comentários jocosos de terceiros.

7 ideias sobre “De Mau Com o Espelho – Quadro Clínico

  1. Oi docinho, td? Tenho pensado muito em você ultimamente por conta de uma depressão (minha) que tá voltando a dar as caras (já conheço os sintomas, já sei o padrão da malvada qdo ela se aproxima, então, sei que tá vindo…) e procurei minha psquiatra para reajuste de medicação. Estou sem terapia psicológica (péssimo) desde que me mudei de Brasília, mas já estou vendo psicólogos em conta ($) prá mim aqui em Minas. Só a gente que sofre do mal (que é um mal que vai e vem e volta…) sabe o quanto é duro. Portanto, o comentário é só prá dizer que espero que você esteja melhor que eu, bem melhor! Força!
    Beijo, fique com Deus!

  2. Olá!

    Sou jornalista da TV CNT e estou produzindo uma matéria para amanhã,18.05,sobre o Transtorno Dismórfico Corporal. Preciso conevrsar com alguém que já tenha esse transtorno diagnosticado para contar como foi percebido,de que forma influencia nas ações do dia-a-dia,etc.Mesmo que não queira parecer,podemos fazer a entrevista.Se puder me ajudar,eu agradeço.
    O meu telefone é: [removido]
    Atenciosamente,

    Marianne

  3. oi,

    Preciso de sua ajuda, meu filho de 20 anos tem estes sintomas começou aos 14 anos, so que ele nao aceita que tem, nao entende a doenca, ja passou por 5 cirurgias (lipo na barriga, lipo nas coxas, retirada de pele no saco escrotal por 2 vezes) , ele ve um volume excessivo nos orgaos genitais, ja foi em varios urologistas e todos dizem que clinicamente seus orgaos sao normais. Nao sai de casa, fica no quarto o tempo todo, fala dia e noite na minha cabeça que nao é normal um penis ser tao expressivo para frente….enfim…é um sofrimento.. agora fala em se matar se isso nao se resolver logo…..qual era seu problema ? que remedio toma? quem é seu psiquiatra ? me envie por e-mail por favor

    obrigada,

  4. Oi, gostaria de saber se vc indica algum psicólogo de Brasília especializado em tratar dismorfias… Se não tiver imediatamente, vc pode pedir alguma indicação para os profissionais que vc conhece? Obrigada!

  5. Olá!!Ao ler seu blog,percebi que tenho o distúrbio,desde a adolescência,percebi que tenho perna grossa(como os jogadores de futebol)e bunda,sendo que considero isso abominável,e não consigo me livrar disso.Já procurei médicos e todos dizem que se pode aumentar ou diminuir o peso,mas não se pode mudar o biotipo.
    Me sinto deformado,afinal,perna grossa e bunda É COISA PRA MULHER,e eu,sendo assim,me sinto menos homem que os outros homens,não consigo me aproximar do sexo oposto,logo minhas chances de ser bem sucedido com as mulheres acabam sendo ínfimas.Vejo todos namorando,tendo relacionamentos estáveis e vida sexual ativa com suas namoradas,noivas,esposas e só eu que nunca posso ter ninguém,afinal,a revelação dessa minha deformação seria uma tragédia total(qual mulher aceitaria um homem assim,com perna grossa e bunda?)e uma óbvia rejeição como consequência disso.
    Culpo diariamente minha mãe por isso,já que perna e bunda é coisa de mulher e ela passou isso pra mim,mesmo sabendo que eu sou do sexo masculino e,portanto,jamais deveria ter pernas grossas,muito menos bunda grande(ela sofre muito com as minhas acusações,mas deveria ter pensado nisso antes de me passar essa genética estragada que me passou,sabendo que eu sou do sexo masculino,JAMAIS poderia ter me transmitido essa característica feminina).
    Já pensei em me matar inúmeras vezes,em 3 ocasiões,quase o realizei,tudo que eu gostaria é de poder ter uma vida normal como a dos outros,consertando meu corpo dessa terrível deformação ou,caso seja realmente impossível clinicamente,tentar diminuir a influência disso na minha vida.
    Obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *