57% das plásticas são feitas em pessoas que deturpam a própria imagem

O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) pode levar a procedimentos de alto risco em vão

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Diagnosticada com o TDC, a publicitária Solange Cassanelli criou um blog.

PUBLICADO EM 04/11/18 – 04h00
Litza Mattos

Uma mulher “muito alta, muito branca e muito magra”, com os olhos arregalados e grandes, a pele quase completamente manchada por sardas e um papo embaixo do queixo. Era essa a imagem que a publicitária Solange Cassanelli, 35, de Florianópolis, via diante do espelho. Isso a fez buscar inúmeros procedimentos estéticos e cirúrgicos sem sucesso, uma vez que o problema não estava em seu corpo, mas na sua mente. O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é um problema reconhecido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), mas que, muitas vezes diagnosticado tardiamente, leva as pessoas a se submeterem a procedimentos de alto risco em vão.
“O TDC é uma desordem onde a pessoa tem uma percepção exagerada ou até surreal sobre seus defeitos. Às vezes não existe defeito, mas ela acha que tem. Existem vários graus da doença, desde as pessoas com acometimento leve até as que não conseguem se enxergar bem de maneira alguma, podendo até chegar ao suicídio”, explica o cirurgião plástico e membro da SBCP, Gustavo Aquino.

A estimativa é que cerca de 2% da população mundial tenha o transtorno, o que significa cerca de 4 milhões de pessoas só no Brasil. Já a prevalência de sintomas para TDC em pessoas que procuram cirurgias plásticas no país pode chegar até 57%, segundo o Censo 2016 da SBCP.

Segundo Aquino, homens e mulheres são vítimas desse transtorno em igual proporção, no entanto a preocupação maior é com os jovens, dos 15 aos 30 anos. “Segundo dados da sociedade internacional de cirurgia plástica estética, o Brasil é o campeão mundial em próteses de silicone abaixo dos 17 anos. Ou seja, a gente faz muita cirurgia nessa faixa etária, que é justamente a que tem a maior prevalência da doença”, diz.

O principal risco de levar à mesa de cirurgia um paciente com o transtorno, conforme Aquino, é que ele não fique nunca satisfeito. “Você faz um trabalho minucioso, um trabalho em detalhe, muitas vezes uma cirurgia grande e até onerosa, expõe o paciente ao risco como toda cirurgia tem e, no final, ele fica completamente insatisfeito, o que pode gerar até um processo judicial”, analisa.

No entanto, como a doença é multifatorial, cerca de 80% dos cirurgiões identificam o TDC apenas após a cirurgia, uma vez que muitos desses pacientes são funcionais e têm um discurso adaptado e adequado à realidade que buscam modificar.

“Acredita-se que o TDC pode ter uma origem genética e hormonal. Algumas pessoas têm uma baixa do hormônio serotonina – que é o hormônio do bem-estar –, e tem o fator ambiental também. Ou seja, das pessoas que já passaram por algum trauma na vida, seja de bullying ou assédio moral e sexual”, explica o cirurgião.
Sofrimento
“Viver com esse transtorno é bem difícil, eu já perdi amigos por causa disso. Muitos se afastaram. Meu emocional é muito frágil, qualquer estresse desperta em mim crises em relação à aparência”, relata o estudante de medicina em Recife Felipe Farias do Nascimento Sabino, 25.

O estudante conta que sempre sofreu bullying porque sua cabeça tem um formato mais alongado. Isso gerou nele uma fixação em termos de preocupação com a aparência. “Faço terapia e acompanhamento com psiquiatra de 15 em 15 dias”, diz.

Para Aquino, existe um fenômeno agravante global do quadro presente também em nações mais “criteriosas”, como Japão, Itália e México. “Está todo mundo muito imediatista. Já querem resolver o problema sem pensar muito na causa. Você vê um paciente às vezes com um excesso de gordura, em que a pessoa poderia malhar, fazer uma dieta, mas ela já quer fazer a lipoaspiração e resolver. Além disso, no mundo, hoje, a cobrança é muito maior. Os padrões de beleza são extremamente exagerados. Existem aplicativos para cada coisinha que você quer mudar em uma foto, aí você vai criando essa tendência, essa cobrança ao perfeccionismo e até ao exagero. As pessoas não conseguem mais ver que a beleza é um conjunto de fatores”, diz Aquino.

Depoimento
“Tenho dismorfia corporal desde criança. Quando eu tinha 5 anos, um amigo do meu irmão me chamava de feia. Meus pais me colocaram na psicóloga porque eu chorava dizendo que era feia. Fiz terapia, mas acabei saindo. Com 21 anos, voltei para a terapia com outra psicóloga. Foram seis meses e 27 consultas. Saí novamente por não sentir diferença. Comecei a me esforçar e tentar entender que o que importa é a beleza interior, o caráter, a personalidade, os princípios. Os dias começaram a ser difíceis, e adotei um sistema automático: acordar, trabalhar, ir para a faculdade e dormir. Em 2009, vi que não tinha mais condições emocionais para aguentar. Eu estava com depressão e não sabia. Foi quando pela primeira vez li sobre o transtorno. Cada palavra parecia uma biografia. Descrevia exatamente como eu me via e me sentia. Senti um alívio, estava conseguindo achar um rumo. Mas em poucos dias me afundei na depressão. Fui a um psiquiatra que diagnosticou a dismorfia corporal. Comecei a tomar medicamento e a fazer terapia. Foi então que decidi criar o blog (Diário de uma Dismorfia) para ajudar outras pessoas.”
Solange Cassanelli, 35 anos

Fonte: Jornal O Tempo

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