Minha vida até hoje

Nesse post eu vou contar como foi minha vida relacionada com esse transtorno psicológico, que se iniciou na minha infância e como eu vivi com isso, depois meu tratamento, minha cura (ainda fico um pouco confusa se esse é o termo correto) e como é minha vida hoje sem o transtorno.

Nasci em 28/12/1982 em uma família amorosa, sem problemas de convivência.

1987 (5 anos de idade) – Comecei a sofrer bullying de um amigo do meu irmão que me chamava de feia e achava engraçado eu chorar e pedir para o meu irmão bater nele. Como era amigo do meu irmão e eu considerava meu irmão uma pessoa de confiança, eu achava que o amigo dele também era e acreditava que o que ele estava falando era verdade.

1990 – Com +ou- 8 anos de idade comecei a chorar em casa dizendo que era feia. Minha mãe me colocou em uma psicóloga. Lembro que na minha primeira sessão ela pediu para eu desenhar como era minha família. Fiz um tempo de terapia e pedi para minha mãe me tirar porque parecia que ela era apenas uma pessoa que eu falava sobre os meus dias e não alguém que falava algo que me ajudava.

2001 (19 anos de idade) – Os anos foram se passando e eu continuava me vendo da mesma forma. Horrível. Sempre me falavam “Por que você não entra para uma agência de modelo? Você é alta e magra”. Eu nunca gostei da minha altura, tenho 1.79 m. Então com 19 anos recebi um panfleto na rua que era de uma agência de modelo. Pensei “Quem sabe não está aí uma oportunidade de eu gostar de mim?”. Entrei para a Agência. Pediram para eu emagrecer (eu já era magra mas tinha um pouco de barriga – tenho até hoje). Fiz um book, odiei e rasguei quase todas as fotos. Claro, eu não gostava de mim, como ia gostar das fotos que outra pessoa batesse? Eu fiquei travada nas fotos. Saí da agência e não quis mais.

2003 (21 anos de idade) – Eu continuava me sentindo muito mal com a minha aparência e não achava aquilo normal. Voltei por conta própria a fazer terapia (com outra psicóloga). Foram 37 consultas e eu não conseguia ver nada mudando dentro de mim. Na mesma época arranjei um emprego e não consegui continuar com essa terapia, na verdade nem queria mais porque não via resultado. Até aqui eu não tinha recebido um diagnóstico e não sabia o que eu tinha.

2009 (26 anos de idade) – Nessa época eu estava fazendo faculdade, já havia reprovado em algumas matérias e no intervalo raramente saia da sala porque tinha vergonha que as pessoas me olhassem. Decidi que eu ia gostar de mim por conta própria, já que com ajuda de terceiros não estava dando certo. Comecei a me vestir da melhor forma, a andar sempre maquiada. Eu tinha colocado toda a minha energia e tinha acreditado com todas as minhas forças de que aquilo ali daria certo. Só que o tempo foi passando e eu não via mudança em como eu me via e comecei a ficar frustrada. Com isso, comecei a entrar em depressão e não sabia que era depressão porque acreditava que todo mundo tinha problemas na vida e que a vida não era fácil mesmo. Eu tinha dificuldade para dormir e para tomar banho. Com muito esforço eu tomava banho mas não tinha forças para me vestir, então dormia enrolada no roupão e no outro dia, já atrasada para o serviço porque eu tinha dificuldade de fazer qualquer coisa, eu me vestia e ia para o serviço que sempre chegava atrasada.

Comecei a achar que eu não tinha só uma insatisfação, mas um problema psicológico. Mas qual? Então resolvi criar uma espécie de apostila sobre mim, que eu levaria até um psicólogo depois para tentar descobrir o que eu tinha. E comecei minha apostila assim:

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Anotei alguns transtornos mentais que eu achava que poderiam ter a ver comigo, entre elas anotei o Transtorno Dismórfico Corporal que quando li me identifiquei muito. Anotei algumas coisas sobre a minha vida mas vou por em outro post pra não ficar muito gigante este (Aqui tem um trechinho). E no dia 27 de maio de 2009 eu concluí minha apostila escrevendo “Hoje eu não quero saber quais as formas certas que eu deveria me ver e ver minha vida. Se eu souber que eu tenho alguma coisa, nem que seja para dizer que as coisas que eu penso tem algum sentido (mesmo que não tenham fundamento) já vai ser um alívio. Porque vai ser um caminho andado em saber que pode ser solucionado”.

Dois dias depois eu não consegui trabalhar. Cheguei ao trabalho e só conseguia chorar. Então lembrei de uma psicóloga que eu tinha ido há um tempo atrás (que não era nenhuma das duas que eu contei aqui). Eu só tinha ido 3x nela e não tinha ido mais, porque pensei “Eu já fui em outras duas e não adiantou, não vai ser dessa vez que vai funcionar”. Só que eu tinha entrado em um buraco que eu não conseguia mais sair sozinha. Então entrei em contato com ela e consegui marcar uma consulta para o mesmo dia. Ela pediu para eu ir também ao psiquiatra porque eu estava provavelmente com depressão (que foi confirmado pelo psiquiatra). Eu falei pra ela “Eu acho que eu tenho Transtorno Dismórfico Corporal” e ela falou “Eu também acho que você tem, mas na época eu não podia te dar um diagnóstico tão rapidamente antes de te conhecer melhor”. Ali começamos a terapia cognitivo comportamental.

2012 (29 anos de idade) – Fiz terapia por um tempo e depois acabei me mudando e não prossegui. Mas segui refletindo  sobre meus pensamentos e continuei lendo muito sobre os assuntos relacionados a auto imagem, auto estima e ditadura da beleza. Percebi que eu não tinha mais os sintomas desse transtorno. Eu não sofria mais por causa da minha aparência, não deixava de fazer nada que eu queria por ter vergonha da minha aparência. Eu tinha descoberto a minha beleza. Eu não me considerava perfeita, mas me considerava uma pessoa normal e com a minha beleza dentro disso.

2018 (35 anos de idade) – Hoje a relação com a minha aparência é muito boa. Ainda tenho algumas insatisfações mas nada que me faça sofrer ou me privar de fazer algo.  Sei que no meu conjunto está tudo normal. Desejo que cada pessoa que sofre por conta da própria imagem busque ajuda, busque tratamento, faça terapia. Não é um caminho fácil mas é um caminho que dá resultado e quando se percebe a mudança acontecendo você vê que valeu a pena todo esse esforço. Me coloco a disposição no que estiver ao meu alcance e também temos um grupo de whatsapp para quem conversar com outras pessoas que passam pelo mesmo problema e grupo de facebook.

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Consegui me ver normalmente depois do tratamento?

Estou em dois grupos do Facebook sobre Transtorno Dismórfico Corporal. Em uma das publicações que falei que estava à disposição de quem precisasse de algo, me perguntaram “Gostaria de saber se você conseguiu se enxergar normalmente depois do tratamento.”

Vou colar aqui minha resposta:

Eu consegui sim. Hoje consigo ver minha beleza física e gosto do que eu vejo. Diferente do que acontecia uns anos atrás, que sofria com o que eu via. O tratamento psicológico foi fundamental na minha melhora (o tipo de tratamento que fiz foi a terapia cognitivo comportamental) e a leitura também me ajudou muito a abrir meus horizontes e ver que há outras formas de se pensar sobre o assunto beleza. Com isso, minha auto imagem e a minha auto estima foram mudando e comecei a me descobrir.

Acho que é isso que falta para cada pessoa que tem o transtorno dismórfico corporal: se descobrir. Nós (dismórficos) acabamos criando uma imagem na nossa cabeça (e vemos isso no espelho) de como somos e isso não é fácil de consertar. Porém, essa mudança é possível sim. E tirar esse peso das costas do sofrimento com a própria aparência não tem preço. Poder sair na rua sem medo de ser julgada (e se for, não me importo com isso) e poder ser quem eu sou.

O que é preciso esclarecer com a superação do transtorno dismórfico corporal é que a pessoa não vai achar tudo lindo maravilhoso em si. Mas vai entender que aquelas características não são um problema. Por exemplo: Eu não acho o meu nariz o mais bonito para mim. Porém, eu não o vejo mais como um problema. E o meu nariz no conjunto do meu rosto e no conjunto do meu corpo não é um problema e junto com as outras características físicas que tenho faz com que tudo esteja em harmonia e, dessa forma, belo.

A diferença entre uma pessoa com transtorno dismórfico corporal para uma que teve e não tem mais é que as características que antes incomodavam não incomodam mais. Não por uma questão de se conformar com o que não gosta, mas no sentido de então conseguir enxergar que aquela característica não tem nada de errado, que é normal e que no conjunto ela está em harmonia com o restante das outras características físicas. Hoje eu gosto do meu conjunto, me sinto bem como sou. Aceito minhas características porque sei que elas fazem o que eu sou, única. Não existe outra de mim. Não existe outra de você e isso é maravilhoso.

Vou operar meu nariz? Não. Muitas pessoas vão dizer que não há nada de errado com meu nariz. Outras podem até achar meu nariz feio. Só que isso é uma questão de gosto e opinião cada pessoa tem uma. Por mais que eu tenha o nariz “perfeito” nunca vai ser perfeito para todos. Porque “perfeito” não exite, justamente porque não existe um consenso para a beleza. Sempre vai haver opiniões diferentes e isso é ótimo porque dessa forma todos são feios e belos ao mesmo tempo. Hoje eu tenho as mesmas características de quando eu me achava deformada por conta do transtorno dismórfico corporal. Eu tenho olheiras, tenho sardas, tenho o mesmo nariz etc. A diferença é que essas características não tem a mesma intensidade de quando eu estava com o transtorno. E a palavra para tudo isso é equilíbrio.

Grupo do Facebook: https://www.facebook.com/groups/1660848680796787

Não desista de si mesmo

Essa é a resposta que eu escrevi para um depoimento que deixaram no meu blog ano passado e eu queria escrever uma resposta. Hoje eu escrevi e estou postando aqui pois pode servir para outras pessoas:

Li seu relato e queria te dizer que tenho 1.79 e também não gosto. Eu gostaria de ser menor. Aqui na minha cidade (Florianópolis SC) apesar de ser uma cidade de pessoas mais altas que o restante do país, eu sempre sou a mulher mais alta do local. Sou a mais alta até que os homens. Se vou na lotérica e tem 20 pessoas na fila entre homens e mulheres, eu sou a mais alta entre todos. Se eu vou em uma festa, eu sou a mais alta de todos. Pouquíssimas vezes tem algum homem da minha altura ou maior. Eles existem sim, mas geralmente não estão no mesmo lugar que eu. Isso me incomoda muito e já procurei várias vezes na internet se existia uma cirurgia para cortar os ossos da perna para que eu pudesse ser menor. E existe cirurgia para isso? Não existe. Então eu vou ter essa altura para o resto da vida. Eu me considero com muita olheira, muito branca, com papada, etc. Eu vou deixar de ser feliz por causa da minha altura ou por causa de outras características que eu não gosto? Eu não sou só isso. Eu sou muito mais do que a altura que eu não gosto. Eu sou muito mais do que minha olheira, minha papada, minha brancura e tudo que me incomoda. E se essas características individuais eu não gosto, no meu conjunto eu acho que está tudo harmônico.

Eu não sou só aparência e não me interessa pessoas que me vêem somente assim. Eu sou amizade, sou carinho, sou amor, sou alegria, sou bons momentos junto e não vou me privar por conta das características que não gosto. Todo mundo na vida tem alguma coisa que não gosta, até os considerados “bonitos” tem algo que, se pudessem, gostariam que fosse diferente. Só que eles não se privam da vida por causa disso. A vida é feita de bons momentos com quem gostamos, é sair comer alguma coisa que gosta, tomar um suco na beira da praia, é ver o por do sol, é jogar conversa fora com um amigo, é rir num final de semana sem pensar no trabalho de segunda-feira. A vida não é o meu rosto, o meu nariz, o meu olho, minha altura ou o meu peso. Eu não posso me privar da vida por conta de coisas que eu não vou conseguir mudar. Isso não é se conformar com o que não se gosta. É aceitar e viver em paz sabendo que isso não é um problema na vida. É como aquele ditado “O que não tem solução, solucionado está”. Se não tem solução, então vou me preocupar com o que realmente importa e parar de gastar minha energia e meu tempo com o que eu não posso mudar e no final das contas não tem importância. Porque características da nossa aparência não tem importância absoluta na nossa vida. O que tem importância é o nosso bem estar e nos amarmos. Isso que é fundamental.

“A imagem física tem muitos aspectos. É visual – o que você vê quando olha para você mesmo. É mental – como você pensa sobre sua aparência. É emocional – como você se sente sobre seu peso ou altura. É sinestésica – como você sente e controla as partes de seu corpo. É também histórica – moldada por toda uma vida de experiências, que incluem prazer e dor, elogio e crítica. Acima de tudo, a imagem física é uma questão social. Pode residir em sua mente, mas esta fundamentada nas experiências cotidianas que a cercam. O modo como você se sente depende de como se considera avaliado pelos outros. Sua imagem física pode ser abalada pelo julgamento de uma pessoa amada ou pelo assobio de um estranho.”

Esse é um texto de um livro. Cada pessoa é um conjunto de características. Somos nossas características físicas, mas também somos nossas características de personalidade, o nosso caráter, os nossos gostos e todas as nossas particularidades que é o nosso jeito e que isso é o que realmente simboliza o que nós somos. Nós não gostamos de alguém só por causa da aparência dela. Nós gostamos desta pessoa pelo relacionamento que temos com ela (estou me referindo à amizade). Quando conhecemos alguém e gostamos dessa pessoa é porque gostamos da companhia, de como nos trata, de como se refere à nós, dos momentos que passamos junto com essa pessoa, da confiança e reciprocidade que existe e eu poderia listar tantas outras qualidades de um relacionamento de amizade.

Eu não quero chegar aos meus 80 anos, olhar para trás e ver que eu não aproveitei a minha vida porque fiquei lamentando minha altura e minha aparência. Eu quero olhar e ver que vivi da melhor forma possível. Eu tive transtorno dismórfico corporal e perdi uma parte da minha vida, fiquei sem sair, tive depressão, como qualquer pessoa com transtorno dismórfico corporal tem um prejuízo de convívio social (que é um dos critérios para o diagnóstico). Porém, é preciso tratar para sair disso e ter uma vida normal. Viver com o peso que o transtorno nos trás é horrível. Toda vez sair de casa é uma tortura, uma preocupação que as pessoas irão reparar na nossa feiura e que isso vai ser assunto na mesa de jantar de cada pessoa que nos viu. Só que não somos obrigados a viver isso o resto da vida. Podemos nos posicionar diante disso e dizer “eu não quero isso pra minha vida” e então se empenhar em sair disso, através de terapia, leitura e dedicação.

Se auto julgar dizendo “sei que todo esforço que eu puder fazer pra me tornar alguém que eu gostaria de ser é totalmente inútil” tira qualquer possibilidade de resolver o que se está passando. Se você se condena dessa forma realmente não se tem mais nada a se fazer. Agora se, ao contrário, falar “Sei que qualquer esforço que eu fizer vai ser válido e vai me ajudar a sair disso e vai fazer eu me amar como eu sou”, metade do caminho já está andado.

Agora, se auto condenando você já tomou a sua decisão e sua vida vai ser sempre assim porque você está convicto disso. Então vai viver dessa forma e só vai se auto afirmar cada vez mais. A cura começa antes mesmo do tratamento. Quando a pessoa percebe que algo precisa ser mudado, já é parte do processo. E identificar as coisas que precisam ser mudadas é o primeiro passo para tudo mudar e dar certo. Mudar dói, mas nada é mais doloroso permanecer preso a um lugar que não te faz feliz.

Tem uma pergunta simples que nos posiciona em frente às situações da nossa vida. A pergunta é: Eu quero ou não quero isso para a minha vida? Se não quero, então me posiciono diante da situação e trabalho para mudá-la.

Já pensou se toda pessoa com algo que não gostasse se auto condenasse a uma vida infeliz? Os anões, os deficientes físicos, os que mancam, os que não andam, os cegos, os que não tem um braço, as pessoas com diabetes que vão ter que tomar remédio o resto da vida, as pessoas com câncer que apesar do problema não desistem diante da vida, etc etc etc, são tantos exemplos. A auto piedade não é uma dádiva e nos coloca em situação de vítima. E em situação de vítima tiramos a nossa responsabilidade de fazer algo para mudar isso porque eu não sou mais o responsável pela situação.

Se empregos, relacionamentos e a própria vida foi comprometida por conta do transtorno dismórfico corporal, chegou a hora de mudar essa situação e batalhar para fazer uma realidade nova. Onde eu posso sair de casa sem me preocupar com quem está me vendo porque estou em sentindo bem comigo mesmo, onde eu sei que quando se interessam por mim é porque realmente se interessaram por mim e não por falta de opção, que quando me elogiam é porque realmente querem me fazer um elogio sobre o que estão falando e não por pena.

Quando leio seu relato eu sei a dor que você passa porque eu passei também por isso. Você deve ter visto no meu blog como eu me via. Eu editei uma foto minha do jeito que eu me via para a minha psicóloga ver como eu me enxergava, eu me via deformada. Eu fiz uma espécie de diário para a terapia que eu fazia na época, onde eu incluía as coisas que achava importante registrar. A primeira página do meu diário é a imagem de uma boneca e de um mundo e um texto que diz “Oi, meu nome é Solange e eu tenho 26 anos. Eu moro em dois lugares: em mim e no mundo. Porém, eu não gosto de morar em nenhum dos dois”. Toda vez que eu leio eu choro. Toda vez. Já se passaram quase 10 anos, mas eu lembro do que eu passei. Eu tomava banho no escuro, passei pomada a base de ácido no rosto na tentativa de tirar as manchas que eu via no meu rosto e ficava escutando meu chefe tirando sarro do meu rosto vermelho. Eu lixei meus dentes com lixa de unha porque nenhum dentista queria arrancar meus dentes “tortos” para por um implante pra eles ficarem retos. Não ache que eu banalizo o seu sofrimento. Eu só quero que você entenda que isso que você está vivendo não é normal. Não há porque se conformar com isso porque a verdadeira realidade é outra. Mas só com tratamento você vai conseguir ver isso.

O exercício de tentar confrontar e sair, para que se veja que está exagerando e o mundo não é como se vê e que está projetando coisas irreais devido a um problema psicológico não funciona. Não funciona e piora a situação. Vou explicar o porquê. Porque se cria uma expectativa em cima de uma situação, sendo que não há como ver a situação diferente sem tratamento. É como uma pessoa diabética querer medir a glicose do sangue para comprovar que a glicose está controlada mas sem tomar remédio. Não vai estar. Não vai estar porque a pessoa não fez nada para mudar a situação que se encontrava. O ano não vai ser novo se você for o mesmo. Não tem como continuar tendo as mesmas atitudes e esperar resultados diferentes. Não tem como esperar uma realidade diferente se você continua se odiando, se você continua se auto depreciando, continua considerando que você não é digno de ter uma namorada, de alguém tem admirar. Não tem como alguém amar você se nem você se ama. É preciso tratar para isso mudar.

Se faz 24 anos que você deixou de viver, então chegou a hora de nascer de novo. Eu tenho uma tatuagem da data que eu me mudei pro Rio de Janeiro no meio do meu tratamento de dismorfia corporal porque essa data representa para mim o meu novo nascimento em relação a minha auto imagem e a minha auto estima. Em relação à minha vida. E que bom que podemos renascer quantas vezes for preciso sem precisar morrer de verdade. Que bom que podemos recomeçar a qualquer hora. Basta a gente decidir isso.

É preciso se empenhar para as coisas certas. As coisas certas são: terapia, psiquiatra, leitura e dedicação para si mesmo. Sem uma dessas faltar não funciona, uma coisa está interligada a outra e tudo precisa acontecer junto para funcionar. O único que talvez não seja necessário é o psiquiatra mas depende de cada caso e no seu caso acho indispensável.

Como tudo na vida pra dar certo a gente precisa de dedicação. Se queremos ter graduação de algum curso precisamos enfrentar 4 anos de aula (alguns 2 anos, mas que seja). Não é possível fazer 1 mês de aula e já querer se formar. É preciso frequentar as aulas, estudar, aprender e então no final do período necessário vai estar formado e com conhecimento. Se quiser aprender a tocar piano, não da para assistir uma aula no youtube ou fazer uma aula presencial e achar que já vai sair tocando. É preciso dedicação, estudar, treinar, fazer isso por um tempo e então vai estar pronto para tocar piano até de olhos fechados. O tratamento do transtorno dismórfico corporal é a mesma coisa. Levar a terapia a sério, levar a medicação a sério, levar a leitura a sério e ter disciplina como tudo na vida para dar certo. Tem que ter o comprometimento mas o resultado vem.

1 – Ir a um Psiquiatra que saiba sobre o transtorno para tomar uma medicação que diminua seu sofrimento e que te ajude a voltar ao convívio social. Só o tratamento com remédio não adianta. É preciso as outras etapas do tratamento também, mas o remédio ajuda como uma bóia para quem está se afogando. A bóia não vai ensinar a nadar mas vai ajudar a pessoa a não morrer afogado.

2 – Terapia. Fazer terapia pra tratar o transtorno. Começar a se descobrir, descobrir sua beleza, quais as suas qualidades etc. O tipo de terapia que eu gosto muito é a Terapia Cognitivo Comportamental, que é a terapia que minha psicóloga usa e no meu ver dá grande resultado em pouco tempo porque usa perguntas que te faz refletir e também trabalha com tarefas. Se quiser, dê uma lida na internet sobre esse tipo de terapia.

3 – Ler. No meu blog, no menu, tem “Livros” com ótimas indicações de livros sobre auto imagem e ditadura da beleza. A leitura ajuda a abrir a mente, ver novos horizontes, conseguir refletir e entender muitas coisas que se pensa errado. Dá para comprar em sebo eles mais barato, mas até novos eles não são caros. No site www.estantevirtual.com.br você consegue ver sebos de todo o Brasil e as vezes encontra pra comprar na sua cidade.

Os 3 livros que eu considero os mais importante sobre auto imagem, auto estima e ditadura da beleza:

– A beleza está nos olhos de quem vê – Camila Cury
– Imperfeitos, livres & felizes – Christophe André
– Meu corpo, meu espelho – Rita Freedman

Mas você pode ler o que achar mais interessante, existe uma quantidade enorme de livros sobre esses temas.

Não se pode ter pressa para terminar o tratamento. Isso é como um curso sobre nós mesmo. É um curso onde vamos nos conhecer. Onde teremos uma aula por semana (com o psicólogo) e depois estudaremos em casa (com leitura) e exercícios (colocando em prática o que estamos aprendendo). Não da para ter pressa. Começar hoje e daqui dois meses dizer “não está adiantando de nada”. O processo é lento mesmo. Eu demorei 3 anos pra dizer que tudo estava sob controle e que eu tinha saído disso mas cada pessoa tem seu ritmo. Pode ser mais, pode ser menos, o importante é que o resultado venha, independente do tempo. Tem que ter paciência. A pressa, a expectativa, a ansiedade, nada disso ajuda. Bem pelo contrário só faz a gente desistir. E desistir não resolve nossos problemas.

Eu quero te dizer que o que eu puder te ajudar você pode contar comigo. Os outros poderão andar ao seu lado, mas ninguém poderá andar por você. Torço para o seu sucesso e precisando é só entrar em contato.

Não torne as coisas eternas

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Eu recebo vários emails e 90% deles giram em torno que preciso esclarecer aqui. A Os emails que eu recebo contam suas histórias de sofrimento por conta de como essas pessoas se enxergam e como acreditam que é sua aparência e a maioria deles possuem o início disso tudo em algum momento do passado onde alguém falou algo a respeito delas (bullying ou qualquer outro tipo de comentário).

Minha primeira observação sobre isso é o seguinte: Existem pessoas más no mundo que vão nos inferiorizar e vão gostar de fazer isso. Essas pessoas se sentem bem humilhando, ridicularizando ou seja que tipo de atitude má que vão fazer. O que não se pode fazer é aceitar o que as pessoas falam como verdade. Eu digo isso porque eu fiz isso por muito tempo da minha vida. Como já contei aqui no blog, o meu transtorno dismórfico corporal começou na infância quando eu tinha apenas 5 anos de idade quando o amigo do meu irmão me chamava de feia (ele tinha 15 anos) e ria porque eu chorava. Pra ele era uma brincadeira, pra mim era uma tortura e isso prejudicou muito minha auto estima e a minha segurança conforme eu ia crescendo. No colégio veio a fase de bullying me chamando de saracura, girafa, olho esbugalhado e tantas outras coisas que muitos adolescentes também passam. Vou por aqui algumas fotos minhas da minha adolescência.

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Acima eu com 13 anos, ainda crescendo. Eu era muito feia, magrela, sem curvas que outras meninas da minha idade já iam tendo. Eu usava aparelho, uma franja toda torta. Vocês vão olhar a foto e dizer “Está normal para uma adolescente passando por transformação” mas eu me via nessa época como um E.T.

O que não podemos é pegar uma época “ruim” da nossa vida, tomar como verdade o que falaram de nós e e eternizar ela que o resto da nossa vida vai ser assim. A vida e o mundo estão em constante transformação. Você não é mais o mesmo de hoje e não é o mesmo de amanhã. Essa imagem do começo da postagem “Não tornar as coisas eternas” foi uma tarefa que minha psicóloga deixou pra mim pois quando eu tinha um problema na minha vida eu eternizava aquele momento como se aquilo nunca mais fosse acabar. E tudo acaba uma hora. Eternizar momentos é o que acontece com os suicidas. Eles acham que o que estão passando não vai ter fim e por isso se matam.

Eu cresci e com cerca de 15 anos eu tinha crescido e não gostava da minha altura. Comecei a andar arcada (ainda ando e tento corrigir isso) e as fotos daquela época mostram como eu me curvava para tentar ser menor.

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Os anos foram se passando, descobri que meu sofrimento tinha nome (transtorno dismórfico corporal) e comecei a tratar. Consegui resolver isso na minha vida e hoje não tenho mais. Tem dias que me acho feia, tem dias que não quero que batam foto de mim, mas sei que isso é normal de qualquer ser humano porque não somos robôs. Só que apesar de me sentir as vezes assim isso não me faz sofrer e me aceito como eu sou e sei que sou um conjunto de características e que vão ter pessoas que vão gostar de mim assim e vão ter pessoas que vão me achar feia também porque isso é questão de gosto de cada um e não tem nada a ver com o meu valor.

Não me acho muito bonita em fotos sem maquiagem mas sei que a maioria das pessoas também ficam assim e que uma maquiagem, um pose bem feita e um filtro na foto ajudam muito e olhamos fotos dos outros e achamos que somos a escória da sociedade.

A gente se olha no espelho e queria ser igual a outra pessoa que é bonita e não percebe que uma iluminação boa, um ângulo bom e acima de tudo UMA BOA AUTO ESTIMA faz qualquer foto ficar boa. E para as mulheres a maquiagem ainda ajuda. Vou usar minhas fotos como exemplo:

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Não to nenhuma modelo né. Mas se arrumar o cabelo, passar uma maquiagem, colocar uma roupa legal, por um sorriso no rosto já ajuda. Como vemos nas fotos abaixo:

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Claro que arrumada ta mais bonita mas também não tem nada de errado comigo sem maquiagem. E também não tem nada de errado com você do jeito que você é. Só que quando temos o transtorno dismórfico corporal nós nos vemos diferente. Você estudou na escola que o olho é a “ferramenta” que nos faz ver mas quem lê essa informação é o cérebro. Se o cérebro está com problema, ele vai ler essa informação errada. Que é o que faz você se ver de forma diferente do que você é.

Como eu me via:

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Isso foi uma ilustração que eu fiz pra mostrar pra minha psicóloga na época que eu fazia terapia pra ela entender como eu me via. Porque eu achava que eu explicava pra ela mas ela não entendia o grau de como eu me via. Você pode ver que todas as características que eu coloquei na foto eu tinha, como olhos grandes, sardas, olheiras, dente torto (na época era bem pouquinho, depois arrumei) e papada. Mas que essas características não me fazem essa aberração que está nessa última foto. É isso que acontece com você. Se você não gosta de algo no seu corpo usando uma escala de 0 a 10 onde 0 é bonito e 10 é horrível. Você vai considerar seu “defeito” na escala 10 e as pessoas vão considerar 0 ou 2, por exemplo. Vai ser algo muito imperceptível, insignificante. É isso que vocês precisam entender que a dismorfia corporal vai colocar muita gravidade em algo normal.

Outra observação que quero fazer é que não podemos dar o poder para ninguém decidir pela nossa vida. É como Fábio Junior canta “Nem por você, nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos. Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos.” Quem decide pela sua vida é você, oras! E se eu decido que sou interessante sim, que tenho qualidades sim, que pessoas se interessam por mim isso vai acontecer porque isso é uma verdade para mim e então eu fico aberto a novas oportunidades na minha vida. Enquanto eu disser que sou feio, que não sou interessante todas as portas estão fechadas. Não ache que alguém vai te amar se nem você mesmo se ama.

Tenho outras coisas pra postar sobre ditadura da beleza, que é de um perfil do Instagram chamado @mbottan. Quem quiser da uma olhada lá nas fotos e nos textos que ela posta, mas depois vou fazer um post só sobre as postagens dela (com os prints do perfil dela). Por enquanto esse post já tem muita coisa pra ler.

“Admito que é inata em nós a estima pelo próprio corpo, admito que temos o dever de cuidar dele. Não nego que devamos dar-lhe atenção, mas nego que devamos ser seus escravos. Será escravo de muitos quem for escravo do próprio corpo, quem temer por ele em demasia, quem tudo fizer em função dele. Devemos proceder não como quem vive no interesse do corpo, mas simplesmente como quem não pode viver sem ele. Um excessivo interesse pelo corpo inquieta-nos com temores, carrega-nos de apreensões, expõe-nos aos insultos; o bem moral torna-se desprezível para aqueles que amam em excesso o corpo.” Sêneca (filósofo, Séc. I)

Beleza é uma questão subjetiva

Eu comecei a responder um comentário que deixaram aqui no blog e acho que deveria virar um post. Então estou colando ele aqui e vou complementar mais algumas coisas. O assunto em questão é quem tem dismorfia corporal (homem ou mulher) e:
– sofreu bullying quando criança/adolescente (não é obrigatório);
– se considera muito feio e sem conserto;
– acha que as pessoas estão mentindo quando dizem que você é bonito.

Minha opinião é a seguinte:

Eu também sofri muito bullying na infância e adolescência e nem por isso sou anormal. E os outros leitores do blog que já entraram em contato comigo e me mostraram foto eram pessoas normais e que eu considero pessoas bonitas. O problema é que ficamos tão abitolados na nossa verdade (de que somos deformados de tão feios) que não cogitamos a possibilidade de haver outras óticas, outras percepções sobre isso. Então a gente nem aceita que as outras pessoas pensem diferente de nós, porque nós que temos a verdade absoluta e não há chance de isso mudar.

Então estamos fadados a morrer nos considerando a pessoa mais feia do mundo. Vamos nos permitir ser um pouco flexíveis e nos dar a oportunidade de poder ver as coisas também por outro ângulo, de avaliar as coisa por outro lado também, e perceber que talvez aquela pessoa que nos falou que nos acha bonita realmente ache isso. Qual a vantagem de uma pessoa elogiar a sua aparência sem achar isso de verdade? Se você não perguntou nada e a pessoa te elogiou, não faz sentido achar que ela está fazendo isso por sacanagem/mentira. Vamos pelo menos levar em consideração as pessoas do seu convívio, que não tem nada a ganhar com isso. Ninguém faz esse tipo de “caridade”.

Vamos nos permitir fazer uma terapia e refletir sobre nossos pensamentos. Vamos nos permitir ler livros sobre assuntos relacionados a tudo isso. Vamos abrir nossa mente e vamos nos permitir ter novas experiências, novas atitudes. É como uma frase que diz “Se você continuar tendo as mesmas atitudes que sempre teve, vai continuar obtendo os mesmos resultados que sempre obteve.”. O que você quer para a sua vida? Você quer sofrer para o resto da vida ou quer ter novas atitudes e ter uma vida mais feliz? A vida muda quando você muda.

A dismorfia corporal tem cura. Muitos profissionais dizem que não há cura, que só há um controle. Eu não concordo. Eu tive dismorfia desde criança mas até esse assunto ser de conhecimento dos psicólogos passei por alguns no decorrer da vida e a terapia não chegava a lugar nenhum porque o psicólogo não sabia o que eu tinha e me tratava somente como uma insatisfação da minha aparência. Só fui diagnosticada com dismorfia por psicólogo e psiquiatra aos 27 anos quando minha vida afundou numa depressão séria por conta disso tudo que eu sentia e não sabia o que era. Então com o diagnóstico consegui ter um rumo e comecei o tratamento com terapia, com remédio para sair da depressão e a leitura de muitos livros (os nomes dos livros estão no menu do blog, em “livros”). E desde 2012 eu não tenho mais nenhum sintoma de dismorfia corporal. Já são 5 anos assim e a cada ano é um ano a mais para essa conta. Só quem sai da dismorfia sabe o peso que tiramos das nossas costas, de poder sair na rua sem preocupação do que estão achando de nós. E eu não sou a única que não tem mais dismorfia.

O Robert que era leitor aqui do blog também não tem mais dismorfia há anos. Antes de ele superar isso ele deixou um depoimento pra nós aqui no blog. Clique aqui para ler. Outro dia eu tentei entrar em contato com ele, se ele queria escrever um relato sobre a superação da dismorfia dele e ele me falou que como foi uma fase difícil da vida dele, ele quer deixar isso pra trás e não lembrar mais disso. Mas ele também está aí, a prova viva de que da para sair disso sim.

Eu saio que nem uma mendiga na rua e não me importo. Eu não deixo de ir a nenhum lugar por causa da minha aparência e nem sofro por isso. Hoje me considero uma pessoa normal e sei que minha beleza é única, singular, e que vão existir pessoas que me acham bonita e outras que vão me achar feia porque isso é uma questão de gosto de cada pessoa, e não porque eu sou. Beleza não é uma coisa concreta, é uma coisa subjetiva! Vamos ao conceito de “subjetivo”.

Subjetivo é tudo aquilo que é próprio do sujeito ou a ele relativo. É o que pertence ao domínio de sua consciência. É algo que está baseado na sua interpretação individual, mas pode não ser válido para todos. 

Entendeu? A definição de beleza vai variar de pessoa pra pessoa mas isso não quer dizer que você não é bonito porque alguém não considera que você é. O seu valor está em você e não no que as outras pessoas acham de você.

Temos que refletir a respeito.

Dismorfia Corporal e o Selficídio

Selficídio, que palavra nova e esquisita né? Se me perguntassem o que é isso eu ia dizer que é sobre pessoas que se fotografam enquanto cometem suicídio.

Maaaaas, pelo que saiu na reportagem da UOL sobre o assunto é “o termo é um neologismo para relatar um sintoma do TDC (transtorno dismórfico corporal), doença mental caracterizada por uma insatisfação com a própria imagem”.

A minha opinião sobre a dismorfia corporal e as selfies é que os dismórficos batem foto sim. Não todos, há os que não batem foto por nada nesse mundo. Mas o que batem e postam acabam batendo muitas fotos, mais de 100 e tentam achar sempre a melhor pose e a melhor iluminação para uma foto ideal. Se der pra usar maquiagem (homens com dismorfia também usam maquiagem, não é raro) para camuflar e melhor ainda mais o resultado da foto assim será feito.

Eu não acho que o “Selficídio” é de agora. Isso já começou na época do Fotolog (quem lembra?) em 2004 e depois passou por Orkut, Facebook e agora Instagram. Eu mesma tenho fotos quando eu ainda tinha dismorfia corporal, com muita maquiagem, muita luz e muito Photoshop na cara pra poder ser postado. E tenho conversas de MSN (saudades msn) em brincadeira proibindo minhas amigas de postar minhas fotos no orkut sem minha autorização (porque eu tinha que ver se gostava da foto e editar antes de serem publicadas).

O dismórfico busca a auto afirmação através das curtidas, dos elogios, mesmo tendo aquela dúvida se as pessoas estão sendo verdadeiras, porque ele não se vê da forma que as pessoas falam. Na entrevista da UOL me perguntaram “você é contra as selfies?” Não sou. Acho legal a pessoa bater foto e publicar se isso faz bem pra ela. O que eu sou contra é a ditadura da beleza impondo sempre a pessoa perfeita que não existe. Olhe a sua volta, quais pessoas você conhece, do seu convívio que possuem o padrão de beleza imposto pela mídia?

Vou mostrar algumas fotos que eu publicava na minha época de Fotolog e Orkut.

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Olha a quantidade de efeito do Photoshop nessa foto de cima, parece uma boneca de cera.

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Fotos sempre com muita luz e muito efeito pra que não aparecesse minha olheira e meu olho esbugalhado.

E meu papo com minha amiga em 2008 (eu na época com 25 anos) proibindo ela de por minhas fotos no Orkut.

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Perguntas e Respostas sobre mim e a Dismorfia Corporal

Vou por aqui todas as respostas que respondi para a entrevista da UOL. Segue:

1. Gostaria de saber qual sua profissão, estado civil e cidade onde mora. Hoje você tem 28 anos?
Hoje eu tenho 34 anos. Moro em Florianópolis SC, sou publicitária, solteira.

2. Você menciona que desde criança se sentia feia. Como era sua relação com as fotos? Ainda não havia a selfie, mas ver sua imagem nas fotos de papel ou digitais te causava algum desconforto? Tem alguma história para contar sobre isso?
Eu não gostava de bater fotos quando criança e até chorava porque não queria (tenho foto com a familia chorando porque não queria bater foto). Depois quando cresci e veio as máquinas digitais eu batia bastante selfie, usava bastante maquiagem, batia mais de 100 pra escolher uma e depois editava no photoshop pra tentar diminuir as imperfeições.

3. Atualmente você faz terapia?
Não. Eu fiz terapia quando pequena (quando eu tinha uns 7 anos), minha primeira sessão de terapia foi desenhando minha família, fiz por cerca de 2 anos. Depois fui crescendo sem conseguir resolver o problema de me achar feia, fiz terapia novamente com 21 anos e ficava na mesma, a gente não progredia com o tratamento porque a psicóloga não sabia que era dismorfia corporal (não conhecia esse tipo de transtorno ainda pouco conhecido). Em 2007 cheguei a ir em outra psicóloga mas achei que não ia adiantar tentar novamente, então não segui o tratamento. Então em 2009 (com 27 anos) eu estava com depressão e não sabia. Achava que todas as pessoas tinham problemas na vida e era normal sofrer. Não conseguia dormir e chorava todas as noites. Então fui pro Google tentar descobrir o que eu tinha porque vi que aquilo não era normal. Fui lendo sobre distúrbios do sono porque a princípio estava pensando que eu não conseguia dormir. Depois passei pra distúrbios psicológicos, li sobre alguns tipos de esquizofrenia e fui passando de distúrbio por distúrbio até que cai na Dismorfia Corporal. Quando li, parecia um relato sobre a minha vida. Na hora já me identifiquei e tive quase certeza que era aquilo que eu tinha. Voltei na mesma terapeuta que eu tinha ido em 2007 porque era a única que eu consegui pensar no momento e comentei com ela sobre a dismorfia corporal. Ela falou que eu tinha mesmo e então começamos o tratamento e ela me encaminhou para o psiquiatra porque eu estava visivelmente com depressão (eu nem conseguia falar, só chorava). Fiz o tratamento por 6 meses, uma sessão por semana no começo e depois passamos para uma sessão a cada quinze dias. Li muito sobre dismorfia corporal, auto imagem e ditadura da beleza. No final do ano decidi me mudar de cidade e interrompi a terapia mas continuei o tratamento com o psiquiatra tomando os remédios. Em 2011 percebi que eu não tinha mais nenhum sintoma da dismorfia corporal e até hoje considero algo superado na minha vida. Os especialistas dizem que não existe cura para a dismorfia corporal mas que existe um controle, então posso dizer que está controlada sem sintomas. Eu não sou a única com esse relato de superação, há outro leitor (homem) do blog que relatava sua vida difícil por causa da dismorfia corporal e que com esforço conseguiu mudar e hoje não se considera mais com dismorfia. Infelizmente ele não da entrevista porque diz que se trata de uma época triste de sua vida que prefere esquecer.

4. Em que medida aquela foto alterada, mostrando como você se via para a sua terapeuta, auxiliou no tratamento? Você se incomoda se publicarmos como você se via e como é? Ou prefere mandar outra foto?
Eu fiz a foto porque eu achava que só falando como eu me via não mostrava a proporção dos defeitos que existiam para mim. Minha psicóloga imaginava como eu me via, entendia sobre o assunto e me compreendia mas eu achava que ela não entendia o grau disso. Fiz então para ilustrar como eu era para mim. Pode publicar a foto, essa foto já foi publicada em revista e passou no programa da Fátima Bernardes.

5. O transtorno afetou seus relacionamentos afetivos? Você namora ou é casada?
Até meus 27 anos afetou sim porque sempre fui insegura por conta que me achava feia e que ninguém ia se interessar por mim. E que se alguém se interessasse seria por pena. Depois que superei a dismorfia já tive outros relacionamentos e minha aparência não interfere em mais nada. Hoje sou solteira, tive recentemente um namoro de 3 anos que terminou por outros motivos que não tem a ver com a minha aparência e hoje procuro alguém que goste de mim pelo que eu sou por dentro, mas não me considero feia.

6. Quando o quadro foi controlado e o que precisou acontecer para que fosse considerado controlado?
O quadro foi considerado controlado a partir do momento que eu não tinha mais nenhum sintoma da dismorfia corporal. Como por exemplo o isolamento social, sofrer por conta da aparência, ver defeitos que não existe, tentar esconder algum defeito, deixar de ir em algum lugar porque as pessoas vão reparar em você, ficar conferindo sua aparência o tempo todo etc. Eu nunca mais deixei de fazer nada por conta da minha aparencia.

7. Você ainda toma medicação? A medicação que tomou foi para depressão?
Não tomo mais. A medicação que tomei foi para depressão porque a depressão que eu tinha era por conta da dismorfia corporal, da frustração que eu tinha com a minha vida. Tomei Citalopram 20 mg.

8. Você sofria de ansiedade quando se via no espelho ou em fotos? O que sentia?
Sim. Todos que tem dismorfia corporal tem ansiedade. Eu ficava ansiosa e frustrada porque via muitos defeitos e achava que eu ia ser assim pro resto da vida. Eu não tinha dinheiro pra fazer as cirurgias que eu queria pra corrigir meus defeitos e torcia que um dia as coisas mudassem e eu conseguisse fazer todas as intervenções cirúrgicas e dermatológicas pra ficar bonita..

9. Pela sua relação com o público, através do blog, você considera que a tecnologia e as selfies têm piorado a relação das pessoas com o próprio corpo?
Não. Eu acho que quem bate selfie é porque gosta de si mesmo e é saudável a gente se cuidar e se amar. O que eu sou contra é a ditadura da beleza e a imposição de padrões do que é bonito e o que é feio.

10. Em sua opinião, qual a influência do padrão de beleza das modelos e atrizes -e a forma como ele é vendido como sendo o exemplo a ser seguindo- sobre a autoimagem das meninas?
Existe um padrão de beleza imposto pelas agências de modelo do que é a medida ideal. Além das revistas e propagandas de produtos de beleza que estipulam o que é um corpo bonito e isso virou um rótulo. As pessoas acabam buscando esse ideal inexistente, somente uma pequena parte da população possui as medidas de uma modelo e nem por isso as outras pessoas não são bonitas. E com isso as pessoas (homens também sofrem de dismorfia) acabam se frustrando por não estarem dentro desse padrão de beleza. Temos que entender que não somos só uma altura, ou só um nariz, só um olho, só um cabelo, só uma barriga etc. Somos um conjunto de características exteriores junto com nossas características interiores (nosso caráter, nossa personalidade, nossos gostos pessoais etc). Isso é o que compõe o que somos e é isso que tem valor.

Quero também dizer que a maioria dos emails que recebo de pedido de ajuda são de homens e não de mulheres. Será que a dismorfia atinge mais homens que mulheres? Não sei dizer porque para isso ser confirmado precisaria de uma pesquisa bem elaborada. O que eu posso dizer sobre isso é que muitas mulheres devem sofrer com a dismorfia corporal e não sabem porque hoje a imposição do corpo perfeito com a ditadura da beleza muitas mulheres devem achar que estão sofrendo por não estarem dentro dos padrões de beleza mas que isso não é um distúrbio psicológico.

Também é preciso diferenciar a dismorfia corporal de uma pessoa que faz muita plástica simplesmente por estética. Uma pessoa com dismorfia vai querer fazer muitas cirurgias plásticas mas nem todo mundo que faz muita cirurgia plástica tem dismorfia corporal. O que diferencia uma pessoa da outra é que a pessoa com dismorfia corporal faz as plásticas porque sofre com aquele problema enquanto a outra não sofre, apenas está insatisfeita e procura uma melhoria. Um exemplo de uma pessoa sem dismorfia que já fez várias plásticas é a Angela Bismarchi.

 

Busca pela foto perfeita é sinal de doença e até já tem nome: selficídio

Dei entrevista para a UOL essa semana. Segue abaixo a matéria.

08/02/17

Busca pela foto perfeita é sinal de doença e até já tem nome: selficídio

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Melissa Diniz
Do UOL

Com o avanço da tecnologia e a popularidade dos celulares com câmera, o hábito de tirar selfies (fotos de si mesmo) e postar em redes sociais virou uma febre. Mas não é todo mundo que lida bem com a própria imagem. Quem sofre de selficídio costuma perder horas tentando chegar à imagem perfeita, o que gera ansiedade e frustração.

A publicitária Solange Cassanelli, 34, de Florianópolis (SC), começou a sentir na pele este sintoma muito cedo. “Quando tinha sete anos, comecei a fazer terapia, pois sempre me achei feia. Eu não gostava de tirar fotos, tenho algumas, com a família, em que apareço chorando. Quando cresci, surgiram as máquinas digitais eu tirava mais de cem, usando bastante maquiagem, para escolher apenas uma. Depois ainda editava para tentar diminuir as imperfeições”, conta.

Solange demorou a entender a causa de seu sofrimento. “Eu tinha 27 anos quando descobri pela internet. Ao ler sobre o transtorno dismórfico corporal, senti que parecia um relato sobre a minha vida. Na hora, já me identifiquei. Levei o diagnóstico para a psicoterapeuta, que confirmou e me encaminhou a um psiquiatra”, diz.

Para que a terapeuta entendesse melhor como ela se via, Solange editou uma foto sua, inserindo as imperfeições que enxergava em si mesma. “Minha psicóloga imaginava como eu me via, mas eu achava que ela não entendia o grau disso.”

Além da psicoterapia, Solange precisou fazer uso de antidepressivos. “Eu não sabia que tinha depressão. Achava que todas as pessoas tinham problemas na vida e era normal sofrer. Não conseguia dormir e chorava todas as noites.”

Durante o tratamento, ela criou o blog Diário de uma Dismorfia para auxiliar outras pessoas que sofrem do transtorno a compreender e superar a condição.

Seu quadro hoje está controlado. “Em 2011, percebi que eu não tinha mais nenhum sintoma e até hoje considero algo superado na minha vida.”

Defeitos que não existem

Segundo a psiquiatra Maura Kale, que faz parte da rede Doctoralia, plataforma digital que conecta profissionais de saúde e pacientes, o termo é um neologismo para relatar um sintoma do TDC (transtorno dismórfico corporal), doença mental caracterizada por uma insatisfação com a própria imagem. “Normalmente, há uma distorção na maneira como a pessoa se vê. Ela enxerga defeitos onde não existem e não consegue achar a foto boa. Então, tira muitas, apaga e depois tira outras, sem se contentar, pois tem padrões inatingíveis de exigência.”

Ter vício de fazer selfies, como a socialite Kim Kardashian, não caracteriza, necessariamente, o selficídio. “O transtorno está presente se houver prejuízo à vida da pessoa e consequente sofrimento”, diz.

Ponta do iceberg

O selficídio, explica a médica, precisa ser investigado, pois, em geral, revela outros problemas sérios. “Além do TDC, é comum que a pessoa também tenha TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), pois tem uma obsessão com sua imagem. Pode apresentar, ainda, transtorno narcisista, ansiedade, depressão, anorexia e até mesmo ideia de suicídio.”

Além da enorme perda de tempo em função das fotos, o selficida tem baixa autoestima, dificuldades de relacionamentos e constante busca por aceitação. “O mecanismo de postar fotos de si mesmo é uma espécie de autopromoção. A pessoa procura conseguir as curtidas em uma tentativa de obter o respaldo dos outros. Mas, primeiro, usa aplicativos e programas de edição para deixar a foto perfeita”, explica Maura.

Selficidas também são frágeis emocionalmente, bastante vulneráveis a críticas e frequentemente insatisfeitos. Complexo, o quadro precisa ser tratado com psicoterapia e, em muitos casos, com medicação.

Manifestação precoce

Apesar de atingir muitos adultos –de ambos os sexos– o transtorno dismórfico corporal costuma se manifestar ainda na infância. “A maior incidência, segundo pesquisas, é na faixa que vai dos dez aos 15 anos. Quando investigados, os casos quase sempre revelam a existência de abuso, relacionamentos difíceis com os pais e bullying”, diz Maura.

A especialista considera que os pacientes que sofrem do transtorno costumam se espelhar em modelos de beleza sustentados pela indústria da moda, publicidade e pelas revistas de beleza. “São parâmetros irreais e que, por comparação, geram muito sofrimento.”

Fonte: UOL

Daiana Garbin e a Dismorfia Corporal

Gente, to vendo agora o vídeo da Daiana Garbin (essa da foto abaixo, esposa do Tiago Leifert que apresenta o The Voice) e ela falando que ela odeia o corpo dela me deu uma angústia, porque eu já passei isso que ela ta passando, eu já falei isso que ela ta falando e eu tomo as dores de quem tem dismorfia corporal porque esse pessoal é tão incompreendido, isso é tratado pelos outros como uma besteira, e essas pessoas sofrem em silêncio e acreditam piamente que o que pensam é verdade. E eu que agora posso dizer com tranquilidade que hoje eu gosto de mim por dentro e por fora, quero que essas pessoas possam chegar nisso também.

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O blog esteve fora do ar por um ano e meio por conta de um problema na hospedagem e eu acabei demorando pra por de volta no ar. Daí quando a produção do programa Domingo Espetacular da Record me convidou pra falar a respeito por conta da matéria que ia ser feita sobre a Daiana Garbin, corri e coloquei o blog de volta no ar (gente, algumas imagens e alguns links ainda não estão funcionando, estou arrumando).

Agora o blog vai voltar a ter postagens frequentemente sobre o assunto de dismorfia corporal (um pouco menos sobre anorexia e vigorexia). O blog é rico de informações a respeito. Naveguem que vocês irão encontrar muita coisa bacana.

Meu email de contato é diariodeumadismorfia@gmail.com e fiz um face só pra dismorfia corporal (não tenho mais face pessoal, deletei). O face que eu fiz voltado pra dismorfia é: Solange Dismorfia Corporal (https://www.facebook.com/solangedismorfia)
Peço que se for me add pra mandar um inbox falando que é por causa aqui do blog, porque muita gente nada a ver com o assunto adiciona.

O apoio dos pais para filhos com Dismorfia Corporal

Recebi um email com o relato de uma pessoa com Dismorfia Corporal, e um dos pontos relatados era o fato dos pais não entenderem o que o filho está passando. Não foi a primeira vez que alguém me relata essa dificuldade com os pais a respeito da Dismorfia.

Eu tenho pais maravilhosos e não tenho nada a reclamar deles. Nunca me faltou nada, sempre tive plano de saúde, estudei em escola particular e meu pai pagou minha faculdade. Puxaram minha orelha quando errei. Nunca houve brigas e o diálogo sempre predominou na relação familiar. Sempre fomos uma família bem estruturada e harmoniosa. Agora eu pergunto. Qual foi a opinião da minha mãe quando eu estava no auge da dismorfia corporal? Qual a opinião do meu pai quando eu estava com depressão? Minha mãe dizia que o motivo de eu me achar feia e chorar por isso era falta do que fazer. Na época eu não trabalhava ainda, tinha lá meus 19 anos e ela dizia que se eu arranjasse um emprego e ocupasse a cabeça eu ia parar de pensar essas besteiras. Meu pai dizia que eu não fazia as coisas porque eu tinha preguiça, enquanto o que eu tinha era depressão e não tinha forças se quer para conseguir tomar banho.

Eu culpo eles? Não. Porque cada um tem uma maneira de ver os fatos. Minha mãe sempre me achou bonita. Na cabeça dela ela nunca ia entender que eu me via da forma que eu me via. Porque se uma pessoa é bonita, logo ela vai se ver bonita. Só que não.

Meu pai nunca teve depressão. Então ele não conseguia entender a diferença entre preguiça e depressão. Para ele ficar na cama, não ter vontade de fazer as coisas, ficar desleixado é preguiça. E uma filha dele que sempre teve tudo que precisou, qual motivo teria para ter depressão? Então ele não entendia isso.

Para você que tem Dismorfia Corporal e tem pais relutantes em aceitar que você está passando por isso, infelizmente preciso dizer que essa batalha você vai ter que vencer sozinho. Quando eu descobri que tinha dismorfia corporal (porque por muitos anos eu não sabia que a forma que eu me sentia e me via tinha nome) eu fui no google, imprimi sobre a doença (seus sintomas, tratamento etc), deu uma folha. Cheguei na cozinha onde estava meu pai e minha mãe na mesa e falei “Olha, existe um problema psicológico que tem todos os sintomas de como eu me sinto. Eu vou deixar o texto aqui se vocês quiserem ler.”

Se isso é diagnosticado por médicos, não é uma besteira. Porém em muitas situações na nossa vida não poderemos contar com todos que queríamos. Mesmo assim é preciso seguir em frente. Deve haver terapia com preço mais barato na sua cidade. Geralmente em clínicas que tem um psicólogo a consulta sai mais barata. Aqui na minha cidade (Florianópolis) a consulta sai R$ 60,00 em uma clínica. Procure na sua cidade, deve ter algumas opções mais em conta também.

Pra finalizar. Não culpe seus pais por não aceitarem sua Dismorfia Corporal. Eles não entendem isso. Eles tiveram outra criação, possuem outras opiniões e para eles ter um filho que se acha feio sendo bonito é difícil de aceitar.

Mas não desista, tempos melhores virão. 🙂