Depoimento do Robert

Abaixo o depoimento do Robert, um amigo meu que conheci através do blog. Pedi pra ele escrever um depoimento pra vocês. Principalmente por iniciativa dele tomar atitudes pra superar tudo isso.

Bem pessoal, posso dizer que o meu transtorno ocorreu em meados de 2006, mais precisamente em fevereiro, dois meses após eu ter concluído a faculdade. Ter concluído a faculdade sem nunca ter namorado e vendo que, todos os meus primos e amigos já haviam tido namoradas, me fez pensar que isso, era tão somente por causa da minha aparência. Comecei a achar que o fato de não ter sido popular na faculdade, nem nunca ter namorado, era por causa da minha aparência. Tais pensamentos melancólicos e perturbadores desencadearam este transtorno, que surgiu em mim de uma forma intensa, provocando logo em seguida, forte depressão e pensamentos suicidas.. Fiquei vivendo uns 6 meses como um morto-vivo.   Ainda bem que meus pais, maravilhosos e compreensivos, cuidaram de mim. Passei então, a trabalhar com o meu pai.

Concomitante ao trabalho do meu pai, passei a me interessar por alguns livros de psicologia. Então comecei a ler alguns que pudessem me ajudar a ser uma pessoa mais confiante. Queria me tornar mais confiante. Queria encontrar alguma maneira de superar aquela doença que até então eu não sabia o nome. E os livros de psicologia me deram uma grande motivação e vontade de viver e de lutar.  Porém eu sempre continuava bastante atormentado pelo transtorno.. Tinha dificuldades para me expressar, para conversar com desconhecidos, para dar risada(pois achava que a minha aparência ficava muito deformada), pesquisava preços de cirurgias plásticas, etc..  Mas agora eu havia conquistado algo muito valioso: a motivação de um dia conseguir a cura para este transtorno destruidor, independente do que fosse preciso.

Fiz uma verdadeira busca por tratamentos, para uma doença que eu sequer sabia que existia e que eu enxergava apenas como “neurose”. Descobri vários tipos de tratamentos alternativos para doenças psíquicas, como EMDR, Hipnose, Dianética, PNL, etc… Cheguei inclusive a pagar R$ 640,00 por um tratamento  on-line de PNL (é, fui ingênuo, eu sei) onde o suposto “guru” me garantiu de que realizaria a minha cura..   Eu tive direito a 5 sessões. Depois da quarta sessão eu me desanimei e nem quis mais ver o sujeito.

De 2006 a 2010, eu passei praticamente trabalhando junto com meu pai num comércio, fazendo alguns bicos de montagem/manutenção de computadores, lendo livros de auto-ajuda/psicologia e prestando concursos… Enfrentei algumas crises bravas da doença tb, onde tinha vezes que eu queria morrer por causa do “suposto defeito estético”.

Minha vida só começou a mudar mesmo a partir de maio/2010, quando eu fui chamado para trabalhar num órgão público no qual eu havia prestado concurso. Quase morri de alegria. Nem acreditei. Estava sem emprego registrado desde 2006 e batalhando bastante para arrumar um emprego.  Que bênção.

Porém, havia milhares de fantasmas na minha cabeça. Eu estava meio que longe da sociedade, sem frequentar cursos, sem trabalhar, nem nada, apenas em casa, estudando e procurando emprego. Eu tinha medo e certeza de que quando eu fosse trabalhar, as pessoas me zombariam e me desprezariam única e exclusivamente por causa da minha aparência, não importa o quão carismático eu fosse. Me achava um monstro, uma escória e que as pessoas se distanciariam de mim por causa da minha fisionomia. Mas estava disposto a ir pra guerra e não perder a liberdade de viver.

Comecei a trabalhar. Lembro que no começo eu possuía uma grande dificuldade de concentração e tinha que me esforçar bastante pra me concentrar, pois eu sempre imaginava que as pessoas estavam olhando pra minha aparência, pensando como eu era tão feio. E eu não conhecia os recursos necessários para enfrentar e suportar essa doença. Toda vez que eu ia ao banheiro e olhava para o espelho, aquilo disparava a crise, me deixando umas 3 horas tenso e perturbado.

O dia que foi o mais crítico, foi quando eu quase cheguei a surtar no trabalho. Perturbado e bem torturado por causa da minha aparência, eu não conseguia me concentrar e estava muito aflito, sem conseguir nem entender nada e a cabeça bem perturbada…  Ainda bem que por coincidência, esse era justo o dia que eu tinha consulta com o psiquiatra. Consegui sair da empresa sem surtar e fui à consulta.

Lá expliquei tudo, mas tudo o que acontecia comigo, todo o sofrimento, toda a perturbação, todo o tormento. Ficamos 1 hora conversando. Não tive vergonha de revelar nenhum detalhe da doença… Ele me ouviu, falou que eu tinha muita ansiedade e que eu precisava de remédios.. Me recomendou 3 comprimidos de sertralina por dia. Disse ainda que conforme eu fosse tomando os remédios, eu teria mais controle e equilíbrio sobre a doença.

Depois disso, continuei a pesquisar obsessivamente sobre os sintomas dessa doença pra ver se eu encontrava alguma terapia adequada.. Nessas pesquisas, finalmente eu descobri que essa doença tinha um nome e que se chamava Transtorno Dismórfico Corporal. Foi uma verdadeira revelação essa descoberta. Agora, de posse do nome da doença, eu poderia procurar pelo tratamento mais adequado. Infelizmente, creio que milhares de pessoas que possuem esta doença não a conhece pelo nome.

Então, eu descobri uma comunidade do orkut sobre a tal doença e la, encontrei um tópico realmente esclarecedor, de uma pessoa portadora do TDC que já havia feito uma intensa pesquisa acerca da doença, tendo comprado até mesmo livros americanos sobre a mesma, pois lá, o conhecimento sobre tal transtorno é maior. Inclusive lá nos EUA, há clínicas especializadas apenas nesta enfermidade e a disponibilidade de terapeutas é muito maior.   Mas, para a minha imensa felicidade, aqui no Brasil também há doutores qualificados para tratar dessa doença. Após alguns contatos, encontrei uma doutora que tratava de pacientes com ansiedade, ocasionados por diversos tipos de transtornos, inclusive pelo TDC. Comecei a me tratar com ela. Ela foi me guiando pelo caminho correto e me dizendo o que eu podia e o que eu não podia fazer. Começava então um desafio.

As primeiras “ordens” dela, foi pra eu parar de me olhar no espelho procurando meus “defeitos estéticos” e pra eu fazer enfrentamentos. Era assim que se combatia a doença. Parar de se checar no espelho, faz com que vc não alimente o transtorno e fazer enfrentamentos, significa vc se expor, ir conversar com desconhecidos, pedir opiniões, frequentar lugares rodeados de pessoas como academia, shows, etc. Isso faz com que aquele medo de que todos vão te reparar e cochichar sobre sua aparência, vá se desmistificando. Cada enfrentamento que vc faz é um golpe acertado na doença e faz com que o monstro do TDC vá se enfraquecendo aos poucos. É como se o transtorno do TDC fosse do tamanho de um dinossauro no inconsciente da pessoa e a cada golpe levado, o dinossauro vá se enfraquecendo. Porém isso não é nada fácil pra quem tem o transtorno. Fazer enfrentamentos é complicado, mas uma vez que a pessoa decide declarar a sua liberdade e passa a enfrentar essa doença custe o que custar, o impossível se torna possível.

Muitas vezes eu cheguei a parar pessoas na rua pra pedir informações sobre determinado local(que eu já sabia rs) apenas para me expor. Pedia informações para pessoas em pontos de ônibus. Conversava com vendedoras e entrava em lojas sem querer comprar nada, apenas para acelerar o tratamento. Saía a noite pra baladas, abordava garotas, me expunha. Cheguei a fazer curso de teatro, algo que me ajudou também. Concomitante a isso, fiz um baita de um esforço pra parar de me checar no espelho. Tive várias recaídas, isso é verdade. Mas consegui diminuir significativamente as checagens. Ah, não poderia também, deixar de falar dos remédios, que foram essenciais para meu tratamento e que sem eles, nenhuma melhora haveria ocorrido. Faço questão até de enfatizar: para esta doença, os remédios são essenciais.

Tudo isso, fez com que eu conseguisse resgatar o prazer de viver e encontrar a liberdade que havia sido perdida durante uns 4 anos. Passei a viver como uma pessoa normal, trabalhando, saindo com amigos, curtindo a vida. Saí do abismo do TDC e resgatei a alegria de viver…  Algo que todo mundo deveria ter o direito.

Mas descobri que é preciso que estejamos sempre em alerta e saber que infelizmente ainda não há cura definitiva para esta doença (pelo menos não que eu saiba) e que qualquer descuido, recaída, pode causar alguma tormenta. Mas que hoje em dia, já há recursos e ferramentas EFICAZES para que possamos lidar e controlar esta doença quando a mesma quiser nos fazer uma “visita” desagradável.

Descobri também que o TDC é uma doença que faz parte do TOC e que normalmente, quem tem o TDC também tem TOC… E é algo que atualmente me policio bastante tb e luto para que eu o mantenha sob controle.

Ainda continuo fazendo tratamento. Gostaria de agradecer a minha terapeuta, pois sem ela, eu não conseguiria chegar até onde eu cheguei e nem ter conseguido resgatar a alegria de viver. Obrigado Dra. C.G. Gostaria também de agradecer à minha família e à Deus, que também foram fundamentais nessa minha jornada.

Espero que este depoimento sirva de alguma forma, para alguém. Abraços.

Uma ideia sobre “Depoimento do Robert

  1. Foi muito bom eu ler esse post,me ainto um lixo por causa do TDC,vejo minha bica torta,cabelo ruim e corpo fora do padrao….espero algum dia comentar sobre minha melhora como neste desabafo!

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