Não é o nosso olho que vê

Para poder falar de como diminuir o sofrimento por causa do transtorno dismórfico corporal precisamos entender o que o transtorno dismórfico corporal muda na nossa vida.

Entender que estamos com transtorno dismórfico corporal e como tudo acontece ajuda muito a sair disso. Estar com dismorfia corporal altera a forma como nos vemos, e se não aceitamos que isso é uma alteração na nossa mente fica difícil alguma mudança.

O estamos passando é devido a uma alteração no nosso cérebro que faz ele funcionar como se estivesse desconfigurado, fazendo ele funcionar errado. Então precisamos fazer algumas coisas para que ele volte a funcionar corretamente, que é o tratamento.

Como o cérebro está funcionando errado? Ele está vendo uma imagem irreal da nossa imagem. As pessoas me falam “Mas eu vejo no espelho que eu sou assim horrível, não tem como ser mentira porque eu estou vendo com meus próprios olhos que sou assim”. E é justamente aí que está o problema que o transtorno dismórfico corporal causa. Esse transtorno é uma doença mental, conforme está escrito no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Se é mental, então é um problema do cérebro. E o que isso tem a ver com como nos vemos? Está relacionado com como funciona a nossa visão, nossos olhos.

Como funciona a nossa visão? O nosso olho é a ferramenta que faz conseguirmos enxergar. Não é o olho que vê. É o cérebro que vê através do olho. O cérebro lê o que os olhos passam de informação. Os olhos são um prolongamento do nosso cérebro. A função da sua mente é interpretar tudo aquilo que seu olho viu.

Existem várias formas de deficiência neurológica que não permite o cérebro ver corretamente. Mas vou citar dois tipos para podermos entender melhor a ligação dos olhos com o cérebro e depois sobre o transtorno dismórfico corporal.

Agnosia Visual: Normalmente associada a danos cerebrais ou doenças neurológicas, a agnosia visual é a perda da capacidade de reconhecer pessoas, objetos sons e formas. Eles podem olhar para um objeto comum, como uma caneta, e não conseguir identificar o que é.
Um teste para identificar esse transtorno neurológico é pedir para copiar um objeto. Como o paciente pode perceber perfeitamente as formas, apesar de não fazer ideia de seu significado, o desenho sai extremamente parecido com o original. E exatamente aí está o problema do agnóstico visual associativo. Ele copia os traços linha por linha, lentamente, por que seu cérebro manda copiar as formas que está vendo, em vez de dizer – “Hmm, isto é uma âncora. Então vou desenhar baseado na memória de como é uma âncora”. (copiei a explicação de uma matéria da Revista Super Interessante, não fiz da minha cabeça).

Deficiência visual cortical (DVC): É uma forma de deficiência visual causada por um problema cerebral mais que um problema no olho (deficiência ocular).

Podemos então entender que na Agnosia Visual a pessoa está com seu olho em perfeito estado. O olho vê perfeitamente mas o cérebro está com um problema que não permite ler corretamente as informações que o olho envia. Não é o olho que tem um problema. O olho capta e envia a informação corretamente. O problema está lá na leitura dessa informação feita pelo cérebro.

No outro tipo de deficiência visual que é a “Deficiência visual cortical” entendemos que a pessoa tem prejuízo da visão por conta de um problema no cérebro e não propriamente no olho.

No transtorno dismórfico corporal acontece uma alteração psicológica, fazendo com que nos vejamos de forma diferente como somos. Quando uma pessoa me fala “Eu sei que sou horrível porque me olho no espelho e vejo isso”. A pessoa está querendo dizer que não está com problema de visão. Que não tem como o que ela está vendo estar errado porque ela está vendo com os próprios olhos que são saudáveis. Mas o problema não está nos olhos, está na mente. E se a mente mostra para você algo que não é real fica difícil você confrontar o que você está vendo. Porque você não tem duas imagens, a real e a que o cérebro está mostrando, para poder comparar. Então aqui é preciso ter a capacidade de compreensão e separar o que é real e o que a mente está alterando.

Se isso não for claro e a pessoa não tiver total compreensão disso, todo o resto do tratamento vai ficar comprometido. A pessoa com transtorno dismórfico corporal tendo isso bem claro não vai fazê-la vela da forma correta. Ela vai continuar se vendo feia, mas ela vai ter a consciência que o que está vendo é irreal e que está em processo para se ver da forma correta e real.

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