Não acredite que seu sofrimento é eterno (Suicídio)

Hoje eu comecei o dia com uma notícia muito triste. A irmã de um rapaz que tem transtorno dismórfico corporal veio me informar que ele cometeu suicídio. Entre as palavras dela, ela conta “ele dizia que se via um monstro e não aguentava mais, que era algo mais forte, que sua mente o dominava.”

O meu sentimento é de impotência, de ver que perco as pessoas nessa batalha contra o transtorno. Infelizmente nem tudo está ao meu alcance, mas queria dizer algo para quem está achando que só a morte é a solução para o que está passando.

Não acredite que seu sofrimento será eterno. Que nada irá melhorar e que você vai viver o resto da vida em um corpo com aparência que você odeia. Eu vou contar um pouco da minha história para ilustrar melhor o que eu estou falando.

Minha dismorfia corporal começou aos 5 anos quando eu sofria bullying, cresci acreditando que era feia. Passei por alguns psicólogos que não me deram um diagnóstico (acho que não sabiam o que era transtorno dismórfico corporal), com 26 anos eu estava com uma grande depressão. Eu mal conseguia tomar banho e quando eu tomava com muito esforço me deitava na cama e dormia enrolada na toalha, porque não tinha forças para me vestir. Eu não sabia que estava com depressão. Eu achava que todo mundo tinha problemas e que a vida não era fácil. Passado pouco tempo, no dia 29/05/2009 aconteceu o que eu relato em um diário que escrevi na época “Foi muito difícil levantar da cama e ir trabalhar. Cheguei no serviço atrasada, enrolei até meio dia, não tenho ânimo. O telefone da psicóloga não atende, acho que tenho o telefone errado. Caminhei até o consultório dela, no elevador já comecei a chorar. Deixei um bilhete embaixo da porta porque não tinha ninguém. Cheguei no serviço e a psicóloga me ligou. Eu mal conseguia falar ao telefone, me segurando para não chorar. Não consegui trabalhar, só chorava e vim embora pra casa. Fui na psicóloga as 18:30. Comecei a falar e não conseguia segurar o choro. Ela disse para eu procurar um psiquiatra porque devo estar com depressão”.

Eu quis dar mais uma chance pra mim. Eu não queria perder a esperança de que poderia ser diferente dessa vez. Eu quase desisti, mas tentei mais uma vez. Se eu não tivesse esperança que dessa vez poderia ser diferente, eu teria me matado. Porque eu teria esgotado todas as possibilidades de que aquilo que eu vivia poderia ser diferente. E é isso que aconteceu com o rapaz que se matou ontem. Ele não tinha mais esperança que alguém poderia mudar o que ele estava vivendo, nem ele mesmo. Ele acreditava que nem os pais poderiam ajudar ele (os pais estavam dando todo apoio que ele precisava). Ele não acreditou que o cirurgião plástico que ele consultou no dia que cometeu suicídio poderia salvá-lo. Nem ninguém.

Não acredite que seu sofrimento é eterno. Eu passei por algo parecido e acreditei que poderia ser diferente um dia. Eu tinha passado 20 anos sem ver melhora no que eu sentia. Bem pelo contrário, só via piorar cada vez mais. Sempre vale a pena nos darmos mais uma chance de que pode ser diferente. E se não for, que tentemos mais uma vez até acertarmos. Tentemos a favor da vida, não contra ela. Meu tratamento não foi baseado na fé, que Deus poderia me ajudar, porque eu estava muito desacreditada que Deus pudesse fazer algo por mim. Mas eu acreditei na minha capacidade de fazer por mim, de me dar mais uma chance de talvez ser diferente dessa vez. E que se não desse certo que eu tivesse fé em mim mesma para tentar quantas vezes fosse necessário.

Foi então que daquela vez funcionou. E depois de um tempo de tratamento e melhora eu me vi vivendo pequenos momentos que considerei especiais, como  por exemplo sair para fazer um lanche com novas amizades que eu tinha feito. Eu me lembro como se fosse ontem, mas já faz mais de 7 anos, de eu fechando a porta de casa e pensando “Que legal isso que eu estou vivendo hoje. Se eu tivesse me matado há pouco tempo atrás hoje eu não estaria vivendo isso na minha vida”. E me vi pensando a mesma coisa em outras ocasiões.

O que eu quero dizer com isso é que se hoje você está em uma situação ruim, de muito sofrimento, não acredite que vai ser assim o resto da vida. A nossa vida está em constante mudança, o mundo está em constante mudança. Mas você pode dizer “Como que a nossa vida está em constante mudança se eu estou vivendo isso há mais de 10 anos”. Durou até agora mas daqui pra frente pode ser diferente. Faça tratamento psicológico e psicofarmacológico (remédios) ou busque o caminho que dá mais certo para você. Não existe um único caminho para sair disso. O tratamento correto é o que da certo, que mostra mudanças. Se de um jeito não está te trazendo resultados, busque por outro caminho. Mas busque, acredite que se não está dando resultado por um caminho então este caminho não é uma boa alternativa. O que dá resultado para uma pessoa pode não dar para outra. É preciso tentar até encontrar o seu caminho.

Não acredite que seu sofrimento vai ser para sempre. Antes não sabíamos de ninguém que tivesse saído desse transtorno. Hoje já temos relatos de 5 pessoas e devem existir outras que não chegamos a saber. Então não é algo impossível de se alcançar. Não tenha pressa, não se cobre tanto, mas se dedique para ver mudanças. O processo é lento e muito sutil, mas você vai percebendo pequenas mudanças nas formas de pensar.

Para dar apoio a esse empenho, temos esse blog com bastante material que pode te ajudar a entender melhor tudo o que sente, temos os grupos do facebook e o grupo do whatsapp.

Acredite em você, na sua capacidade porque é possível sim a situação mudar para melhor e você viver coisas que nunca viveu. Poder sair de casa sem a preocupação de outras pessoas olharem para mim não tem dinheiro que pague. Eu tive um novo nascimento no dia 29/05/2009 quando eu decidi me dar uma nova chance. De uma chance para você também.

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