Perguntas e Respostas sobre mim e a Dismorfia Corporal

Vou por aqui todas as respostas que respondi para a entrevista da UOL. Segue:

1. Gostaria de saber qual sua profissão, estado civil e cidade onde mora. Hoje você tem 28 anos?
Hoje eu tenho 34 anos. Moro em Florianópolis SC, sou publicitária, solteira.

2. Você menciona que desde criança se sentia feia. Como era sua relação com as fotos? Ainda não havia a selfie, mas ver sua imagem nas fotos de papel ou digitais te causava algum desconforto? Tem alguma história para contar sobre isso?
Eu não gostava de bater fotos quando criança e até chorava porque não queria (tenho foto com a familia chorando porque não queria bater foto). Depois quando cresci e veio as máquinas digitais eu batia bastante selfie, usava bastante maquiagem, batia mais de 100 pra escolher uma e depois editava no photoshop pra tentar diminuir as imperfeições.

3. Atualmente você faz terapia?
Não. Eu fiz terapia quando pequena (quando eu tinha uns 7 anos), minha primeira sessão de terapia foi desenhando minha família, fiz por cerca de 2 anos. Depois fui crescendo sem conseguir resolver o problema de me achar feia, fiz terapia novamente com 21 anos e ficava na mesma, a gente não progredia com o tratamento porque a psicóloga não sabia que era dismorfia corporal (não conhecia esse tipo de transtorno ainda pouco conhecido). Em 2007 cheguei a ir em outra psicóloga mas achei que não ia adiantar tentar novamente, então não segui o tratamento. Então em 2009 (com 27 anos) eu estava com depressão e não sabia. Achava que todas as pessoas tinham problemas na vida e era normal sofrer. Não conseguia dormir e chorava todas as noites. Então fui pro Google tentar descobrir o que eu tinha porque vi que aquilo não era normal. Fui lendo sobre distúrbios do sono porque a princípio estava pensando que eu não conseguia dormir. Depois passei pra distúrbios psicológicos, li sobre alguns tipos de esquizofrenia e fui passando de distúrbio por distúrbio até que cai na Dismorfia Corporal. Quando li, parecia um relato sobre a minha vida. Na hora já me identifiquei e tive quase certeza que era aquilo que eu tinha. Voltei na mesma terapeuta que eu tinha ido em 2007 porque era a única que eu consegui pensar no momento e comentei com ela sobre a dismorfia corporal. Ela falou que eu tinha mesmo e então começamos o tratamento e ela me encaminhou para o psiquiatra porque eu estava visivelmente com depressão (eu nem conseguia falar, só chorava). Fiz o tratamento por 6 meses, uma sessão por semana no começo e depois passamos para uma sessão a cada quinze dias. Li muito sobre dismorfia corporal, auto imagem e ditadura da beleza. No final do ano decidi me mudar de cidade e interrompi a terapia mas continuei o tratamento com o psiquiatra tomando os remédios. Em 2011 percebi que eu não tinha mais nenhum sintoma da dismorfia corporal e até hoje considero algo superado na minha vida. Os especialistas dizem que não existe cura para a dismorfia corporal mas que existe um controle, então posso dizer que está controlada sem sintomas. Eu não sou a única com esse relato de superação, há outro leitor (homem) do blog que relatava sua vida difícil por causa da dismorfia corporal e que com esforço conseguiu mudar e hoje não se considera mais com dismorfia. Infelizmente ele não da entrevista porque diz que se trata de uma época triste de sua vida que prefere esquecer.

4. Em que medida aquela foto alterada, mostrando como você se via para a sua terapeuta, auxiliou no tratamento? Você se incomoda se publicarmos como você se via e como é? Ou prefere mandar outra foto?
Eu fiz a foto porque eu achava que só falando como eu me via não mostrava a proporção dos defeitos que existiam para mim. Minha psicóloga imaginava como eu me via, entendia sobre o assunto e me compreendia mas eu achava que ela não entendia o grau disso. Fiz então para ilustrar como eu era para mim. Pode publicar a foto, essa foto já foi publicada em revista e passou no programa da Fátima Bernardes.

5. O transtorno afetou seus relacionamentos afetivos? Você namora ou é casada?
Até meus 27 anos afetou sim porque sempre fui insegura por conta que me achava feia e que ninguém ia se interessar por mim. E que se alguém se interessasse seria por pena. Depois que superei a dismorfia já tive outros relacionamentos e minha aparência não interfere em mais nada. Hoje sou solteira, tive recentemente um namoro de 3 anos que terminou por outros motivos que não tem a ver com a minha aparência e hoje procuro alguém que goste de mim pelo que eu sou por dentro, mas não me considero feia.

6. Quando o quadro foi controlado e o que precisou acontecer para que fosse considerado controlado?
O quadro foi considerado controlado a partir do momento que eu não tinha mais nenhum sintoma da dismorfia corporal. Como por exemplo o isolamento social, sofrer por conta da aparência, ver defeitos que não existe, tentar esconder algum defeito, deixar de ir em algum lugar porque as pessoas vão reparar em você, ficar conferindo sua aparência o tempo todo etc. Eu nunca mais deixei de fazer nada por conta da minha aparencia.

7. Você ainda toma medicação? A medicação que tomou foi para depressão?
Não tomo mais. A medicação que tomei foi para depressão porque a depressão que eu tinha era por conta da dismorfia corporal, da frustração que eu tinha com a minha vida. Tomei Citalopram 20 mg.

8. Você sofria de ansiedade quando se via no espelho ou em fotos? O que sentia?
Sim. Todos que tem dismorfia corporal tem ansiedade. Eu ficava ansiosa e frustrada porque via muitos defeitos e achava que eu ia ser assim pro resto da vida. Eu não tinha dinheiro pra fazer as cirurgias que eu queria pra corrigir meus defeitos e torcia que um dia as coisas mudassem e eu conseguisse fazer todas as intervenções cirúrgicas e dermatológicas pra ficar bonita..

9. Pela sua relação com o público, através do blog, você considera que a tecnologia e as selfies têm piorado a relação das pessoas com o próprio corpo?
Não. Eu acho que quem bate selfie é porque gosta de si mesmo e é saudável a gente se cuidar e se amar. O que eu sou contra é a ditadura da beleza e a imposição de padrões do que é bonito e o que é feio.

10. Em sua opinião, qual a influência do padrão de beleza das modelos e atrizes -e a forma como ele é vendido como sendo o exemplo a ser seguindo- sobre a autoimagem das meninas?
Existe um padrão de beleza imposto pelas agências de modelo do que é a medida ideal. Além das revistas e propagandas de produtos de beleza que estipulam o que é um corpo bonito e isso virou um rótulo. As pessoas acabam buscando esse ideal inexistente, somente uma pequena parte da população possui as medidas de uma modelo e nem por isso as outras pessoas não são bonitas. E com isso as pessoas (homens também sofrem de dismorfia) acabam se frustrando por não estarem dentro desse padrão de beleza. Temos que entender que não somos só uma altura, ou só um nariz, só um olho, só um cabelo, só uma barriga etc. Somos um conjunto de características exteriores junto com nossas características interiores (nosso caráter, nossa personalidade, nossos gostos pessoais etc). Isso é o que compõe o que somos e é isso que tem valor.

Quero também dizer que a maioria dos emails que recebo de pedido de ajuda são de homens e não de mulheres. Será que a dismorfia atinge mais homens que mulheres? Não sei dizer porque para isso ser confirmado precisaria de uma pesquisa bem elaborada. O que eu posso dizer sobre isso é que muitas mulheres devem sofrer com a dismorfia corporal e não sabem porque hoje a imposição do corpo perfeito com a ditadura da beleza muitas mulheres devem achar que estão sofrendo por não estarem dentro dos padrões de beleza mas que isso não é um distúrbio psicológico.

Também é preciso diferenciar a dismorfia corporal de uma pessoa que faz muita plástica simplesmente por estética. Uma pessoa com dismorfia vai querer fazer muitas cirurgias plásticas mas nem todo mundo que faz muita cirurgia plástica tem dismorfia corporal. O que diferencia uma pessoa da outra é que a pessoa com dismorfia corporal faz as plásticas porque sofre com aquele problema enquanto a outra não sofre, apenas está insatisfeita e procura uma melhoria. Um exemplo de uma pessoa sem dismorfia que já fez várias plásticas é a Angela Bismarchi.

 

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