Não torne as coisas eternas

IMG_20180129_193052703

Eu recebo vários emails e 90% deles giram em torno que preciso esclarecer aqui. A Os emails que eu recebo contam suas histórias de sofrimento por conta de como essas pessoas se enxergam e como acreditam que é sua aparência e a maioria deles possuem o início disso tudo em algum momento do passado onde alguém falou algo a respeito delas (bullying ou qualquer outro tipo de comentário).

Minha primeira observação sobre isso é o seguinte: Existem pessoas más no mundo que vão nos inferiorizar e vão gostar de fazer isso. Essas pessoas se sentem bem humilhando, ridicularizando ou seja que tipo de atitude má que vão fazer. O que não se pode fazer é aceitar o que as pessoas falam como verdade. Eu digo isso porque eu fiz isso por muito tempo da minha vida. Como já contei aqui no blog, o meu transtorno dismórfico corporal começou na infância quando eu tinha apenas 5 anos de idade quando o amigo do meu irmão me chamava de feia (ele tinha 15 anos) e ria porque eu chorava. Pra ele era uma brincadeira, pra mim era uma tortura e isso prejudicou muito minha auto estima e a minha segurança conforme eu ia crescendo. No colégio veio a fase de bullying me chamando de saracura, girafa, olho esbugalhado e tantas outras coisas que muitos adolescentes também passam. Vou por aqui algumas fotos minhas da minha adolescência.

IMG_20180130_142052556

Acima eu com 13 anos, ainda crescendo. Eu era muito feia, magrela, sem curvas que outras meninas da minha idade já iam tendo. Eu usava aparelho, uma franja toda torta. Vocês vão olhar a foto e dizer “Está normal para uma adolescente passando por transformação” mas eu me via nessa época como um E.T.

O que não podemos é pegar uma época “ruim” da nossa vida, tomar como verdade o que falaram de nós e e eternizar ela que o resto da nossa vida vai ser assim. A vida e o mundo estão em constante transformação. Você não é mais o mesmo de hoje e não é o mesmo de amanhã. Essa imagem do começo da postagem “Não tornar as coisas eternas” foi uma tarefa que minha psicóloga deixou pra mim pois quando eu tinha um problema na minha vida eu eternizava aquele momento como se aquilo nunca mais fosse acabar. E tudo acaba uma hora. Eternizar momentos é o que acontece com os suicidas. Eles acham que o que estão passando não vai ter fim e por isso se matam.

Eu cresci e com cerca de 15 anos eu tinha crescido e não gostava da minha altura. Comecei a andar arcada (ainda ando e tento corrigir isso) e as fotos daquela época mostram como eu me curvava para tentar ser menor.

IMG_20180130_093649114

Os anos foram se passando, descobri que meu sofrimento tinha nome (transtorno dismórfico corporal) e comecei a tratar. Consegui resolver isso na minha vida e hoje não tenho mais. Tem dias que me acho feia, tem dias que não quero que batam foto de mim, mas sei que isso é normal de qualquer ser humano porque não somos robôs. Só que apesar de me sentir as vezes assim isso não me faz sofrer e me aceito como eu sou e sei que sou um conjunto de características e que vão ter pessoas que vão gostar de mim assim e vão ter pessoas que vão me achar feia também porque isso é questão de gosto de cada um e não tem nada a ver com o meu valor.

Não me acho muito bonita em fotos sem maquiagem mas sei que a maioria das pessoas também ficam assim e que uma maquiagem, um pose bem feita e um filtro na foto ajudam muito e olhamos fotos dos outros e achamos que somos a escória da sociedade.

A gente se olha no espelho e queria ser igual a outra pessoa que é bonita e não percebe que uma iluminação boa, um ângulo bom e acima de tudo UMA BOA AUTO ESTIMA faz qualquer foto ficar boa. E para as mulheres a maquiagem ainda ajuda. Vou usar minhas fotos como exemplo:

IMG_20160110_131538791

Não to nenhuma modelo né. Mas se arrumar o cabelo, passar uma maquiagem, colocar uma roupa legal, por um sorriso no rosto já ajuda. Como vemos nas fotos abaixo:

C360_2017-12-24-17-46-21-994

IMG-20171007-WA0040

Claro que arrumada ta mais bonita mas também não tem nada de errado comigo sem maquiagem. E também não tem nada de errado com você do jeito que você é. Só que quando temos o transtorno dismórfico corporal nós nos vemos diferente. Você estudou na escola que o olho é a “ferramenta” que nos faz ver mas quem lê essa informação é o cérebro. Se o cérebro está com problema, ele vai ler essa informação errada. Que é o que faz você se ver de forma diferente do que você é.

Como eu me via:

comomevejo2

Isso foi uma ilustração que eu fiz pra mostrar pra minha psicóloga na época que eu fazia terapia pra ela entender como eu me via. Porque eu achava que eu explicava pra ela mas ela não entendia o grau de como eu me via. Você pode ver que todas as características que eu coloquei na foto eu tinha, como olhos grandes, sardas, olheiras, dente torto (na época era bem pouquinho, depois arrumei) e papada. Mas que essas características não me fazem essa aberração que está nessa última foto. É isso que acontece com você. Se você não gosta de algo no seu corpo usando uma escala de 0 a 10 onde 0 é bonito e 10 é horrível. Você vai considerar seu “defeito” na escala 10 e as pessoas vão considerar 0 ou 2, por exemplo. Vai ser algo muito imperceptível, insignificante. É isso que vocês precisam entender que a dismorfia corporal vai colocar muita gravidade em algo normal.

Outra observação que quero fazer é que não podemos dar o poder para ninguém decidir pela nossa vida. É como Fábio Junior canta “Nem por você, nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos. Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos.” Quem decide pela sua vida é você, oras! E se eu decido que sou interessante sim, que tenho qualidades sim, que pessoas se interessam por mim isso vai acontecer porque isso é uma verdade para mim e então eu fico aberto a novas oportunidades na minha vida. Enquanto eu disser que sou feio, que não sou interessante todas as portas estão fechadas. Não ache que alguém vai te amar se nem você mesmo se ama.

Tenho outras coisas pra postar sobre ditadura da beleza, que é de um perfil do Instagram chamado @mbottan. Quem quiser da uma olhada lá nas fotos e nos textos que ela posta, mas depois vou fazer um post só sobre as postagens dela (com os prints do perfil dela). Por enquanto esse post já tem muita coisa pra ler.

“Admito que é inata em nós a estima pelo próprio corpo, admito que temos o dever de cuidar dele. Não nego que devamos dar-lhe atenção, mas nego que devamos ser seus escravos. Será escravo de muitos quem for escravo do próprio corpo, quem temer por ele em demasia, quem tudo fizer em função dele. Devemos proceder não como quem vive no interesse do corpo, mas simplesmente como quem não pode viver sem ele. Um excessivo interesse pelo corpo inquieta-nos com temores, carrega-nos de apreensões, expõe-nos aos insultos; o bem moral torna-se desprezível para aqueles que amam em excesso o corpo.” Sêneca (filósofo, Séc. I)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *