Congresso sobre Transtorno Dismórfico Corporal

Transtorno Dismórfico Corporal
Do corpo real à feiura irreal

Data: 19 a 20 de outubro de 2012
Público-alvo:  Profissionais e estudantes da área de saúde

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Conteúdo do Curso: 

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Eu queria ir, pena que to longe 🙁

Transtorno dismórfico corporal

Transtorno dismórfico corporal
Por Dra. Maria Cristina Ramos Britto – http://www.psicologiaesaude.com

No campo das ciências médicas e biológicas, a doença precede o diagnóstico e o tratamento, e é assim também na área da psicologia. Muito se tem a pesquisar ainda, tanto em relação às enfermidades do corpo, como câncer e Aids, quanto aos males da alma. Uma doença física ou mental pode ter mais de uma causa e, em relação ao transtorno dismórfico corporal (TDC), há várias hipóteses, poucas certezas e um longo caminho em termos de cura.
O TDC caracteriza-se por insatisfação em relação a uma ou mais partes específicas do corpo, o que provoca sensações de desconforto e ansiedade, que pode evoluir para uma não aceitação do aspecto físico, mesmo que a percebida imperfeição seja mínima ou inexistente. A pessoa então começa uma via-crúcis a consultórios de dermatologistas e cirurgiões plásticos, em busca de solução para o seu problema. Como o desconforto é subjetivo, os resultados das intervenções frustram o indivíduo, que volta a procurar os mesmos profissionais ou tentar outros, numa busca inútil.
O transtorno tem origens multifatoriais, ou seja, não se pode apontar uma causa apenas. Concorrem para o aparecimento do TDC fatores neurobiológicos, provocados por um desequilíbrio químico no cérebro. Há os fatores psicológicos, relativos a características de personalidade, também os sociais e culturais, além dos ambientais e familiares.  A síndrome provoca significativo sofrimento emocional e prejuízo no desempenho em importantes áreas da vida, desde a profissional aos relacionamentos afetivos, familiares e sociais.
Num mundo globalizado, as diferenças se diluem. O mercado é um poder visível nos outdoors e anúncios, no cinema, na gastronomia, na cultura e na política. Como canta Caetano Veloso, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, entre estas, a humanidade. A vida de boa parte da população do planeta virou uma corrida maluca em direção ao consumo, ao acúmulo de bens e serviços que se acredita precisar sem mesmo saber por quê. Aí entra o corpo, como um objeto a ser modificado, melhorado, transformado para ser amado, reconhecido. Mas de quem é este corpo, já que quem o habita não o aceita? Esta é uma das questões apresentada pelo TDC.
A pressão exercida pelos pais, em relação à aparência física deles mesmos e dos filhos, contribui para o desenvolvimento deste distúrbio. Pais exageradamente críticos, sempre envolvidos com dietas e exercícios físicos, tratamentos dermatológicos e cirurgias plásticas, passam a mensagem de que o importante é o exterior, que beleza é garantia de sucesso. Mas a criança ou adolescente pode desenvolver insegurança, problemas de autoimagem e autoestima e outros mais graves se sofrer abuso psicológico e/ou físico, se os pais forem ausentes ou indiferentes às necessidades deles e não fornecerem os cuidados básicos para um crescimento saudável.
Isto não significa que filhos de pais que encaram a questão estética de forma totalmente diferente não desenvolvam o TDC. Ainda há os outros fatores desencadeantes, já mencionados. Pais cujos filhos evitam o contato social, trancam-se no quarto e manifestam baixa autoestima, dizendo-se feios e desinteressantes, devem averiguar se o jovem não é vítima de bullying. Se não for o caso, é indicado procurar orientação a respeito de outros distúrbios, como depressão, ansiedade, fobia social. O diagnóstico correto é fundamental para o tratamento, que, quanto mais precoce, melhor o prognóstico.

Depoimento do Robert

Abaixo o depoimento do Robert, um amigo meu que conheci através do blog. Pedi pra ele escrever um depoimento pra vocês. Principalmente por iniciativa dele tomar atitudes pra superar tudo isso.

Bem pessoal, posso dizer que o meu transtorno ocorreu em meados de 2006, mais precisamente em fevereiro, dois meses após eu ter concluído a faculdade. Ter concluído a faculdade sem nunca ter namorado e vendo que, todos os meus primos e amigos já haviam tido namoradas, me fez pensar que isso, era tão somente por causa da minha aparência. Comecei a achar que o fato de não ter sido popular na faculdade, nem nunca ter namorado, era por causa da minha aparência. Tais pensamentos melancólicos e perturbadores desencadearam este transtorno, que surgiu em mim de uma forma intensa, provocando logo em seguida, forte depressão e pensamentos suicidas.. Fiquei vivendo uns 6 meses como um morto-vivo.   Ainda bem que meus pais, maravilhosos e compreensivos, cuidaram de mim. Passei então, a trabalhar com o meu pai.

Concomitante ao trabalho do meu pai, passei a me interessar por alguns livros de psicologia. Então comecei a ler alguns que pudessem me ajudar a ser uma pessoa mais confiante. Queria me tornar mais confiante. Queria encontrar alguma maneira de superar aquela doença que até então eu não sabia o nome. E os livros de psicologia me deram uma grande motivação e vontade de viver e de lutar.  Porém eu sempre continuava bastante atormentado pelo transtorno. Tinha dificuldades para me expressar, para conversar com desconhecidos, para dar risada(pois achava que a minha aparência ficava muito deformada), pesquisava preços de cirurgias plásticas, etc..  Mas agora eu havia conquistado algo muito valioso: a motivação de um dia conseguir a cura para este transtorno destruidor, independente do que fosse preciso.

Fiz uma verdadeira busca por tratamentos, para uma doença que eu sequer sabia que existia e que eu enxergava apenas como “neurose”. Descobri vários tipos de tratamentos alternativos para doenças psíquicas, como EMDR, Hipnose, Dianética, PNL, etc… Cheguei inclusive a pagar R$ 640,00 por um tratamento  on-line de PNL (é, fui ingênuo, eu sei) onde o suposto “guru” me garantiu de que realizaria a minha cura..   Eu tive direito a 5 sessões. Depois da quarta sessão eu me desanimei e nem quis mais ver o sujeito.

De 2006 a 2010, eu passei praticamente trabalhando junto com meu pai num comércio, fazendo alguns bicos de montagem/manutenção de computadores, lendo livros de auto-ajuda/psicologia e prestando concursos… Enfrentei algumas crises bravas da doença tb, onde tinha vezes que eu queria morrer por causa do “suposto defeito estético”.

Minha vida só começou a mudar mesmo a partir de maio/2010, quando eu fui chamado para trabalhar num órgão público no qual eu havia prestado concurso. Quase morri de alegria. Nem acreditei. Estava sem emprego registrado desde 2006 e batalhando bastante para arrumar um emprego.  Que bênção.

Porém, havia milhares de fantasmas na minha cabeça. Eu estava meio que longe da sociedade, sem frequentar cursos, sem trabalhar, nem nada, apenas em casa, estudando e procurando emprego. Eu tinha medo e certeza de que quando eu fosse trabalhar, as pessoas me zombariam e me desprezariam única e exclusivamente por causa da minha aparência, não importa o quão carismático eu fosse. Me achava um monstro, uma escória e que as pessoas se distanciariam de mim por causa da minha fisionomia. Mas estava disposto a ir pra guerra e não perder a liberdade de viver.

Comecei a trabalhar. Lembro que no começo eu possuía uma grande dificuldade de concentração e tinha que me esforçar bastante pra me concentrar, pois eu sempre imaginava que as pessoas estavam olhando pra minha aparência, pensando como eu era tão feio. E eu não conhecia os recursos necessários para enfrentar e suportar essa doença. Toda vez que eu ia ao banheiro e olhava para o espelho, aquilo disparava a crise, me deixando umas 3 horas tenso e perturbado.

O dia que foi o mais crítico, foi quando eu quase cheguei a surtar no trabalho. Perturbado e bem torturado por causa da minha aparência, eu não conseguia me concentrar e estava muito aflito, sem conseguir nem entender nada e a cabeça bem perturbada…  Ainda bem que por coincidência, esse era justo o dia que eu tinha consulta com o psiquiatra. Consegui sair da empresa sem surtar e fui à consulta.

Lá expliquei tudo, mas tudo o que acontecia comigo, todo o sofrimento, toda a perturbação, todo o tormento. Ficamos 1 hora conversando. Não tive vergonha de revelar nenhum detalhe da doença… Ele me ouviu, falou que eu tinha muita ansiedade e que eu precisava de remédios.. Me recomendou 3 comprimidos de sertralina por dia. Disse ainda que conforme eu fosse tomando os remédios, eu teria mais controle e equilíbrio sobre a doença.

Depois disso, continuei a pesquisar obsessivamente sobre os sintomas dessa doença pra ver se eu encontrava alguma terapia adequada.. Nessas pesquisas, finalmente eu descobri que essa doença tinha um nome e que se chamava Transtorno Dismórfico Corporal. Foi uma verdadeira revelação essa descoberta. Agora, de posse do nome da doença, eu poderia procurar pelo tratamento mais adequado. Infelizmente, creio que milhares de pessoas que possuem esta doença não a conhece pelo nome.

Então, eu descobri uma comunidade do orkut sobre a tal doença e la, encontrei um tópico realmente esclarecedor, de uma pessoa portadora do TDC que já havia feito uma intensa pesquisa acerca da doença, tendo comprado até mesmo livros americanos sobre a mesma, pois lá, o conhecimento sobre tal transtorno é maior. Inclusive lá nos EUA, há clínicas especializadas apenas nesta enfermidade e a disponibilidade de terapeutas é muito maior.   Mas, para a minha imensa felicidade, aqui no Brasil também há doutores qualificados para tratar dessa doença. Após alguns contatos, encontrei uma doutora que tratava de pacientes com ansiedade, ocasionados por diversos tipos de transtornos, inclusive pelo TDC. Comecei a me tratar com ela. Ela foi me guiando pelo caminho correto e me dizendo o que eu podia e o que eu não podia fazer. Começava então um desafio.

As primeiras “ordens” dela, foi pra eu parar de me olhar no espelho procurando meus “defeitos estéticos” e pra eu fazer enfrentamentos. Era assim que se combatia a doença. Parar de se checar no espelho, faz com que você não alimente o transtorno e fazer enfrentamentos, significa você se expor, ir conversar com desconhecidos, pedir opiniões, frequentar lugares rodeados de pessoas como academia, shows, etc. Isso faz com que aquele medo de que todos vão te reparar e cochichar sobre sua aparência, vá se desmistificando. Cada enfrentamento que você faz é um golpe acertado na doença e faz com que o monstro do TDC vá se enfraquecendo aos poucos. É como se o transtorno do TDC fosse do tamanho de um dinossauro no inconsciente da pessoa e a cada golpe levado, o dinossauro vá se enfraquecendo. Porém isso não é nada fácil pra quem tem o transtorno. Fazer enfrentamentos é complicado, mas uma vez que a pessoa decide declarar a sua liberdade e passa a enfrentar essa doença custe o que custar, o impossível se torna possível.

Muitas vezes eu cheguei a parar pessoas na rua pra pedir informações sobre determinado local(que eu já sabia rs) apenas para me expor. Pedia informações para pessoas em pontos de ônibus. Conversava com vendedoras e entrava em lojas sem querer comprar nada, apenas para acelerar o tratamento. Saía a noite pra baladas, abordava garotas, me expunha. Cheguei a fazer curso de teatro, algo que me ajudou também. Concomitante a isso, fiz um baita de um esforço pra parar de me checar no espelho. Tive várias recaídas, isso é verdade. Mas consegui diminuir significativamente as checagens. Ah, não poderia também, deixar de falar dos remédios, que foram essenciais para meu tratamento e que sem eles, nenhuma melhora haveria ocorrido. Faço questão até de enfatizar: para esta doença, os remédios são essenciais.

Tudo isso, fez com que eu conseguisse resgatar o prazer de viver e encontrar a liberdade que havia sido perdida durante uns 4 anos. Passei a viver como uma pessoa normal, trabalhando, saindo com amigos, curtindo a vida. Saí do abismo do TDC e resgatei a alegria de viver…  Algo que todo mundo deveria ter o direito.

Mas descobri que é preciso que estejamos sempre em alerta e saber que infelizmente ainda não há cura definitiva para esta doença (pelo menos não que eu saiba) e que qualquer descuido, recaída, pode causar alguma tormenta. Mas que hoje em dia, já há recursos e ferramentas EFICAZES para que possamos lidar e controlar esta doença quando a mesma quiser nos fazer uma “visita” desagradável.

Descobri também que o TDC é uma doença que faz parte do TOC e que normalmente, quem tem o TDC também tem TOC… E é algo que atualmente me policio bastante tb e luto para que eu o mantenha sob controle.

Ainda continuo fazendo tratamento. Gostaria de agradecer a minha terapeuta, pois sem ela, eu não conseguiria chegar até onde eu cheguei e nem ter conseguido resgatar a alegria de viver. Obrigado Dra. C.G. Gostaria também de agradecer à minha família e à Deus, que também foram fundamentais nessa minha jornada.

Espero que este depoimento sirva de alguma forma, para alguém. Abraços.

To nas bancas – Revista Sou mai eu

 

To nas bancas. Revista Sou Mais Eu! da Editora Abril, edição n. 288 do dia 24 de maio de 2012. O moço da banca disse que chegou terça-feira e nas bancas que eu passei algumas já não tinham mais. Custa R$ 2,00 e dentro da revista tem uma página dupla que eu falo sobre dismorfia corporal e a Dra. Maria Cristina Ramos Britto explica o que é.

Para ver outras participações minhas na mídia clique aqui.

Viciada em plástica nos lábios quase morre

Os problemas de Lauren Smalley começaram durante sua adolescência, na cidade de Hampshire (Inglaterra). Com apenas 12 anos de idade, ela foi diagnosticada com ansiedade aguda, insônia e transtorno obsessivo compulsivo e hoje admite que se sente deformada.

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Lauren Smalley, de 30 anos, quase morreu ao passar por cirurgias para remover preenchimento labial de seu rosto. Ela, que usava Bio-Alcamid para modelar a boca, acabou tendo um tipo de infecção no sangue.

Bio-Alcamid é um composto derivado do ácido acrílico, que é injetado na forma líquida, mas cria uma ‘prótese’ permanente no interior do corpo.

E após uma década de problemas, um cirurgião foi finalmente forçado a retirar o produto do lábio superior em uma cirurgia de três horas depois que uma septicemia invasiva – suspeita de envenenamento do sangue – ser diagnosticada.

Foram três horas dolorosas para a remoção, que causou pequenos tumores (chamados granulomas) na cara dela. Um cirurgião teve que abrir o lábio superior e arrancar o produto, segundo o tabloide britânico The Sun.

Lauren enfrentou anos de tratamentos caros e dolorosos para reconstruir o lábio.

Ela disse: “Eu espero que isto sirva para avisar outras pessoas sobre os efeitos potencialmente devastadores desse produto que me deixou hospitalizada. Bio-Alcamid me deixou terrivelmente ferida e deformada.

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Os problemas de Lauren começaram enquanto crescia em Hampshire (Inglaterra). Na idade de 12 anos, ela foi diagnosticada com ansiedade aguda, insônia e transtorno obsessivo compulsivo.

A baixa auto-estima com esses problemas se transformaram em transtorno dismórfico corporal – uma doença mental em que as pessoas tornam-se obcecadas com falhas físicas ou feiúra imaginária.

Agora Lauren, que é analista financeira em Bristol, Inglaterra, vai ter que passar por tratamentos para reconstituir seu lábio deformado.

Ela começou a fazer essas cirurgias por conta de uma desordem dismórfica — ou seja, ela ficou obcecada com o corpo e ficava procurando defeitos em si mesma. O problema surgiu aos 12 anos.

Lauren tomava medicamentos, mas mesmo assim queria, de qualquer forma, consertar o rosto, que ela achava ser muito feio.

— Sinto-me deformada agora. Eu gostaria de dizer para qualquer pessoa que pense em colocar preenchimentos labiais que tenha cuidado.

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Lauren se convenceu que a única maneira dela superar suas inseguranças era através de cirurgia estética. Ela disse: “Eu trabalhava nos fins de semana e economizei dinheiro tanto quanto eu podia. Aos 18 anos, fiz uma consulta com um cirurgião”.

“O único procedimento que meu dinheiro dava para pagar foi melhorias no lábio. Foi o primeiro passo para um mundo que quase me destruiu”.
Pior: ela gastava entre R$ 800 e R$ 950 por mês para fazer as injeções nos lábios. No final, ela disse que estava aliviada porque a infecção foi embora, mas nervosa porque as enfermeiras e clínicos de estética não identificaram que ela tinha problema e fizeram as injeções mesmo assim.

Veja fotos de antes de fazer preenchimento.

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Lauren antes do preenchimento, depois do preenchimento e, por fim, após a remoção do produto – e a reconstrução:

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Fonte: Maceió 40 Graus

Veja também Como arruinar um rosto e Como arruinar um rosto 2

Para ver outros casos de dismorfia corporal clique aqui.

Inimigos do Espelho

inimigosQuem quiser ler uma matéria de uma revista on-line chamada One Health Magazine sobre dismorfia corporal que eu participei é só clicar na imagem acima.

Procura-se Psicólogo e Psiquiatra em Curitiba

Procura-se Psicólogo e Psiquiatra em Curitiba que saiba o que é Dismorfia Corporal.

Se alguém tiver algum pra indicar me manda por email diariodeumadismorfia@gmail.com, deixa comentário aqui no post ou clica em “Contato” no menu embaixo do banner e preenche o formulário.

Obrigada!

Cefalometria e Transtorno Dismórfico

PARÂMETROS DE HARMONIA, BELEZA E ATRATIVIDADE

“Os parâmetros de beleza estão em constante modificação, conforme raça, país, origem, local onde vivem, e depende também da época na qual estamos trabalhando.”
Por Dr. Roberto Chacur

A cefalometria estuda as dimensões do crânio e da face e é uma importante ferramenta que pode auxiliar em muito no planejamento para o tratamento estético, no entanto, não é exato.

Os conceitos de beleza variam conforme raça, origem e país onde nosso paciente vive, de modo que a beleza de um oriental é muito diferente se compararmos a beleza dos ocidentais. Isso se aplica não somente a parte facial como corporal. Outro fator variante é que, conforme a época, os conceitos vão mudando. Geograficamente, quando falamos em pacientes americanas na praia logo associamos a seios fartos, e quando pensamos em brasileiras logo associamos e glúteos redondos, grandes e empinados, não obstante, ainda varia conforme a região do país onde trabalhamos. O protótipo das cariocas, nos últimos anos, tem sido corpo definido, pernas grossas, glúteos enormes e percentual de gordura em torno de 6%.

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“A boca da Angelina Jolie fica bonita nela, mas não fica bonita em qualquer rosto.” Esta frase mostra que alguns parâmetros podem nos auxiliar, mas tudo é um conjunto, por isso não existe um software perfeito e o que mais conta, em minha opinião, é o bom senso estético de quem está realizando o procedimento, a capacidade de perceber pequenas alterações que farão a diferença e, também, de perceber se o resultado desejado vai de encontro ao que o paciente procura. Não é raro, entretanto, nos depararmos com pacientes com resultados extraordinários se estranharem e desejarem reverter. Alguns trabalhos mostram um índice muito grande de dismorfismo em pacientes estéticos, algo em torno de 13%.

TRANSTORNO DISMÓRFICO

Transtorno Dismórfico é uma desordem mental que se caracteriza por afetar a percepção que uma pessoa tem da própria imagem, muitas vezes, se sentem deformadas por alterações mínimas ou inexistentes. Cria-se uma obsessão pela busca de um resultado que esta pessoa jamais conseguirá, o que acaba prejudicando muito, não somente o paciente, mas as pessoas que estão ao seu redor e, logicamente, a nós médicos. O paciente com dismorfia, geralmente, não aceita o diagnóstico por se jugarem sadias e vaidosas, assim, precisamos ficar atentos ao mínimo sinal, e se preciso, não realizar tratamento estético nestes pacientes antes de uma avaliação com especialista.

Atualmente, é comum que culturalmente as pessoas fiquem fanáticas e se escravizem, com uma fixação doentia na aparência e, também, por meios pelos quais se almeja o resultado do qual elas procuram. Por estas e outras razões, a cefalometria pode nos servir como base para demonstrar ao paciente que ele está dentro dos padrões de beleza e que o tratamento proposto, e que ele aceitou fazer, foi, sim, positivo.

Máscara de Phi e a Proporção Divina

São muitos os estudiosos que, até os dias de hoje, tentam encontrar uma forma de padronizar o conceito de beleza, usando e criando parâmetros para isso. Sabe-se, no entanto, que os padrões humanos para a definição de beleza são influenciados por forças culturais, geográficas e temporais.

O cirurgião plástico Steven Mar­quardt ficou mundialmente conhecido por desenvolver uma máscara que se baseia em sequências matemáticas, de modo a determinar se um rosto é bonito ou não. A caracterização ocorreria ao sobrepô-la ao rosto estudado e buscando determinar regiões a serem preenchidas para se necessário, serem diminuídas ou aumentadas.

A máscara

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Também conhecida como máscara “Phi”, por seguir a medida áurea (phi) ou “proporção divina” de 1,618. Esta, teria uma relação da base do triângulo com seus lados encontrada em tudo na natureza. No passado, foi muito utilizada pelos gregos, inclusive como base ao construir o Parthenon. Ainda antes, as pirâmides do Egito possuíam estas proporções, aplicadas no tamanho das pedras utilizadas na sua construção. A máscara usa como padrão o “triangulo de ouro”, onde a relação do lado maior pelo lado menor é de 1,618.

A incessante busca da beleza ou proporção ideal, que identificou na natureza esta relação, foi muito bem escrita por Fibonacci em meados de 1200 que, ao estudar a criação de coelhos, encontrou a relação 1,2,3,5,8,13,21,34,e assim por diante, sempre somando um número ao número anterior, resulta a sequência de Fibonacci. Coincidentemente, os cientistas encontram estas proporções em tudo na natureza.

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Os exemplos de Fibonacci

Um exemplo surpreendente dessa precisão é a proporção de abelhas fêmeas em relação a abelhas machos em uma colmeia, que corresponde à 1,618. A divisão dos galhos de uma árvore segue a sequência de Fibonacce. A proporção que aumenta as espiras do caracol é de 1,618. O espiral que os astros formam entorno do sol também possui uma relação de 1,618, e por isso o Phi (1,618) ficou conhecido como divina proporção.

Os padrões humanos para definição de beleza são culturais, geográficos e temporais. Entretanto, eles variam muito conforme raça e sexo. O que surpreende é o fato de a máscara “unisex de maquardt” continuar se “encaixando” e servindo como uma referência.

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Para montar esta máscara Jefferson e Maquardt utilizaram proporções da natureza, a denominada proporção áurea (proporção de ouro) ou proporção divina, encontrada em tudo na natureza, além de um vasto banco de imagens de pessoas consideradas atrativas nas mais variadas raças.

No entanto, não podemos considerar e se fixar em uma máscara para determinar se um rosto é belo, a atratividade depende, também, de outros fatores e características individuais de cada um.

Segundo estes estudos, as características que definiriam um rosto bonito são a simetria facial; região do malar proeminente e jovem; lábios “carnudos”; arco sobrancelha arqueado; nariz estreito; cor e qualidade da pele.

Demonstração de harmonização facial

Veja no vídeo a seguir, uma demonstração em que a máscara é sobreposta a um rosto qualquer. Em seguida, com a ajuda de um software para edição de imagens, são realizadas virtualmente as modificações necessárias para que os traços entrem em conformidade com os ângulos do molde com a “proporção áurea”.

Meu blog não ta aceitando por o video direto aqui, então quem quiser ver o video clique no link a seguir: http://www.youtube.com/watch?v=N4fUjzqCC-8

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Agora a minha opinião, eu, Solange, dona desse blog achei uma merda essa edição do cara. Fiz um print do video com a foto original e a edição final. Alguém avisa ao idiota que o nariz fino não combina com o rosto dela? E não sei pra que levantar as sobrancelhas da moça, a original ta bem melhor. E a boca? Ficou torta, a boca dela é bonita, não precisa mexer. Quando editou a olheira da moça quase tive um piripaque, como se fosse um defeito. Pára tudo! Não tem a menor razão de tirar esse detalhe. Resumindo, achei uma merda total esse negócio de “harmonização facial”. Se eu fosse Roberto Justus eu falaria “Você está demitido”. Tudo isso só serve pra uma coisa: deixar a gente mais obcecada por uma perfeição que nem é necessária. Desse jeito vamos achar que o que já está bom está uma merda. 

A beleza relativa

“a beleza está nos olhos de quem vê”
PLATÃO, Atenas, (348 – 347 a.C.)

Apesar desta afirmação – filosófica e sabia – existem características peculiares no qual o formato dos rostos são consenso e considerados atrativos e belos. Critérios como altura da testa = altura do nariz = 1/3 inferior rosto; largura do nariz = largura dos olhos; distância interocular = largura do nariz; distância entre os olhos  = largura dos olhos; largura da boca = 1,5 x largura do nariz (Maquardt considera 1,618 – proporção Phi); largura da face = 4 x largura do nariz.

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Fonte: Clínica de Bioplastia

Será que tenho dismorfia corporal?

Algumas pessoas que passam pelo blog dizem que se identificaram com os sintomas mas que não sabem se possuem a doença.

Por isso criei esse ítem no menu, com a intenção de ajudar quem tem dúvida a identificar se tem dismorfia corporal ou não.

Em primeiro lugar, quem tem que dizer se vc tem ou não dismorfia corporal é um médico profissional dessa área. Resumindo, um psiquiatra. Mas tem que ser um psiquiatra que saiba que essa doença existe, pq é comum encontrar psiquiatras que não sabem o que é isso. Experiência própria.

Falando de forma bem teórica, a dismorfia corporal consta no DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e no CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde). É necessário ter TODOS os três sintomas abaixo para ser considerada com a doença:
a) o indivíduo preocupa-se com um defeito imaginário na aparência e se uma mínima anomalia está presente, tem preocupação marcadamente excessiva com essa;
b) a preocupação deve causar estresse significativo ou prejuizo na vida social, ocupacional ou outras áreas do funcionamento;
c) essas queixas não podem ser caracterizadas como outro transtorno mental, tal como a anorexia nervosa.
(Se quiser ler mais sobre dismorfia corporal clique aqui).

Se mesmo assim vc ainda não tem certeza, vou explicar com o português comum. Uma pessoa com dismorfia corporal tem hábitos específicos que caracterizam bem a doença. Porém, não adianta vc se identificar com um ou outro, tem que se identificar com pelo menos mais da metade.

Os hábitos de quem tem dismorfia são:

1. Vc fica muito tempo na frente do espelho olhando o que vc odeia na sua aparência. Se vc está no quarto ou no banheiro não perde a oportunidade de ficar com a cara colada no espelho. Ou evitam espelhos.
2. Quando vc sai da porta de casa pra fora acha que todos estão reparando como vc é horrível. E além de reparar tb acha que eles comentam.
3. Se vc fala pra alguém da família ou amigo do seu defeito (a nivel de deformação) a pessoa diz que não é nada do que vc diz. Ou pelo menos não do jeito exagerado que vc diz ser.
4. Vc deixa de ir a qualquer lugar público (festa, shopping, praia) por se achar muito horrível para as pessoas te verem (isso tb pode incluir parar de trabalhar ou estudar)
5. Vc quer fazer todas as cirurgias plásticas possíveis e impossíveis pra consertar o que vc odeia na sua aparência. Vc já chegou a ir a consultas com cirurgiões plásticos e dermatologistas pra arrumar esse defeitão.
6. Com certa frequência vc chora de tanta tristeza por ser tão feio.
7. Quando falam que vc é bonito(a) vc tem certeza que tão de sacanagem.
8. Vc não consegue pensar em outra coisa a não ser como vc é feio e como as pessoas estão reparando como vc é.
9. Vc não vai a lugar algum sem maquiagem (óculos escuros, boné, etc), nem mesmo à padaria ou à portaria do prédio.
10. Vc confere sua aparência em qualquer superfície que reflita sua imagem, as mais comuns são janelas de carros e vitrines de lojas.
11. Vc fica comparando sua aparência com a de pessoas famosas que vc acha bonita.
12. Vc já quis (ou quer) morrer (isso inclui se matar) pq é insuportável aguentar esse peso que é viver com a aparência que vc tem.
13. Vc nunca namorou ou acredita que quem demonstra interesse por vc é por pena ou pq vc é tão feio(a) que é mais dificil levar um fora.
14. Vc não consegue conversar olhando nos olhos das pessoas ou quando anda na rua não olha pra ninguém.
15. Vc foge de fotografias como o diabo foge da cruz.

Ok, li e acredito que tenho dismorfia corporal. O que devo fazer?
Procure um psiquiatra. Pare com esse medo idiota de achar que psiquiatra só serve pra cuidar de gente de manicômio, que baba e  usa camisa de força. Se vc não quer se ajudar então não vem se queixar pra mim depois. Eu tenho dismorfia corporal e to dizendo aqui o que é importante fazer pra superar isso. Tudo o que eu to dizendo aqui eu fiz e hoje consigo viver bem melhor.

O que o psiquiatra vai fazer?
O objetivo principal do psiquiatra é te medicar. Ele não fez psicologia na faculdade, ele fez MEDICINA. O psiquiatra não é psicólogo, apesar de tb ter psiquiatra que faz terapia. O que é bom.

Como é a consulta com o psiquiatra?
Vc vai sentar na frente do(a) psiquiatra. Ele vai estar atrás de uma mesa de consultório, com um computador, blocos e receituários. Diferente do psicólogo que vc senta em um sofá e o psicólogo em outro e entre vcs não tem nada. O psiquiatra precisa saber como é a sua vida, sua rotina e como vc se sente (e se vê). Vc precisa falar tudo. Se ficar escondendo as coisas do médico não sei qual a razão de vc ir lá. Ele ta ali pra te ajudar, se vc ficar escondendo as coisas dele o único prejudicado é vc. Com base no que vc falar ele vai saber qual é o melhor remédio pra vc. O remédio vai regular a serotonina e da dopamina (explicando de forma grosseria são substâncias do cérebro responsáveis pelo seu bem estar) e vai ajudar a diminuir as “alucinações”. Em outras palavras, vc não vai ficar tão atormentado por causa do seu nariz horroroso, sua pele manchada ou seja lá qual for a sua reclamação. O remédio não vai fazer vc se achar se achar mais bonita(o), mas vai diminuir a sua dor emocional, vc vai sofrer menos por causa da sua aparência. O psiquiatra vai pedir pra vc voltar em um mês, pra saber como está sendo a adaptação com o remédio. O remédio demora cerca de 15 dias para começar a fazer efeito, pq nesse tempo o corpo está se acostumando com o que está recebendo. O que vc vai tomar não é como remédio para prisão de ventre. Não adianta vc tomar hoje e achar que amanhã já vai se sentir melhor. Conforme vc se sentir ao fim do primeiro mês o psiquiatra vai manter essa medicação ou fazer alguma adaptação, como aumentar a dose ou trocar de substância.

Ah, mas eu não quero tomar remédio.
Ok, então não tome. Vc pode melhorar sem tomar remédio, mas é um caminho mais longo e doloroso. Eu tomo remédio todo dia por causa da dismorfia corporal e não vejo problema nisso. Tem gente que tem problema do coração e toma remédio todo dia, tem gente que tem diabete e toma remédio todo dia, pq eu não posso tomar remédio todo dia? Meu bem estar vai melhorar, vou conseguir viver melhor, vou conseguir me relacionar com as pessoas e com o mundo melhor, e o mais importante, vou conseguir me relacionar comigo mesma melhor. Se mesmo assim vc não quer tomar remédio, tente homeopatia, floral, alguma medicina/terapia alternativa.

Preciso fazer terapia?
É bom fazer. Vai ajudar muito a vc superar tudo isso. Vai aprender a rever seus conceitos. Suas opiniões pré formatadas e a mudar as suas verdades únicas que só existem pra vc e vc nem sabe. O tipo de terapia que eu recomendo (opinião minha) é a terapia cognitivo comportamental.

A terapia cognitivo comportamental é empregada para problemas tais como: dificuldades existenciais, mudanças de estilo de vida e até questões mais específicas como pânico, depressão, ansiedade, anorexia, obesidade, bulimia, obsessões e compulsões.

A terapia desenvolvida nesta abordagem acontece em conjunto com o paciente, onde o mesmo identifica, examina (auto-avalia) e corrige as distorções do pensamento que causam seu sofrimento emocional e tem como objetivo auxiliar o paciente na correção dos pensamentos distorcidos ou disfuncionais, para que o paciente se sinta melhor emocionalmente e para que se comporte de maneira mais produtiva na busca de suas metas.

O que mais preciso fazer?
Cada um precisa achar seu próprio caminho. Os profissionais podem te ajudar, mas o principal responsável pra sair disso é vc. Duas coisas que me ajudaram com a minha dismorfia corporal é a leitura. Eu tive que reaprender muita coisa sobre a beleza, auto imagem e auto estima. A listagem de livros que eu li, estou lendo e pretendo ler vc pode ver aqui. A outra coisa que eu fiz que ajudou muito foi enfrentar os meus medos. Se eu tinha medo de ir a uma festa pq as pessoas iam ficar me reparando, eu ia. Se eu tinha medo de ir a praia pq eu ia ser a única branca (chegam a tentar falar em inglês comigo achando que sou gringa), eu fecho o olho e vou. Se eu tinha vergonha de usar saia/vestido por causa da minha perna (branca e fina) eu vestia e ia. No começo não é confortável fazer essas coisas, mas a cada vez que vc faz o monstro fica menor e é muito bom vc poder fazer coisas rotineiras e normais sem ser um tormento. Ou até mesmo poder fazer coisas que antes vc não fazia por medo ou vergonha.

No mais, espero boa sorte pra cada pessoa que tiver dismorfia corporal e passar por aqui. Se vc acha que não há mais vida, há sim. Tenha fé, acredite, se empenhe em vc mesmo, tenha disciplina (como em tudo na vida) que devagar vc vai se reerguendo, vai saindo desse poço e vai conseguir seguir em frente. Se vc não consegue sozinho, busque ajuda de outra pessoa. Não tenha vergonha disso, feio é não pedir ajuda por orgulho. Deixe o orgulho de lado, o mais importante é a sua felicidade.

Solange

AUTO-IMAGEM DISTORCIDA, ENTENDA O QUE É

Transtorno dismórfico corporal sob a perspectiva da análise do comportamento

Josy de Souza Moriyama; Vera Lúcia Adami Raposo do Amaral

RESUMO

O objetivo do trabalho foi investigar comportamentos classificados como Transtorno Dismórfico Corporal e suas contingências de desenvolvimento e manutenção. Foi um estudo descritivo-exploratório por meio de entrevistas, com sete participantes e seus familiares, para levantar algumas hipóteses baseadas nos princípios teóricos do Behaviorismo Radical. Encontraram-se comportamentos depressivos, obsessivos, compulsivos e delirantes; de esquiva social; checagem no espelho e rituais de camuflagem. Nas histórias de vida, identificaram-se: educação coercitiva, grande valorização da beleza, reduzidas interações sociais, acidentes ocorridos, comentários sobre parte do corpo e cirurgias. Sob o controle de estímulos específicos, como o defeito alegado e o olhar dos outros, muitas classes de comportamentos tinham a função de fuga/esquiva. Os comportamentos eram reforçados negativamente, porque evitavam a exposição aos outros e críticas. Alguns comportamentos foram descritos por meio da esquiva experiencial, pois tinham a função de evitar o contato com experiências privadas aversivas, trazendo grandes prejuízos nas áreas social, ocupacional e familiar.

Introdução

O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é um transtorno relacionado a preocupações com a aparência. Os critérios diagnósticos estabelecidos pelo DSM-IV (APA, 1995) são: preocupação com um defeito imaginado na aparência, e mesmo que haja um mínimo defeito, a preocupação é extremamente acentuada; sofrimento significativo e/ou prejuízo no funcionamento da vida do indivíduo; não deve ser confundido com Anorexia e Bulimia. Enquanto nesses transtornos, a preocupação é com o tamanho ou forma do corpo como um todo, no TDC se refere a uma ou mais partes do corpo como: nariz, boca, queixo, seios, cabeça, cabelo, pernas, quadris, entre outras.

As preocupações são mais freqüentes em situações sociais, sendo comum esquiva social e tentativas de camuflagem (com maquiagem, roupas, gestos). Outros comportamentos característicos são: olhar fixamente no espelho, ou evitar espelhos, comparar-se com outras pessoas, pedir reafirmações sobre o defeito, realizar cirurgias plásticas e tratamentos estéticos. Alguns desses comportamentos podem se tornar rituais que prejudicam as atividades diárias. Sem tratamento médico e psicológico, o TDC persiste por anos, sendo caracterizado como um transtorno crônico e perigoso, com riscos de suicídio (Phillips, McElroy, Keck, Pope & Hudson, 1993; Figueira, Nardi, Marques & Versiani, 1999).

Segundo o DSM-IV (APA, 1995), o TDC pode estar associado com o Transtorno Depressivo Maior, Transtorno Delirante, Fobia Social e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). A maioria dos estudos discute se o TDC deveria ser considerado como um transtorno separado, que apresentaria comorbidades com esses outros transtornos citados, ou como um spectrum (ou subtipo) de alguns deles.

Teorias biológicas sugerem, como causa orgânica do TDC, a desregulação do sistema serotoninérgico (Figueira et al., 1993; Figueira et al., 1999). Vários autores (Birtchenell, 1988; Rosen, 1997; Figueira et al., 1999) consideram a importância das influências culturais sobre seu desenvolvimento, diante da grande valorização da beleza e aparência física.

Alguns estudos de caso destacam aspectos da história de vida de indivíduos com TDC que parecem ser comuns e poderiam ter relevância em seu desenvolvimento: a educação rígida ou pais superprotetores; poucos amigos durante a fase escolar; ganhos secundários; famílias em que se dá maior ênfase em conceitos estereotipados de beleza; comentários, ainda que inócuos ou neutros, em relação à aparência e acidentes traumáticos (Andreasen & Bardach, 1977; Bloch & Glue, 1988; Braddock, 1982; Kaplan, Sadock & Grebb, 1997; Rosen, 1997; Thomas, 1984).

Até o momento, não há um consenso quanto a questões de classificação, etiologia, prevalência e tratamento. Como raramente indivíduos com TDC apresentam apenas comportamentos relacionados a preocupações com a aparência, mas também comuns a outros transtornos, a classificação psiquiátrica é difícil. Sob a perspectiva da Análise do Comportamento, esta classificação do manual DSM descreve os tipos de topografias das respostas que podem ocorrer, mas não explica seu desenvolvimento ou as variáveis que as mantêm. A avaliação comportamental deveria ir além do modelo topográfico, buscando variáveis ambientais relacionadas à instalação e manutenção das respostas, isto é, as relações funcionais entre as respostas e as variáveis ambientais. Para a Análise do Compor-tamento, um comportamento “diferente” não deve ser visto como “patológico”, pois, se ele foi selecionado é porque, de alguma maneira, é funcional (Matos, 1999).

Neste trabalho, o TDC foi considerado como classes de respostas selecionadas e modeladas, ao longo da vida de um indivíduo, a partir de suas interações com o ambiente. Considerou-se a proposta alternativa de classificação de Hayes, Wilson, Gifford e Follete (1996) sobre o desenvolvimento de dimensões diagnósticas funcionais.

Um exemplo desta classificação para os transtornos de ansiedade, dentre outros diagnósticos psiquiátricos, é a esquiva experiencial, que ocorreria quando o indivíduo se engaja em comportamentos para evitar, eliminar ou diminuir o contato com experiências privadas particulares como: sensações corporais, emoções, pensamentos, lembranças, passando a evitar estes eventos e as ocasiões ou contextos em que eles ocorrem (Friman, Hayes & Wilson, 1998). Por terem alcançado processos supe-riores do comportamento verbal e desenvolvido o pensamento e a linguagem, os seres humanos seriam capazes de formar classes de estímulos equivalentes entre eventos públicos e privados, formando equivalên-cias entre crenças, sentimentos, emoções e eventos ambientais (Wilson & Hayes, 2000). Por meio da transferência de função entre estímulos equivalentes, a pessoa passa a se esquivar não apenas do evento que inicialmente lhe causava sensações aversivas, mas também das sensações aversivas em si mesmas, que ganharam características aversivas, porque passam a funcionar como estímulos discriminativos aversivos priva-dos.

Na esquiva experiencial, o reforçamento negativo ocorre pela diminuição das sensações corporais aversivas, mesmo que momentaneamente. Não se expondo às novas contingências, não há chance de reforçamento diferencial de outros compor-tamentos que pudessem favorecer a extinção das sensações aversivas. Pelo contrário, aumentam as redes relacionais de equivalências aversivas e a quantidade de estímulos a serem evitados. As características comuns dos transtornos em que se observa esquiva experiencial são a não aceitação e evitação de experiências privadas, e estratégias de evitação inefetivas (Hayes et al., 1996).

De acordo com Amaral (2001), certos pacientes com TDC têm suas atividades sociais e rotineiras prejudicadas, pois imaginar estar nestas situações produz grande ansiedade e faz com que eles a evitem. Supôs-se que casos de TDC pudessem ser compreendidos de acordo com a esquiva experiencial.

Numa tentativa de aproximar a pesquisa teórica da prática clínica, o presente trabalho procurou apresentar uma compreensão alternativa ao diagnóstico psiquiátrico do TDC, que pudesse trazer contribuições aos terapeutas comportamentais que se deparam com clientes que apresentam as classes de respostas características. Por meio de uma coleta sistemática de dados, levantaram-se hipóteses, baseadas em princípios teóricos do Behaviorismo Radical, para os casos abordados, semelhantes àquelas a que o terapeuta tem acesso na prática clínica.

O objetivo foi investigar a história de contingências e as contingências atualmente em operação, descritas por participantes com TDC e seus familiares, para compreender o transtorno a partir da perspectiva da Análise do Comportamento. Também foram comparadas variáveis descritas na história de vida de cada participante, a fim de identificar semelhanças funcionais entre eles.

Método

Participantes

Participaram do estudo sete pessoas (P1, P2, P3, P4, P5, P6 e P7) que apresentavam classes de comportamentos classificadas como TDC no DSM-IV (APA, 1995). O diagnóstico foi obtido por meio de uma entrevista semi-estruturada com pacientes, indicados por cirurgiões plásticos, que apresentavam queixas recorrentes de preocupações excessivas com a aparência. As idades dos participantes variavam de 23 a 48 anos, suas rendas financeiras de R$600,00 a R$20.000,00 e a escolaridade, desde o analfabetismo até o superior completo. O nível sócio-econômico diversificado ocorreu devido aos diferentes locais em que os participantes foram selecionados: duas clínicas particulares de cirurgia plástica e uma ONG (Organização não-governamental) em cirurgia plástica.

Quatro cirurgiões plásticos ajudaram a fazer contato e a convidar seus pacientes para participar da pesquisa. Também participaram do estudo alguns familiares dos participantes, como pai, mãe, irmã, esposa e marido.

Material

Ficha de identificação dos participantes

Foi utilizada com a função de selecionar os participantes, para obter dados pessoais (idade, escolaridade, renda econô-mica); dados sobre características do TDC (se pensavam muito sobre o defeito imaginado, se tentavam esconder o defeito, se as preocupações interferiam em atividades diárias), e dados de exclusão (comportamentos de Bulimia e Anorexia).

Roteiro de entrevista semi-estruturada para os participantes

Continha questões relativas à história de vida, ao início das preocupações com a aparência, às relações com a família, aos comportamentos característicos do TDC, às contingências atuais que mantinham esses comportamentos.

Roteiro de entrevista semi-estruturada para membro da família dos participantes

Continha questões semelhantes àquelas do roteiro anterior, referentes às impressões dos familiares em relação aos comportamentos dos participantes.

Procedimento

Os cirurgiões receberam informações sobre o TDC e convidaram pacientes para participar da pesquisa. Os pacientes receberam informações sobre a pesquisa, assinaram o consentimento livre e esclarecido e responderam à ficha de identificação. Cada um deles e seus familiares foram entrevistados, individualmente. Todas as entrevistas foram gravadas. O número de entrevistas e os familiares escolhidos pelos participantes variaram de acordo com a necessidade da coleta de dados complementares (geralmente de duas a três entrevistas com cada participante e uma com cada membro familiar).

A partir da gravação e transcrição das entrevistas, foi feita uma sistematização dos dados, em que os comportamentos apresentados pelos participantes foram descritos e analisados, de acordo com o modelo da Análise do Comportamento. Por meio de trechos dos relatos dos participantes, foram descritas relações entre os comportamentos e alguns eventos referentes à história de contingências passada e vigente, caracterizando o estudo como descritivo e exploratório.

Resultados

Resumo da História de Vida e da História de Contingências dos Participantes

P1:

Mulher de 32 anos morava com o marido, uma filha de um ano e seus pais. Cursava graduação. A renda da família era de R$700,00. Preocupava-se com o nariz.

Aos nove anos de idade, bateu o nariz em um poste e teve um desvio de septo. Aos 18, logo após realizar uma cirurgia para corrigir este desvio, olhou-se no espelho e começou a chorar porque não gostou do resultado. A partir de então, começou a se preocupar e realizou 13 cirurgias plásticas em seu nariz. Ele não parece torto, existem pequenas saliências quase imperceptíveis na região superior, que foram apontadas pelo cirurgião plástico que a indicou, como resultantes de tantas cirurgias que já realizou.

Durante a infância e adolescência, tinha contato com tios que se preocupavam com a aparência e faziam comparações entre a participante e uma prima, que diziam ser mais bonita, comunicativa e ter mais amigos. Antigamente, olhava-se muito no espelho para checar o nariz, depois passou a evitar, pois se sentia mal. Colocava a mão na frente do nariz, o que foi observado nas entrevistas. Seu repertório social era bastante limitado, falava baixo e pouco, não olhava nos olhos, não tinha amigos.

P2:

Homem de 37 anos, solteiro, morava sozinho, operário, com ensino médio completo e renda de R$600,00.

As primeiras preocupações com a aparência foram surgindo gradualmente, durante a adolescência, quando se preocupava com espinhas e se achava muito baixo. Usava maquiagem para tentar esconder as espinhas e deixava de ir a vários lugares, por causa delas. Foi atropelado por uma moto, caindo com o rosto no chão, o que resultou em uma mancha no nariz. Suas preocupações se intensificaram após este acidente, vindo a procurar uma ONG em cirurgia plástica. Os médicos deram prioridade para retirar uma pinta ao lado da mancha, pelo risco de desenvolvimento de câncer. Este procedimento resultou numa pequena mancha, ao lado daquela que o incomodava. Desde então, ele retomava constantemente e dizia, aos médicos, que estava insatisfeito com os resultados e gostaria de retirar as duas manchas do nariz. Os médicos não aten-deram à demanda, considerando as queixas exageradas.

Olhava muito no espelho, usava band-aid no nariz para esconder as manchas, perguntava aos outros sobre elas. Acredita-va que quando olhavam para ele, viam as manchas e levavam a mão sobre o próprio rosto, dando risada e fazendo comentários. Verbalizava achar-se muito diferente, “chocando” e causando “impacto”. Durante as entrevistas, falava excessivamente. Dizia ter amigos e saía normalmente, mas, às vezes, trancava-se em casa durante dias. Evitava lugares onde havia muita gente, como shoppings, discotecas, etc.

P3:

Homem de 44 anos de idade, autônomo, com terceiro grau completo, renda de R$20.000,00, solteiro, morava sozinho e visitava a família, nos finais de semana. Preocupava-se com uma cicatriz na região superior da bochecha, adquirida após uma cirurgia para retirar uma verruga. Ora via uma mancha roxa, ora um buraco em sua pele. Definia o rosto como “paralisado”, “sem expressão”, “deformado”, “antinatural”. Na região apontada, havia uma mancha minúscula, de tom mais claro que a pele.

Quando criança, as pessoas elogiavam sua aparência. A família costumava compará-lo com primos, que eram considerados mais bonitos que ele. Procurou vários cirurgiões plásticos e dermatologistas para tentar tirar a cicatriz, entretanto, todos se recusaram, não havendo nada a ser feito. Freqüentemente sentia uma “angústia profunda” por causa das suas preocupações, chorava e chegava a pensar em suicídio.

Quando começaram as preocupações, carregava um espelho consigo, perdendo cerca de meia hora cada vez que checava a cicatriz. Chegava a parar o carro para olhar pelo retrovisor. Depois, começou a tentar evitar olhar, pois suas atividades estavam sendo prejudicadas com o tempo perdido. Para camuflar a cicatriz, usou um esparadrapo durante cinco meses após a cirurgia. Evitava posições enquanto estava conversando, ficando de lado, o que foi observado nas entrevistas. Achava que as pessoas se assustavam ao vê-lo, desviando o olhar e focando na cicatriz. Quando os outros lhe falavam que não percebiam nada, ele não acreditava. Evitava ir a restaurantes, bares, cinema. Só tinha um amigo distante, não namorava, era muito isolado, apresentava baixo repertório social e comportamentos de timidez.

P4:

Mulher de 48 anos, com terceiro grau completo, aposentada, morava com o marido e a mãe dela, com renda familiar de R$1.500,00.

Desde a infância, preocupava-se com marcas que surgiam em seu rosto, como arranhões, machucados, ou manchas. Tinha uma vizinha muito vaidosa, que lhe dava colares e outros adereços femininos. Sua mãe ficava sem comer, fazia ginástica com um plástico amarrado na barriga e se pesava freqüentemente.

Dizia que sua pele não estava normal, que estava cheia de “bolinhas” e com a textura muito fina. Procurou o cirurgião que a indicou, porque estava vendo uma marca na região superior do lábio, que parecia um “bumbum”. A pequena marca a que se referia era vermelha, como se fosse o início de uma espinha, muito difícil de ser percebida. Não havia alterações em sua pele.

Fez várias cirurgias para retirar “verruguinhas” do rosto. Com algumas ficou satisfeita, com outras não, vindo a reclamar com os cirurgiões. Ia freqüentemente a dermatologistas. Perdia cerca de quatro horas na frente do espelho, limpando o rosto, de manhã e à noite. Utilizava um espelho de aumento e uma lupa para ver as marcas. Para escondê-las, usava maquiagem ou esparadrapo. Perguntava freqüentemente sobre as marcas na pele, comportamento que emitiu durante as entrevistas. Não acreditava quando lhe diziam que não tinha nada. Reparava na pele de outras mulheres. Quase não saía de casa, isolava-se, chorava muito. Apesar de não ter amigos, falava com desenvoltura e parecia ter um bom repertório social. Apresentava rituais para fechar as janelas e tomar banho.

P5:

Mulher de 40 anos, casada, dona de casa, analfabeta, tinha uma filha de 13 anos e outra de 17, a renda familiar era de R$1.500,00.

Depois de ouvir um comentário sobre sua pele, começou a perceber que estava com algumas marcas de expressão ao redor dos lábios e procurou uma dermatologista, que lhe disse que em sua idade era normal surgirem “ruguinhas”. Passou a se sentir extremamente mal com esse comentário, vindo a procurar um farmacêutico que lhe indicou uma pomada. Não satisfeita, comentou com uma conhecida sobre as marcas, e esta lhe indicou um creme, que começou a passar várias vezes por dia. Após o uso do creme, começou a enxergar muitas rugas ao redor dos olhos, com as quais passou a se preocupar exageradamente. Dizia ver uma “coisera” na pele, que a fazia parecer um “monstro”. Possuía rugas de expressão normais para uma pessoa de sua idade. Os cirurgiões plásticos a quem ela recorreu perceberam seu estado depressivo e optaram por não operar.

Olhava-se muito no espelho e perdia várias horas do dia. Começou a esfregar a pele com a unha e com um pano, na tentativa de tirar as rugas, vindo a se machucar várias vezes. Tentava evitar olhar no espelho, para não se machucar. Ficava com a mão na frente da boca, perguntava e se queixava das rugas freqüentemente (comportamentos também observados nas entrevistas). Reparava e se comparava com outras mulheres. Apresentava um baixo repertório social, era bastante quieta. Depois que começou a se preocupar, passou a evitar sair, praticamente se isolou socialmente, não se dedicava às tarefas domésticas como antes, ficava se lamentando, chorava, tinha insônia, falava em morrer. Antigamente apresentava comportamentos compulsivos de limpeza da casa.

P6:

Jovem de 23 anos, solteira, fazia graduação em período integral, morava com duas amigas, renda familiar de R$20.000,00.

Desde criança, ouvia comentários de que seu bumbum era igual ao de sua mãe.

Preocupava-se com a região do bumbum e quadril, achando-a muito grande, com gordura localizada, celulite e culote. Fez uma lipoaspiração nestas regiões, com a qual não se sentiu satisfeita. Logo que viu o resultado da cirurgia, percebeu que estava “deformada”. Fez duas correções; no entanto, ainda não estava satisfeita e gostaria de fazer mais uma. A participante tem esta região grande, mas não fora do comum. Olhava o bumbum ao passar por superfícies refletoras; carregava um espelho na bolsa, para checar como a calça estava marcando. Usava meia-calça por baixo da roupa para não marcar o bumbum, às vezes, amarrava um moletom na cintura ou usava bolsas para escondê-lo. Perguntava freqüentemente sobre o bumbum e não acreditava quando falavam que não tinha nada. Reparava e se comparava com outras mulheres. Dizia que onde quer que fosse, tinha a sensação de que todos estavam olhando para o seu bumbum, deixando de sair muitas vezes. Evitava ir a determinados lugares como praias, clubes e piscinas. Tinha amigos, um bom repertório social, falava bastante. Tinha crises depressivas repentinas, desencadeadas pelas preocupações relacionadas ao tamanho do bumbum e apresentava com-portamentos compulsivos de comer e comprar.

P7:

Homem de 44 anos, ensino fundamental completo, operário, morava com a esposa, uma filha de 19 anos, um filho de 21 e sua nora, renda familiar de R$900,00. Preocupava-se com a ponta do nariz, que achava muito grande e fina. Quando se olhava no espelho, via um “monstro todo deformado”. A ponta do seu nariz era um pouco grande, mas não atípica.

Quando criança, via que seus tios tinham narizes grandes e se preocupava se um dia também teria. Tinha primos da mesma idade que, por terem melhores condições financeiras, estavam sempre bem vestidos, ao contrário dele e de seus irmãos. Sentia-se inferior aos primos. Descreveu uma situação considerada como um “marcador” para que suas preocupações com o nariz se agravassem: um colega de trabalho disse que ele parecia um personagem de TV, que tinha o nariz grande, e todos os outros começaram a rir. Primeiramente, olhava muito no espelho, mas como se sentia mal, passou a evitar. Evitava ficar de perfil quando estava conversando, o que foi percebido durante as entrevistas. Reparava no nariz de outras pessoas e se comparava. Percebia olhares, comentários e risos. Evitava lugares que tivessem muita gente, como shoppings, mercados, etc. Apenas saía para trabalhar. Teve crises depressivas, por causa das preocupações com o nariz, chegando a pensar em suicídio. Porque os médicos se recusavam a fazer a cirurgia, chegou a pensar em cortar a ponta do nariz. Quase não tinha amigos. Apresentava um bom repertório social, falava de modo articulado.

Análise do TDC de Acordo com as Classes de Resposta

Apesar das preocupações excessivas com alguma parte do corpo, os participantes tinham alterações mínimas em sua aparência, difíceis de serem percebidas. Cinco deles já haviam feito algum tipo de correção estética, e nenhum havia ficado satisfeito com os resultados. Os outros dois estavam buscando cirurgias plásticas. Durante as entrevistas, no relato verbal dos participantes, era possível identificar as constantes insatisfações:

– Eu queria operar de qualquer jeito pra ficar boa, operava, não esperava nem dois meses e já operava de novo. Naquela época eu não gostava de mim, eu queria operar o mais rápido possível pra mudar o meu nariz, pra poder arrumar(…)(P1).

Foram relatados comportamentos de olhar fixamente no espelho e evitar olhar; tentativas de camuflar os defeitos; perguntar aos outros sobre o defeito e se comparar com outras pessoas. Além dos comportamentos relacionados à aparência, os participantes apresentaram comporta-mentos característicos de outros transtornos. Todos eles apresentavam comportamentos depressivos e três (P3, P5, P7) relataram ter pensamentos suicidas, exemplo:

– Eu acredito que a minha saúde foi a quase zero, porque eu fui perdendo até a esperança assim de querer viver, sabe; eu não sentia prazer em viver, em andar no meio, em ir, por exemplo, daqui até o terminal, por ficar preocupado com as pessoas que vão me olhar de perfil, então já muda muito a vida né. (P7).

A maioria relatou ter comportamentos que poderiam ser caracterizados como obsessivos e compulsivos, relacionados às preocupações com a aparência:

– Ah, eu penso direto, penso toda hora, a hora que saio. (…) Mas o duro é que eu não consigo evitar olhar, parece que alguma coisa me leva ao espelho, é aquilo que eu falei de energia negativa, eu não consigo evitar (P3). (…) e eu nunca saio sem virar de costas para olhar o bumbum. Hoje mesmo eu fiquei assim no espelho: “não vou virar, não vou virar, não vou virar”. Não agüentei e virei. Sempre (P6).

Alguns participantes apresentaram comportamentos típicos do TOC, como P4 que apresentava rituais na época das entrevistas, e P5 que relatou compulsão por limpeza antes das preocupações com a aparência. Outros comportamentos foram gastar e comer compulsivamente, apresentados por P6.

Foram identificados comportamentos verbais e não verbais que poderiam ser interpretados como delirantes, sendo comum o uso de palavras como: “deformado”, “monstro” e idéias de que “chocavam”, “assustavam” e “causavam impacto”. Alguns acreditavam que as pessoas riam, comentavam o defeito e, para indicá-lo, colocavam a mão sobre a parte do próprio corpo, para ilustrar segue relato do P7:

– Na hora que eu me ponho no meio do grupo, no meio de uma festa, ou shopping, então eu estou seguindo cada pessoa que me vê, que me vê diferente de qualquer outros defeitos que surgirem na multidão, então eu me sinto, eu, como se diz assim, todo deformado, que ninguém vai conseguir passar sem me ver, então eu me sinto sozinho na multidão e todo mundo tá me vendo. (…) As pessoas, eu vejo que quando a gente tá conversando e tal, eles me procuram; quando eu estou de perfil, eu vejo que ele ta dando um arzinho de riso, mesmo que ele disfarça, eu vejo (P7).

Outra classe de comportamentos evidenciada entre os participantes foi de esquiva social. Alguns se esquivavam de sair apenas para alguns lugares específicos, como shoppings, bares, cinemas, clubes, supermercados, enquanto outros, como P4 e P5, beiravam o isolamento social.

Apenas uma participante (P1) negou ter prejuízos em sua vida social, por causa das preocupações com o defeito. Três (P4, P5 e P7) afirmaram ter prejuízos na área ocupacional. Cinco (P3, P4, P5, P6 e P7) afirmaram evitar alguns lugares por causa das preocupações, e apenas um deles afirmou não ter problemas familiares (P2) relacionados às preocupações. Portanto, as preocupações excessivas em relação aos defeitos lhes causavam prejuízo em áreas de funcionamento social, ocupacional e familiar.

Embora os critérios psiquiátricos tenham sido utilizados para a seleção dos participantes, neste trabalho, as classificações limitaram-se à descrição de respostas conhecidas sob o rótulo de TDC. Os participantes apresentaram não apenas a maioria dos comportamentos típicos do TDC, mas também característicos de transtornos como Depressão, Fobia Social, TOC e Transtorno Delirante, justamente aqueles apontados pelo DSM-IV (APA, 1995) como comórbidos ao TDC.

Entretanto, além da descrição das respostas, foi feita uma análise comportamental dos dados que será apresentada a seguir, dando ênfase nas classes de comportamentos, relacionando-as a condições ambientais. Buscou-se entender as contingências de reforçamento em operação na história de vida dos participantes e no presente.

Análise Comportamental da História de Vida e da História de Contingências

A maioria dos participantes teve poucos amigos (P1, P2, P3, P4 e P5) durante a infância e adolescência, devido à falta de contato com pessoas e lugares diversificados. Provavelmente, alguns deles não tiveram oportunidade de desenvolver comportamentos socialmente habilidosos, conforme aponta a literatura (Andreasen & Bardach, 1977; Braddock, 1982; Bloch & Glue, 1988). Essa falta de comportamentos socialmente habilidosos pode ter sido condição importante para o surgimento de comportamentos depressivos, de esquiva social, assim como, o baixo repertório social na fase adulta, para alguns dos participantes (P1, P3 e P5), conforme os relatos abaixo:

– Tive dificuldades de ter amigos, às vezes, no recreio eu ficava sozinha. Não era muito fácil de me entrosar não (P1). Ficava isolado, às vezes um ou outro colega, mas enquanto eles eram colegas, porque eles gostavam de brincar, eu já não brincava mais, então eu ficava sozinho (P2).

Todos apresentaram uma história pessoal de práticas educativas coercitivas. Seus genitores eram exigentes, críticos e rígidos, enfim, usavam punição em alta freqüência para grande parte do repertório dos participantes:

– (…) eu só me lembro assim, que quando eu era mais nova o meu pai já ia falando com o tapa, ele não escolhia lugar pra bater, era na cabeça mesmo, onde pegasse. O meu pai não era muito de conversar: “é assim, é assim e assim”, ele ia dando os murros dele, eu falo pra você que ele era bravo (P5). Eu não sirvo pra ficar ouvindo só críticas, de críticas eu estou por aqui, minha vida foi só de crítica. Da minha mãe, das minhas irmãs(…) a minha mãe nunca foi muito carinhosa, ela é meio neurótica (P2).

Estes dados estão de acordo com relatos de casos na literatura que chamaram a atenção para o fato de que pessoas com TDC tiveram uma educação rígida ou pais superprotetores (Andreasen & Bardach, 1977; Braddock, 1982; Thomas, 1984).

Entre os efeitos colaterais de uma educação coercitiva, Sidman (1995) destacou a generalização de comportamentos de fuga e esquiva para outros estímulos além daqueles apresentados no controle coercitivo. Vários comportamentos observados entre os participantes tinham a função de fuga/esquiva e, provavelmente, foram selecionados a partir de uma história de contingências aversivas/coercitivas mantida pelo uso freqüente de reforçamento negativo ou punição. Entre eles, destacam-se esquiva social, comportamentos obses-sivos e compulsivos, ilustrados nestes relatos:

– É eu tenho vergonha de sair, a minha menina me chama pra sair e eu não saio.(…) Quando as amigas dela vêm em casa, eu fico escondida no quarto, porque eu tenho vergonha, vergonha das marcas no rosto (P5). Mas eu pergunto pra ele, pergunto: “ta aparecendo, ta afundado, ta alto?”Aí ele fala: “não tá”, mas eu tenho necessidade de perguntar(..) (P4). Eu não consigo, eu chego no espelho, aí eu falo “ai meu Deus!”, e começo a passar o pano, pego a toalha e fico passando. (…) Sinto alívio, porque desaparece, aí eu falo: “agora ficou agora ficou bonito! Ficou bonito porque agora sumiu do rosto”, mas fica vermelho, aí eu me sinto mais mal ainda. É porque daí eu falo :”ai meu Deus, olha onde eu fui parar, estragar o meu rosto!”(P5).

Considerando-se o processo de desenvolvimento e a funcionalidade, a falta de aprendizagem de comportamentos socialmente habilidosos e a educação pauta-da no controle coercitivo podem ter originado comportamentos com função de fuga/esquiva comuns ao TDC e a outros transtornos como Depressão, Fobia Social e TOC. Então, por que comportamentos relacionados a preocupações com partes específicas do corpo surgiram e estavam sendo mantidos? Foram levantadas algumas variáveis que, provavelmente, contribuíram para o desenvolvimento destes comportamentos.

No contexto em que viveram alguns participantes (P1, P3, P4, P6, P7), durante a infância, havia pessoas que davam muita importância à beleza, principalmente membros da família, que faziam comparações e ressaltavam qualidades em outros parentes e não nos participantes. Alguns (P3, P4) eram elogiados quando crianças, quanto à aparência:

– A minha mãe sempre vivia comparando ela (P1) com a outra neta, que a outra neta era esperta, sabia conversar, sabia isso, sabia aquilo e a P1 não. Que ela era bobinha, fazia estas comparações na cara dela (mãe de P1). Muitos elogios, acho que fui uma criança muito bonita, eu me lembro disso. (P4)

O que se destaca, nestes dados, é a grande valorização da beleza, da aparência e do status social, seja por meio de críticas ou elogios, que pode ser considerada uma influência cultural de peso, em concordância com autores da área (Birtchenell, 1988; Rosen, 1997; Figueira et al., 1999). Regras a respeito da importância da beleza podem ter adquirido a função de operação estabelecedora na vida dos participantes, no sentido de que alterava o valor reforçador de comentários e elogios sobre a aparência, assim como aumentava a freqüência de comportamentos de olhar no espelho, de perguntar sobre o defeito, entre outros. O alto valor reforçador da aparência física bela pode ser vislumbrado a seguir:

– Nossa, muito importante, eu acho que uma pessoa bonita, eu acho que ele entra em qualquer lugar e em qualquer lugar ele é aceito, tanto que hoje, a maioria dos lugares que estão procurando trabalho, que é mexer com o público né, que é uma recepção, exige uma pessoa de boa aparência. (P7)

Ao longo da vida dos participantes, ocorreram certos eventos relacionados às partes específicas do corpo com que se preocupavam: comentários (P5, P6, P7), cirurgias (P1 e P3) e acidentes (P1 e P2). Presume-se que estes eventos tenham sido importantes para que estas partes do corpo adquirissem função aversiva. Esses dados vão ao encontro das afirmações de Andreasen e Bardach (1977) e de Rosen (1997) sobre críticas, comentários e acidentes, com a parte do corpo de preocupação, como fatores precipitantes.

Análise e Descrição das Contingências Atuais

Devido a histórias de vida e histórias de contingências, citadas anteriormente, partes do corpo específicas podem ter-se tornado estímulos discriminativos, que ocasionavam comportamentos de pensar e se preocupar com a aparência, olhar fixamente no espelho, tentar camuflar, procurar cirurgiões para correções, entre outros, conforme relato:

– Surgem a partir da hora que eu estou me olhando, eu já me deparo com as preocupações, eu posso estar esquecido, olhei no espelho, já vem a preocupação (P7).

Pensamentos repetitivos sobre o defeito, sentimentos de rejeição e reações corporais características da ansiedade, como taquicardia e sudorese, eram discriminados como aversivos. Por isso, os participantes procuravam fugir e/ou se esquivar de estímulos discriminativos que sinalizavam estes comportamentos privados, assim como deles próprios, que adquiriram o caráter aversivo, ilustrados nestes exemplos:

– (…) é uma angústia profunda, quando estou com os outros eu fico meio tenso, fico pensando que os outros estão olhando, se vão perguntar alguma coisa (P3). – É uma coisa doída aqui por dentro sabe, doída por dentro (P4). Quando olho no espelho sinto aquele gelo assim por dentro, que vem assim e gela o corpo (…) (P5).

De acordo com o modelo de esquiva experiencial descrito por Friman et al. (1998), os participantes procuravam se esquivar de eventos, ocasiões e contextos em que suas preocupações e sentimentos aversivos sobre a aparência poderiam ocorrer.

No começo era direto, agora não. – Me fazia mal né, então agora eu nem olho mais, porque sei que vai me fazer mal, deixar eu ficar quieto (P3). – Cheguei a cancelar compromisso de não ir na última hora por causa disso. (…) Ficava agoniado assim, preocupado de não me sentir bem, de não me sentir à vontade por causa disso (P2).

– Olha, quando eu vou sair, eu só posso dizer o seguinte, se eu, por exemplo, estou muito preocupado com a minha aparência, geralmente eu nem saio. Geralmente eu não saio, procuro ver um jeito (P7). (…)porque sempre é a mesma história, eu até estou com vontade de sair, de fazer alguma coisa, aí na hora que eu vou me trocar, porque daí já mistura tudo, né, porque eu estou bem, aí eu vou me trocar, eu já me estresso, fico nervosa, daí choro e não vou. E é sempre assim (P6).

Supõe-se que essas sensações aversivas foram sendo relacionadas a outros estímulos do ambiente dos participantes, que também foram adquirindo o caráter aversivo, provavelmente por meio da transferência de função entre estímulos equivalentes (Wilson & Hayes, 2000), conforme os relatos que se seguem:

Não, ninguém nunca falou nada. Assim como eu já tinha falado dos pêlos do queixo, eu percebo que os outros vêem que eu tenho né, porque quando eu estou conversando com alguém, ficam colocando a mão no queixo, mas nenhum comentário com palavras (P1). – Não, ninguém nunca falou nada. Mas eu percebo que quando falam comigo, desviam o olhar, rebatem o olho e focam na cicatriz (P3).

Conforme se observou entre os participantes, com a extensão cada vez maior das classes de estímulos, vão restando poucas situações que não adquirem o caráter aversivo. Isto poderia explicar a tendência ao isolamento social observado em alguns deles. Todos esses exemplos de comportamentos de esquiva estavam sendo mantidos por reforçamento negativo. A médio e longo prazo, os comportamentos de esquiva estavam trazendo prejuízos, pois ao serem reforçados negativamente, prevenindo-os de se exporem às situações sociais, de serem criticados e de se sentirem ansiosos, impediam-nos de emitir comportamentos que poderiam ser positivamente reforçados. Portanto, como ocorre na esquiva experiencial (Friman et al., 1998), o comportamento de esquiva torna-se incompatível com as respostas operantes do tipo sair de casa, passear, ir ao trabalho, etc.

Os participantes apresentavam baixa variabilidade comportamental e baixa freqüência de classes de respostas positivamente reforçadoras, entre todas as atividades que desempenhavam, como pode ser vislumbrado:

– Ah, comigo acho que está regular. Não tem nada assim que eu esteja feliz, por causa que eu queria estar melhor. Assim, ta tudo regular, no campo profissional, não é aquilo que eu queria, eu até largaria. Quanto ao casal também está regular, porque a gente não tem nossa casa, é tudo mais difícil (…)É isso que eu digo, bom não tá né (P1).

Desse modo, a contingência atual predominante em operação era reforçamento negativo concomitante à extinção por meio da baixa taxa de reforçamento positivo. Este tipo de contingência favorece a baixa variabilidade comportamental, o isolamento social e comportamentos depressivos.

Conclusão

Os dados colhidos basearam-se no relato retrospectivo dos participantes e de seus familiares, com o objetivo de compreensão das possíveis variáveis relevantes para o desenvolvimento e a manutenção dos comportamentos característicos do TDC.

Hipotetizou-se que algumas experiências comuns na infância dos participantes, como a educação pautada na coerção e a falta de interação social, influenciaram grande parte dos comportamentos apresentados e que a ênfase em estímulos discriminativos, sinalizadores de reforço negativo e a falta de reforçamento positivo estavam contribuindo para a manutenção dos comportamentos.

Histórias de contingências semelhantes deram origem a comportamentos topograficamente diferentes. Além dos comportamentos de preocupação com a aparência, característicos do TDC, foram identificados comportamentos depressivos, obsessivos, compulsivos, delirantes, todos com função de fuga/esquiva. Essas análises encontram fundamento no modelo dimen-sional funcional em que comportamentos devem ser organizados em processos relacionados a contingências de reforçamento coercitivo que os teriam produzido e mantido, independentemente de suas diferentes topografias (Hayes et al., 1996).

Vários dos comportamentos foram descritos como esquiva experiencial, pois os participantes buscavam se esquivar da ansiedade, de pensamentos sobre sua aparência, e sobre a reação das pessoas à sua aparência. Os comportamentos de esquiva eram reforçados negativamente, pois os prevenia de se expor às situações sociais, resultando em conseqüências prejudiciais, como isolamento social e comportamentos depressivos.

Apesar de não ser possível levantar todas as variáveis importantes, nem afirmar com segurança a real contribuição e o grau em que as variáveis levantadas influenciaram os comportamentos, que é uma realidade do contexto clínico, esta foi uma tentativa de demonstrar como a história de vida de cada indivíduo deve ser comsiderada para entender seus comportamentos atuais.

fonte: http://revistas.redepsi.com.br/index.php/RBTCC/article/view/143/126