Minha vida até hoje

Nesse post eu vou contar como foi minha vida relacionada com esse transtorno psicológico, que se iniciou na minha infância e como eu vivi com isso, depois meu tratamento, minha cura (ainda fico um pouco confusa se esse é o termo correto) e como é minha vida hoje sem o transtorno.

Nasci em 28/12/1982 em uma família amorosa, sem problemas de convivência.

1987 (5 anos de idade) – Comecei a sofrer bullying de um amigo do meu irmão que me chamava de feia e achava engraçado eu chorar e pedir para o meu irmão bater nele. Como era amigo do meu irmão e eu considerava meu irmão uma pessoa de confiança, eu achava que o amigo dele também era e acreditava que o que ele estava falando era verdade.

1990 – Com +ou- 8 anos de idade comecei a chorar em casa dizendo que era feia. Minha mãe me colocou em uma psicóloga. Lembro que na minha primeira sessão ela pediu para eu desenhar como era minha família. Fiz um tempo de terapia e pedi para minha mãe me tirar porque parecia que ela era apenas uma pessoa que eu falava sobre os meus dias e não alguém que falava algo que me ajudava.

2001 (19 anos de idade) – Os anos foram se passando e eu continuava me vendo da mesma forma. Horrível. Sempre me falavam “Por que você não entra para uma agência de modelo? Você é alta e magra”. Eu nunca gostei da minha altura, tenho 1.79 m. Então com 19 anos recebi um panfleto na rua que era de uma agência de modelo. Pensei “Quem sabe não está aí uma oportunidade de eu gostar de mim?”. Entrei para a Agência. Pediram para eu emagrecer (eu já era magra mas tinha um pouco de barriga – tenho até hoje). Fiz um book, odiei e rasguei quase todas as fotos. Claro, eu não gostava de mim, como ia gostar das fotos que outra pessoa batesse? Eu fiquei travada nas fotos. Saí da agência e não quis mais.

2003 (21 anos de idade) – Eu continuava me sentindo muito mal com a minha aparência e não achava aquilo normal. Voltei por conta própria a fazer terapia (com outra psicóloga). Foram 37 consultas e eu não conseguia ver nada mudando dentro de mim. Na mesma época arranjei um emprego e não consegui continuar com essa terapia, na verdade nem queria mais porque não via resultado. Até aqui eu não tinha recebido um diagnóstico e não sabia o que eu tinha.

2009 (26 anos de idade) – Nessa época eu estava fazendo faculdade, já havia reprovado em algumas matérias e no intervalo raramente saia da sala porque tinha vergonha que as pessoas me olhassem. Decidi que eu ia gostar de mim por conta própria, já que com ajuda de terceiros não estava dando certo. Comecei a me vestir da melhor forma, a andar sempre maquiada. Eu tinha colocado toda a minha energia e tinha acreditado com todas as minhas forças de que aquilo ali daria certo. Só que o tempo foi passando e eu não via mudança em como eu me via e comecei a ficar frustrada. Com isso, comecei a entrar em depressão e não sabia que era depressão porque acreditava que todo mundo tinha problemas na vida e que a vida não era fácil mesmo. Eu tinha dificuldade para dormir e para tomar banho. Com muito esforço eu tomava banho mas não tinha forças para me vestir, então dormia enrolada no roupão e no outro dia, já atrasada para o serviço porque eu tinha dificuldade de fazer qualquer coisa, eu me vestia e ia para o serviço que sempre chegava atrasada.

Comecei a achar que eu não tinha só uma insatisfação, mas um problema psicológico. Mas qual? Então resolvi criar uma espécie de apostila sobre mim, que eu levaria até um psicólogo depois para tentar descobrir o que eu tinha. E comecei minha apostila assim:

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Anotei alguns transtornos mentais que eu achava que poderiam ter a ver comigo, entre elas anotei o Transtorno Dismórfico Corporal que quando li me identifiquei muito. Anotei algumas coisas sobre a minha vida mas vou por em outro post pra não ficar muito gigante este (Aqui tem um trechinho). E no dia 27 de maio de 2009 eu concluí minha apostila escrevendo “Hoje eu não quero saber quais as formas certas que eu deveria me ver e ver minha vida. Se eu souber que eu tenho alguma coisa, nem que seja para dizer que as coisas que eu penso tem algum sentido (mesmo que não tenham fundamento) já vai ser um alívio. Porque vai ser um caminho andado em saber que pode ser solucionado”.

Dois dias depois eu não consegui trabalhar. Cheguei ao trabalho e só conseguia chorar. Então lembrei de uma psicóloga que eu tinha ido há um tempo atrás (que não era nenhuma das duas que eu contei aqui). Eu só tinha ido 3x nela e não tinha ido mais, porque pensei “Eu já fui em outras duas e não adiantou, não vai ser dessa vez que vai funcionar”. Só que eu tinha entrado em um buraco que eu não conseguia mais sair sozinha. Então entrei em contato com ela e consegui marcar uma consulta para o mesmo dia. Ela pediu para eu ir também ao psiquiatra porque eu estava provavelmente com depressão (que foi confirmado pelo psiquiatra). Eu falei pra ela “Eu acho que eu tenho Transtorno Dismórfico Corporal” e ela falou “Eu também acho que você tem, mas na época eu não podia te dar um diagnóstico tão rapidamente antes de te conhecer melhor”. Ali começamos a terapia cognitivo comportamental.

2012 (29 anos de idade) – Fiz terapia por um tempo e depois acabei me mudando e não prossegui. Mas segui refletindo  sobre meus pensamentos e continuei lendo muito sobre os assuntos relacionados a auto imagem, auto estima e ditadura da beleza. Percebi que eu não tinha mais os sintomas desse transtorno. Eu não sofria mais por causa da minha aparência, não deixava de fazer nada que eu queria por ter vergonha da minha aparência. Eu tinha descoberto a minha beleza. Eu não me considerava perfeita, mas me considerava uma pessoa normal e com a minha beleza dentro disso.

2018 (35 anos de idade) – Hoje a relação com a minha aparência é muito boa. Ainda tenho algumas insatisfações mas nada que me faça sofrer ou me privar de fazer algo.  Sei que no meu conjunto está tudo normal. Desejo que cada pessoa que sofre por conta da própria imagem busque ajuda, busque tratamento, faça terapia. Não é um caminho fácil mas é um caminho que dá resultado e quando se percebe a mudança acontecendo você vê que valeu a pena todo esse esforço. Me coloco a disposição no que estiver ao meu alcance e também temos um grupo de whatsapp para quem conversar com outras pessoas que passam pelo mesmo problema e grupo de facebook.

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