Transtorno Dismórfico Corporal: uma guerra particular com o espelho

Saiba o que pessoas que sofrem disso podem fazer para aumentar a sua autoestima e se sentir melhor

Quem já passou por uma “sala dos espelhos” em um circo qualquer sabe o que é enxergar seu corpo todo deformado. Sabe também que, ao sair dali, tudo volta ao normal. Porém, pessoas que sofrem de TDC – Transtorno de Dismorfia Corporal se enxergam sempre desta maneira e veem em si defeitos que não existem. Dismorfia significa ‘deformidade’, e é exatamente essa a questão. Quem tem o TDC acredita que alguma – ou algumas – parte de seu corpo está errada. Grande, pequeno, preto ou branco.

O tradutor Jonas A*., 32, que sofre desse problema, não acredita nisso e quer, a todo custo, uma cirurgia para aumento de seu órgão sexual. Em princípio, ele quer apenas que sua autoestima seja elevada, pois 18 cm já não elevam mais. Diagnosticado como portador de TDC, através de laudos psiquiátricos e psicológicos, Jonas provavelmente descobrirá que essa corrida atrás do perfeito não vai acabar nunca. Mas ele ainda acredita que apenas uma operação resolverá seu nem tão pequeno problema.

Sua baixa autoestima o levou a tomar alguns medicamentos “miraculosos”, receitados pela internet. O tradutor inclusive já fez terapia: “só um mês, não preciso disso!”. Jonas continua nessa incessante busca pelo cirurgião plástico que salvará sua autoestima. Mas tudo pode ser em vão.

Alexandre Pinto de Azevedo, médico psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, SP, revela que o TDC é um transtorno caracterizado por uma preocupação exagerada com um defeito real ou imaginário na aparência, associado a um comportamento de verificações frequentes do “defeito”. Essas sensações geram ansiedade e atitudes de evitação [desculpas], além de um comportamento urgente de correção do tal defeito.

Quando a pessoa não admite tal problema, o especialista recomenda: “Esta é a fase mais difícil. Convencê-lo de que a sua percepção é irreal. Nesta fase, somente o convencimento verbal ajuda na verificação de tal defeito, utilização de imagens captadas por fotografias e comparações junto a alguém que o transmita estes dados de realidade e desproporção”. Jonas não deve gostar disso.

Seu olhar não muda o que a natureza fez

Identificar defeitos nunca é tarefa fácil, mas para eles é impossível. Solange C*., 29, admite que tem esse transtorno. Seu diagnóstico foi confirmado somente depois de passar por dois psicólogos, que viam seu problema como uma grande insatisfação, nada além.

Solange lixou e clareou os dentes, aplicou ácido na pele para fazer as sardas sumirem e colocou silicone para parar de tomar banho no escuro. “De tanto que odiava meu corpo”, diz ela. Procurando pela internet, Solange descobriu o que tanto a incomodava: ela tinha TDC e passou a procurar soluções para aliviar sua repulsa pelo corpo.

Perto disso, alguns outros problemas parecem ser mínimos. Ela passou a fazer terapia cognitivo comportamental e viu que suas crises eram tão somente de sua imaginação. Então ficou em paz com sua autoestima, com o espelho e decidiu fazer um blog a respeito.

“A terapia consegue fazer com que a gente perceba a forma errada que construímos nossa autoimagem e a forma equivocada que acreditamos que as outras pessoas estão julgando nossa aparência.”, conta Solange. Caso resolvido.

Quando dizem que o TDC é uma compulsão, o psiquiatra discorda: “não é classificado como compulsão. Trata-se mais de características do espectro obsessivo pela necessidade de verificação da parte considerada defeituosa. Trata-se de um transtorno mental, onde se há partes do cérebro responsáveis pela percepção corporal que se desorganizam do ponto de vista neuroquímico”. Ele faz parte também do Programa de Transtornos Alimentares e sabe exatamente a diferença entre compulsão e obsessão.

Sem banalização

De acordo com o psiquiatra, quem tem TDC busca uma correção de um defeito por ele imaginado em partes de seu corpo. O transtorno é justamente sofrer pela percepção de um defeito imaginado ou desproporção de um pequeno defeito real (não perceptível ao olhar dos outros) e a necessidade de correção. No caso do Jonas é muito mais do que uma simples cirurgia, é uma intervenção delicada.

A preocupação com o pênis pequeno é uma das características do TDC e que pode ocorrer independente da orientação sexual. “Claro que os conflitos psicológicos que antecediam o aparecimento do transtorno influenciam na sua sintomatologia e talvez, a orientação homossexual e a sobrevalorização do tamanho do pênis, para este indivíduo em especial, favoreceu a sobrevalorização desta preocupação”, avalia o psiquiatra.

Visto desta maneira, devemos salientar que Jonas e seu parceiro, Alex*, que o apoia incondicionalmente, lutam por um órgão maior. Os dois também não acreditam em psicólogos e psiquiatras. Quando comentado que seu parceiro tem um distúrbio, Alex é enfático: “Não adianta passar por profissionais que não fazem nada. Distúrbio uma ova, ele apenas não gosta do tamanho do pênis, igual uma pessoa não gosta de nariz etc.”

Não há aparente desproporção entre homens e mulheres, apenas diferenças de partes do corpo que os preocupam. também não há aspectos hormonais envolvidos nesse transtorno.

O blog da Solange, que tem dismorfia, é aberto a todos aqueles que querem mais informações http://www.diariodeumadismorfia.com.br

Fonte: O Estado RJ

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