To nas bancas – Revista Sou mai eu

 

To nas bancas. Revista Sou Mais Eu! da Editora Abril, edição n. 288 do dia 24 de maio de 2012. O moço da banca disse que chegou terça-feira e nas bancas que eu passei algumas já não tinham mais. Custa R$ 2,00 e dentro da revista tem uma página dupla que eu falo sobre dismorfia corporal e a Dra. Maria Cristina Ramos Britto explica o que é.

Para ver outras participações minhas na mídia clique aqui.

Procura-se Psicólogo e Psiquiatra em Curitiba

Procura-se Psicólogo e Psiquiatra em Curitiba que saiba o que é Dismorfia Corporal.

Se alguém tiver algum pra indicar me manda por email diariodeumadismorfia@gmail.com, deixa comentário aqui no post ou clica em “Contato” no menu embaixo do banner e preenche o formulário.

Obrigada!

Será que tenho dismorfia corporal?

Algumas pessoas que passam pelo blog dizem que se identificaram com os sintomas mas que não sabem se possuem a doença.

Por isso criei esse ítem no menu, com a intenção de ajudar quem tem dúvida a identificar se tem dismorfia corporal ou não.

Em primeiro lugar, quem tem que dizer se vc tem ou não dismorfia corporal é um médico profissional dessa área. Resumindo, um psiquiatra. Mas tem que ser um psiquiatra que saiba que essa doença existe, pq é comum encontrar psiquiatras que não sabem o que é isso. Experiência própria.

Falando de forma bem teórica, a dismorfia corporal consta no DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e no CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde). É necessário ter TODOS os três sintomas abaixo para ser considerada com a doença:
a) o indivíduo preocupa-se com um defeito imaginário na aparência e se uma mínima anomalia está presente, tem preocupação marcadamente excessiva com essa;
b) a preocupação deve causar estresse significativo ou prejuizo na vida social, ocupacional ou outras áreas do funcionamento;
c) essas queixas não podem ser caracterizadas como outro transtorno mental, tal como a anorexia nervosa.
(Se quiser ler mais sobre dismorfia corporal clique aqui).

Se mesmo assim vc ainda não tem certeza, vou explicar com o português comum. Uma pessoa com dismorfia corporal tem hábitos específicos que caracterizam bem a doença. Porém, não adianta vc se identificar com um ou outro, tem que se identificar com pelo menos mais da metade.

Os hábitos de quem tem dismorfia são:

1. Vc fica muito tempo na frente do espelho olhando o que vc odeia na sua aparência. Se vc está no quarto ou no banheiro não perde a oportunidade de ficar com a cara colada no espelho. Ou evitam espelhos.
2. Quando vc sai da porta de casa pra fora acha que todos estão reparando como vc é horrível. E além de reparar tb acha que eles comentam.
3. Se vc fala pra alguém da família ou amigo do seu defeito (a nivel de deformação) a pessoa diz que não é nada do que vc diz. Ou pelo menos não do jeito exagerado que vc diz ser.
4. Vc deixa de ir a qualquer lugar público (festa, shopping, praia) por se achar muito horrível para as pessoas te verem (isso tb pode incluir parar de trabalhar ou estudar)
5. Vc quer fazer todas as cirurgias plásticas possíveis e impossíveis pra consertar o que vc odeia na sua aparência. Vc já chegou a ir a consultas com cirurgiões plásticos e dermatologistas pra arrumar esse defeitão.
6. Com certa frequência vc chora de tanta tristeza por ser tão feio.
7. Quando falam que vc é bonito(a) vc tem certeza que tão de sacanagem.
8. Vc não consegue pensar em outra coisa a não ser como vc é feio e como as pessoas estão reparando como vc é.
9. Vc não vai a lugar algum sem maquiagem (óculos escuros, boné, etc), nem mesmo à padaria ou à portaria do prédio.
10. Vc confere sua aparência em qualquer superfície que reflita sua imagem, as mais comuns são janelas de carros e vitrines de lojas.
11. Vc fica comparando sua aparência com a de pessoas famosas que vc acha bonita.
12. Vc já quis (ou quer) morrer (isso inclui se matar) pq é insuportável aguentar esse peso que é viver com a aparência que vc tem.
13. Vc nunca namorou ou acredita que quem demonstra interesse por vc é por pena ou pq vc é tão feio(a) que é mais dificil levar um fora.
14. Vc não consegue conversar olhando nos olhos das pessoas ou quando anda na rua não olha pra ninguém.
15. Vc foge de fotografias como o diabo foge da cruz.

Ok, li e acredito que tenho dismorfia corporal. O que devo fazer?
Procure um psiquiatra. Pare com esse medo idiota de achar que psiquiatra só serve pra cuidar de gente de manicômio, que baba e  usa camisa de força. Se vc não quer se ajudar então não vem se queixar pra mim depois. Eu tenho dismorfia corporal e to dizendo aqui o que é importante fazer pra superar isso. Tudo o que eu to dizendo aqui eu fiz e hoje consigo viver bem melhor.

O que o psiquiatra vai fazer?
O objetivo principal do psiquiatra é te medicar. Ele não fez psicologia na faculdade, ele fez MEDICINA. O psiquiatra não é psicólogo, apesar de tb ter psiquiatra que faz terapia. O que é bom.

Como é a consulta com o psiquiatra?
Vc vai sentar na frente do(a) psiquiatra. Ele vai estar atrás de uma mesa de consultório, com um computador, blocos e receituários. Diferente do psicólogo que vc senta em um sofá e o psicólogo em outro e entre vcs não tem nada. O psiquiatra precisa saber como é a sua vida, sua rotina e como vc se sente (e se vê). Vc precisa falar tudo. Se ficar escondendo as coisas do médico não sei qual a razão de vc ir lá. Ele ta ali pra te ajudar, se vc ficar escondendo as coisas dele o único prejudicado é vc. Com base no que vc falar ele vai saber qual é o melhor remédio pra vc. O remédio vai regular a serotonina e da dopamina (explicando de forma grosseria são substâncias do cérebro responsáveis pelo seu bem estar) e vai ajudar a diminuir as “alucinações”. Em outras palavras, vc não vai ficar tão atormentado por causa do seu nariz horroroso, sua pele manchada ou seja lá qual for a sua reclamação. O remédio não vai fazer vc se achar se achar mais bonita(o), mas vai diminuir a sua dor emocional, vc vai sofrer menos por causa da sua aparência. O psiquiatra vai pedir pra vc voltar em um mês, pra saber como está sendo a adaptação com o remédio. O remédio demora cerca de 15 dias para começar a fazer efeito, pq nesse tempo o corpo está se acostumando com o que está recebendo. O que vc vai tomar não é como remédio para prisão de ventre. Não adianta vc tomar hoje e achar que amanhã já vai se sentir melhor. Conforme vc se sentir ao fim do primeiro mês o psiquiatra vai manter essa medicação ou fazer alguma adaptação, como aumentar a dose ou trocar de substância.

Ah, mas eu não quero tomar remédio.
Ok, então não tome. Vc pode melhorar sem tomar remédio, mas é um caminho mais longo e doloroso. Eu tomo remédio todo dia por causa da dismorfia corporal e não vejo problema nisso. Tem gente que tem problema do coração e toma remédio todo dia, tem gente que tem diabete e toma remédio todo dia, pq eu não posso tomar remédio todo dia? Meu bem estar vai melhorar, vou conseguir viver melhor, vou conseguir me relacionar com as pessoas e com o mundo melhor, e o mais importante, vou conseguir me relacionar comigo mesma melhor. Se mesmo assim vc não quer tomar remédio, tente homeopatia, floral, alguma medicina/terapia alternativa.

Preciso fazer terapia?
É bom fazer. Vai ajudar muito a vc superar tudo isso. Vai aprender a rever seus conceitos. Suas opiniões pré formatadas e a mudar as suas verdades únicas que só existem pra vc e vc nem sabe. O tipo de terapia que eu recomendo (opinião minha) é a terapia cognitivo comportamental.

A terapia cognitivo comportamental é empregada para problemas tais como: dificuldades existenciais, mudanças de estilo de vida e até questões mais específicas como pânico, depressão, ansiedade, anorexia, obesidade, bulimia, obsessões e compulsões.

A terapia desenvolvida nesta abordagem acontece em conjunto com o paciente, onde o mesmo identifica, examina (auto-avalia) e corrige as distorções do pensamento que causam seu sofrimento emocional e tem como objetivo auxiliar o paciente na correção dos pensamentos distorcidos ou disfuncionais, para que o paciente se sinta melhor emocionalmente e para que se comporte de maneira mais produtiva na busca de suas metas.

O que mais preciso fazer?
Cada um precisa achar seu próprio caminho. Os profissionais podem te ajudar, mas o principal responsável pra sair disso é vc. Duas coisas que me ajudaram com a minha dismorfia corporal é a leitura. Eu tive que reaprender muita coisa sobre a beleza, auto imagem e auto estima. A listagem de livros que eu li, estou lendo e pretendo ler vc pode ver aqui. A outra coisa que eu fiz que ajudou muito foi enfrentar os meus medos. Se eu tinha medo de ir a uma festa pq as pessoas iam ficar me reparando, eu ia. Se eu tinha medo de ir a praia pq eu ia ser a única branca (chegam a tentar falar em inglês comigo achando que sou gringa), eu fecho o olho e vou. Se eu tinha vergonha de usar saia/vestido por causa da minha perna (branca e fina) eu vestia e ia. No começo não é confortável fazer essas coisas, mas a cada vez que vc faz o monstro fica menor e é muito bom vc poder fazer coisas rotineiras e normais sem ser um tormento. Ou até mesmo poder fazer coisas que antes vc não fazia por medo ou vergonha.

No mais, espero boa sorte pra cada pessoa que tiver dismorfia corporal e passar por aqui. Se vc acha que não há mais vida, há sim. Tenha fé, acredite, se empenhe em vc mesmo, tenha disciplina (como em tudo na vida) que devagar vc vai se reerguendo, vai saindo desse poço e vai conseguir seguir em frente. Se vc não consegue sozinho, busque ajuda de outra pessoa. Não tenha vergonha disso, feio é não pedir ajuda por orgulho. Deixe o orgulho de lado, o mais importante é a sua felicidade.

Solange

AUTO-IMAGEM DISTORCIDA, ENTENDA O QUE É

Transtorno dismórfico corporal sob a perspectiva da análise do comportamento

Josy de Souza Moriyama; Vera Lúcia Adami Raposo do Amaral

RESUMO

O objetivo do trabalho foi investigar comportamentos classificados como Transtorno Dismórfico Corporal e suas contingências de desenvolvimento e manutenção. Foi um estudo descritivo-exploratório por meio de entrevistas, com sete participantes e seus familiares, para levantar algumas hipóteses baseadas nos princípios teóricos do Behaviorismo Radical. Encontraram-se comportamentos depressivos, obsessivos, compulsivos e delirantes; de esquiva social; checagem no espelho e rituais de camuflagem. Nas histórias de vida, identificaram-se: educação coercitiva, grande valorização da beleza, reduzidas interações sociais, acidentes ocorridos, comentários sobre parte do corpo e cirurgias. Sob o controle de estímulos específicos, como o defeito alegado e o olhar dos outros, muitas classes de comportamentos tinham a função de fuga/esquiva. Os comportamentos eram reforçados negativamente, porque evitavam a exposição aos outros e críticas. Alguns comportamentos foram descritos por meio da esquiva experiencial, pois tinham a função de evitar o contato com experiências privadas aversivas, trazendo grandes prejuízos nas áreas social, ocupacional e familiar.

Introdução

O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é um transtorno relacionado a preocupações com a aparência. Os critérios diagnósticos estabelecidos pelo DSM-IV (APA, 1995) são: preocupação com um defeito imaginado na aparência, e mesmo que haja um mínimo defeito, a preocupação é extremamente acentuada; sofrimento significativo e/ou prejuízo no funcionamento da vida do indivíduo; não deve ser confundido com Anorexia e Bulimia. Enquanto nesses transtornos, a preocupação é com o tamanho ou forma do corpo como um todo, no TDC se refere a uma ou mais partes do corpo como: nariz, boca, queixo, seios, cabeça, cabelo, pernas, quadris, entre outras.

As preocupações são mais freqüentes em situações sociais, sendo comum esquiva social e tentativas de camuflagem (com maquiagem, roupas, gestos). Outros comportamentos característicos são: olhar fixamente no espelho, ou evitar espelhos, comparar-se com outras pessoas, pedir reafirmações sobre o defeito, realizar cirurgias plásticas e tratamentos estéticos. Alguns desses comportamentos podem se tornar rituais que prejudicam as atividades diárias. Sem tratamento médico e psicológico, o TDC persiste por anos, sendo caracterizado como um transtorno crônico e perigoso, com riscos de suicídio (Phillips, McElroy, Keck, Pope & Hudson, 1993; Figueira, Nardi, Marques & Versiani, 1999).

Segundo o DSM-IV (APA, 1995), o TDC pode estar associado com o Transtorno Depressivo Maior, Transtorno Delirante, Fobia Social e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). A maioria dos estudos discute se o TDC deveria ser considerado como um transtorno separado, que apresentaria comorbidades com esses outros transtornos citados, ou como um spectrum (ou subtipo) de alguns deles.

Teorias biológicas sugerem, como causa orgânica do TDC, a desregulação do sistema serotoninérgico (Figueira et al., 1993; Figueira et al., 1999). Vários autores (Birtchenell, 1988; Rosen, 1997; Figueira et al., 1999) consideram a importância das influências culturais sobre seu desenvolvimento, diante da grande valorização da beleza e aparência física.

Alguns estudos de caso destacam aspectos da história de vida de indivíduos com TDC que parecem ser comuns e poderiam ter relevância em seu desenvolvimento: a educação rígida ou pais superprotetores; poucos amigos durante a fase escolar; ganhos secundários; famílias em que se dá maior ênfase em conceitos estereotipados de beleza; comentários, ainda que inócuos ou neutros, em relação à aparência e acidentes traumáticos (Andreasen & Bardach, 1977; Bloch & Glue, 1988; Braddock, 1982; Kaplan, Sadock & Grebb, 1997; Rosen, 1997; Thomas, 1984).

Até o momento, não há um consenso quanto a questões de classificação, etiologia, prevalência e tratamento. Como raramente indivíduos com TDC apresentam apenas comportamentos relacionados a preocupações com a aparência, mas também comuns a outros transtornos, a classificação psiquiátrica é difícil. Sob a perspectiva da Análise do Comportamento, esta classificação do manual DSM descreve os tipos de topografias das respostas que podem ocorrer, mas não explica seu desenvolvimento ou as variáveis que as mantêm. A avaliação comportamental deveria ir além do modelo topográfico, buscando variáveis ambientais relacionadas à instalação e manutenção das respostas, isto é, as relações funcionais entre as respostas e as variáveis ambientais. Para a Análise do Compor-tamento, um comportamento “diferente” não deve ser visto como “patológico”, pois, se ele foi selecionado é porque, de alguma maneira, é funcional (Matos, 1999).

Neste trabalho, o TDC foi considerado como classes de respostas selecionadas e modeladas, ao longo da vida de um indivíduo, a partir de suas interações com o ambiente. Considerou-se a proposta alternativa de classificação de Hayes, Wilson, Gifford e Follete (1996) sobre o desenvolvimento de dimensões diagnósticas funcionais.

Um exemplo desta classificação para os transtornos de ansiedade, dentre outros diagnósticos psiquiátricos, é a esquiva experiencial, que ocorreria quando o indivíduo se engaja em comportamentos para evitar, eliminar ou diminuir o contato com experiências privadas particulares como: sensações corporais, emoções, pensamentos, lembranças, passando a evitar estes eventos e as ocasiões ou contextos em que eles ocorrem (Friman, Hayes & Wilson, 1998). Por terem alcançado processos supe-riores do comportamento verbal e desenvolvido o pensamento e a linguagem, os seres humanos seriam capazes de formar classes de estímulos equivalentes entre eventos públicos e privados, formando equivalên-cias entre crenças, sentimentos, emoções e eventos ambientais (Wilson & Hayes, 2000). Por meio da transferência de função entre estímulos equivalentes, a pessoa passa a se esquivar não apenas do evento que inicialmente lhe causava sensações aversivas, mas também das sensações aversivas em si mesmas, que ganharam características aversivas, porque passam a funcionar como estímulos discriminativos aversivos priva-dos.

Na esquiva experiencial, o reforçamento negativo ocorre pela diminuição das sensações corporais aversivas, mesmo que momentaneamente. Não se expondo às novas contingências, não há chance de reforçamento diferencial de outros compor-tamentos que pudessem favorecer a extinção das sensações aversivas. Pelo contrário, aumentam as redes relacionais de equivalências aversivas e a quantidade de estímulos a serem evitados. As características comuns dos transtornos em que se observa esquiva experiencial são a não aceitação e evitação de experiências privadas, e estratégias de evitação inefetivas (Hayes et al., 1996).

De acordo com Amaral (2001), certos pacientes com TDC têm suas atividades sociais e rotineiras prejudicadas, pois imaginar estar nestas situações produz grande ansiedade e faz com que eles a evitem. Supôs-se que casos de TDC pudessem ser compreendidos de acordo com a esquiva experiencial.

Numa tentativa de aproximar a pesquisa teórica da prática clínica, o presente trabalho procurou apresentar uma compreensão alternativa ao diagnóstico psiquiátrico do TDC, que pudesse trazer contribuições aos terapeutas comportamentais que se deparam com clientes que apresentam as classes de respostas características. Por meio de uma coleta sistemática de dados, levantaram-se hipóteses, baseadas em princípios teóricos do Behaviorismo Radical, para os casos abordados, semelhantes àquelas a que o terapeuta tem acesso na prática clínica.

O objetivo foi investigar a história de contingências e as contingências atualmente em operação, descritas por participantes com TDC e seus familiares, para compreender o transtorno a partir da perspectiva da Análise do Comportamento. Também foram comparadas variáveis descritas na história de vida de cada participante, a fim de identificar semelhanças funcionais entre eles.

Método

Participantes

Participaram do estudo sete pessoas (P1, P2, P3, P4, P5, P6 e P7) que apresentavam classes de comportamentos classificadas como TDC no DSM-IV (APA, 1995). O diagnóstico foi obtido por meio de uma entrevista semi-estruturada com pacientes, indicados por cirurgiões plásticos, que apresentavam queixas recorrentes de preocupações excessivas com a aparência. As idades dos participantes variavam de 23 a 48 anos, suas rendas financeiras de R$600,00 a R$20.000,00 e a escolaridade, desde o analfabetismo até o superior completo. O nível sócio-econômico diversificado ocorreu devido aos diferentes locais em que os participantes foram selecionados: duas clínicas particulares de cirurgia plástica e uma ONG (Organização não-governamental) em cirurgia plástica.

Quatro cirurgiões plásticos ajudaram a fazer contato e a convidar seus pacientes para participar da pesquisa. Também participaram do estudo alguns familiares dos participantes, como pai, mãe, irmã, esposa e marido.

Material

Ficha de identificação dos participantes

Foi utilizada com a função de selecionar os participantes, para obter dados pessoais (idade, escolaridade, renda econô-mica); dados sobre características do TDC (se pensavam muito sobre o defeito imaginado, se tentavam esconder o defeito, se as preocupações interferiam em atividades diárias), e dados de exclusão (comportamentos de Bulimia e Anorexia).

Roteiro de entrevista semi-estruturada para os participantes

Continha questões relativas à história de vida, ao início das preocupações com a aparência, às relações com a família, aos comportamentos característicos do TDC, às contingências atuais que mantinham esses comportamentos.

Roteiro de entrevista semi-estruturada para membro da família dos participantes

Continha questões semelhantes àquelas do roteiro anterior, referentes às impressões dos familiares em relação aos comportamentos dos participantes.

Procedimento

Os cirurgiões receberam informações sobre o TDC e convidaram pacientes para participar da pesquisa. Os pacientes receberam informações sobre a pesquisa, assinaram o consentimento livre e esclarecido e responderam à ficha de identificação. Cada um deles e seus familiares foram entrevistados, individualmente. Todas as entrevistas foram gravadas. O número de entrevistas e os familiares escolhidos pelos participantes variaram de acordo com a necessidade da coleta de dados complementares (geralmente de duas a três entrevistas com cada participante e uma com cada membro familiar).

A partir da gravação e transcrição das entrevistas, foi feita uma sistematização dos dados, em que os comportamentos apresentados pelos participantes foram descritos e analisados, de acordo com o modelo da Análise do Comportamento. Por meio de trechos dos relatos dos participantes, foram descritas relações entre os comportamentos e alguns eventos referentes à história de contingências passada e vigente, caracterizando o estudo como descritivo e exploratório.

Resultados

Resumo da História de Vida e da História de Contingências dos Participantes

P1:

Mulher de 32 anos morava com o marido, uma filha de um ano e seus pais. Cursava graduação. A renda da família era de R$700,00. Preocupava-se com o nariz.

Aos nove anos de idade, bateu o nariz em um poste e teve um desvio de septo. Aos 18, logo após realizar uma cirurgia para corrigir este desvio, olhou-se no espelho e começou a chorar porque não gostou do resultado. A partir de então, começou a se preocupar e realizou 13 cirurgias plásticas em seu nariz. Ele não parece torto, existem pequenas saliências quase imperceptíveis na região superior, que foram apontadas pelo cirurgião plástico que a indicou, como resultantes de tantas cirurgias que já realizou.

Durante a infância e adolescência, tinha contato com tios que se preocupavam com a aparência e faziam comparações entre a participante e uma prima, que diziam ser mais bonita, comunicativa e ter mais amigos. Antigamente, olhava-se muito no espelho para checar o nariz, depois passou a evitar, pois se sentia mal. Colocava a mão na frente do nariz, o que foi observado nas entrevistas. Seu repertório social era bastante limitado, falava baixo e pouco, não olhava nos olhos, não tinha amigos.

P2:

Homem de 37 anos, solteiro, morava sozinho, operário, com ensino médio completo e renda de R$600,00.

As primeiras preocupações com a aparência foram surgindo gradualmente, durante a adolescência, quando se preocupava com espinhas e se achava muito baixo. Usava maquiagem para tentar esconder as espinhas e deixava de ir a vários lugares, por causa delas. Foi atropelado por uma moto, caindo com o rosto no chão, o que resultou em uma mancha no nariz. Suas preocupações se intensificaram após este acidente, vindo a procurar uma ONG em cirurgia plástica. Os médicos deram prioridade para retirar uma pinta ao lado da mancha, pelo risco de desenvolvimento de câncer. Este procedimento resultou numa pequena mancha, ao lado daquela que o incomodava. Desde então, ele retomava constantemente e dizia, aos médicos, que estava insatisfeito com os resultados e gostaria de retirar as duas manchas do nariz. Os médicos não aten-deram à demanda, considerando as queixas exageradas.

Olhava muito no espelho, usava band-aid no nariz para esconder as manchas, perguntava aos outros sobre elas. Acredita-va que quando olhavam para ele, viam as manchas e levavam a mão sobre o próprio rosto, dando risada e fazendo comentários. Verbalizava achar-se muito diferente, “chocando” e causando “impacto”. Durante as entrevistas, falava excessivamente. Dizia ter amigos e saía normalmente, mas, às vezes, trancava-se em casa durante dias. Evitava lugares onde havia muita gente, como shoppings, discotecas, etc.

P3:

Homem de 44 anos de idade, autônomo, com terceiro grau completo, renda de R$20.000,00, solteiro, morava sozinho e visitava a família, nos finais de semana. Preocupava-se com uma cicatriz na região superior da bochecha, adquirida após uma cirurgia para retirar uma verruga. Ora via uma mancha roxa, ora um buraco em sua pele. Definia o rosto como “paralisado”, “sem expressão”, “deformado”, “antinatural”. Na região apontada, havia uma mancha minúscula, de tom mais claro que a pele.

Quando criança, as pessoas elogiavam sua aparência. A família costumava compará-lo com primos, que eram considerados mais bonitos que ele. Procurou vários cirurgiões plásticos e dermatologistas para tentar tirar a cicatriz, entretanto, todos se recusaram, não havendo nada a ser feito. Freqüentemente sentia uma “angústia profunda” por causa das suas preocupações, chorava e chegava a pensar em suicídio.

Quando começaram as preocupações, carregava um espelho consigo, perdendo cerca de meia hora cada vez que checava a cicatriz. Chegava a parar o carro para olhar pelo retrovisor. Depois, começou a tentar evitar olhar, pois suas atividades estavam sendo prejudicadas com o tempo perdido. Para camuflar a cicatriz, usou um esparadrapo durante cinco meses após a cirurgia. Evitava posições enquanto estava conversando, ficando de lado, o que foi observado nas entrevistas. Achava que as pessoas se assustavam ao vê-lo, desviando o olhar e focando na cicatriz. Quando os outros lhe falavam que não percebiam nada, ele não acreditava. Evitava ir a restaurantes, bares, cinema. Só tinha um amigo distante, não namorava, era muito isolado, apresentava baixo repertório social e comportamentos de timidez.

P4:

Mulher de 48 anos, com terceiro grau completo, aposentada, morava com o marido e a mãe dela, com renda familiar de R$1.500,00.

Desde a infância, preocupava-se com marcas que surgiam em seu rosto, como arranhões, machucados, ou manchas. Tinha uma vizinha muito vaidosa, que lhe dava colares e outros adereços femininos. Sua mãe ficava sem comer, fazia ginástica com um plástico amarrado na barriga e se pesava freqüentemente.

Dizia que sua pele não estava normal, que estava cheia de “bolinhas” e com a textura muito fina. Procurou o cirurgião que a indicou, porque estava vendo uma marca na região superior do lábio, que parecia um “bumbum”. A pequena marca a que se referia era vermelha, como se fosse o início de uma espinha, muito difícil de ser percebida. Não havia alterações em sua pele.

Fez várias cirurgias para retirar “verruguinhas” do rosto. Com algumas ficou satisfeita, com outras não, vindo a reclamar com os cirurgiões. Ia freqüentemente a dermatologistas. Perdia cerca de quatro horas na frente do espelho, limpando o rosto, de manhã e à noite. Utilizava um espelho de aumento e uma lupa para ver as marcas. Para escondê-las, usava maquiagem ou esparadrapo. Perguntava freqüentemente sobre as marcas na pele, comportamento que emitiu durante as entrevistas. Não acreditava quando lhe diziam que não tinha nada. Reparava na pele de outras mulheres. Quase não saía de casa, isolava-se, chorava muito. Apesar de não ter amigos, falava com desenvoltura e parecia ter um bom repertório social. Apresentava rituais para fechar as janelas e tomar banho.

P5:

Mulher de 40 anos, casada, dona de casa, analfabeta, tinha uma filha de 13 anos e outra de 17, a renda familiar era de R$1.500,00.

Depois de ouvir um comentário sobre sua pele, começou a perceber que estava com algumas marcas de expressão ao redor dos lábios e procurou uma dermatologista, que lhe disse que em sua idade era normal surgirem “ruguinhas”. Passou a se sentir extremamente mal com esse comentário, vindo a procurar um farmacêutico que lhe indicou uma pomada. Não satisfeita, comentou com uma conhecida sobre as marcas, e esta lhe indicou um creme, que começou a passar várias vezes por dia. Após o uso do creme, começou a enxergar muitas rugas ao redor dos olhos, com as quais passou a se preocupar exageradamente. Dizia ver uma “coisera” na pele, que a fazia parecer um “monstro”. Possuía rugas de expressão normais para uma pessoa de sua idade. Os cirurgiões plásticos a quem ela recorreu perceberam seu estado depressivo e optaram por não operar.

Olhava-se muito no espelho e perdia várias horas do dia. Começou a esfregar a pele com a unha e com um pano, na tentativa de tirar as rugas, vindo a se machucar várias vezes. Tentava evitar olhar no espelho, para não se machucar. Ficava com a mão na frente da boca, perguntava e se queixava das rugas freqüentemente (comportamentos também observados nas entrevistas). Reparava e se comparava com outras mulheres. Apresentava um baixo repertório social, era bastante quieta. Depois que começou a se preocupar, passou a evitar sair, praticamente se isolou socialmente, não se dedicava às tarefas domésticas como antes, ficava se lamentando, chorava, tinha insônia, falava em morrer. Antigamente apresentava comportamentos compulsivos de limpeza da casa.

P6:

Jovem de 23 anos, solteira, fazia graduação em período integral, morava com duas amigas, renda familiar de R$20.000,00.

Desde criança, ouvia comentários de que seu bumbum era igual ao de sua mãe.

Preocupava-se com a região do bumbum e quadril, achando-a muito grande, com gordura localizada, celulite e culote. Fez uma lipoaspiração nestas regiões, com a qual não se sentiu satisfeita. Logo que viu o resultado da cirurgia, percebeu que estava “deformada”. Fez duas correções; no entanto, ainda não estava satisfeita e gostaria de fazer mais uma. A participante tem esta região grande, mas não fora do comum. Olhava o bumbum ao passar por superfícies refletoras; carregava um espelho na bolsa, para checar como a calça estava marcando. Usava meia-calça por baixo da roupa para não marcar o bumbum, às vezes, amarrava um moletom na cintura ou usava bolsas para escondê-lo. Perguntava freqüentemente sobre o bumbum e não acreditava quando falavam que não tinha nada. Reparava e se comparava com outras mulheres. Dizia que onde quer que fosse, tinha a sensação de que todos estavam olhando para o seu bumbum, deixando de sair muitas vezes. Evitava ir a determinados lugares como praias, clubes e piscinas. Tinha amigos, um bom repertório social, falava bastante. Tinha crises depressivas repentinas, desencadeadas pelas preocupações relacionadas ao tamanho do bumbum e apresentava com-portamentos compulsivos de comer e comprar.

P7:

Homem de 44 anos, ensino fundamental completo, operário, morava com a esposa, uma filha de 19 anos, um filho de 21 e sua nora, renda familiar de R$900,00. Preocupava-se com a ponta do nariz, que achava muito grande e fina. Quando se olhava no espelho, via um “monstro todo deformado”. A ponta do seu nariz era um pouco grande, mas não atípica.

Quando criança, via que seus tios tinham narizes grandes e se preocupava se um dia também teria. Tinha primos da mesma idade que, por terem melhores condições financeiras, estavam sempre bem vestidos, ao contrário dele e de seus irmãos. Sentia-se inferior aos primos. Descreveu uma situação considerada como um “marcador” para que suas preocupações com o nariz se agravassem: um colega de trabalho disse que ele parecia um personagem de TV, que tinha o nariz grande, e todos os outros começaram a rir. Primeiramente, olhava muito no espelho, mas como se sentia mal, passou a evitar. Evitava ficar de perfil quando estava conversando, o que foi percebido durante as entrevistas. Reparava no nariz de outras pessoas e se comparava. Percebia olhares, comentários e risos. Evitava lugares que tivessem muita gente, como shoppings, mercados, etc. Apenas saía para trabalhar. Teve crises depressivas, por causa das preocupações com o nariz, chegando a pensar em suicídio. Porque os médicos se recusavam a fazer a cirurgia, chegou a pensar em cortar a ponta do nariz. Quase não tinha amigos. Apresentava um bom repertório social, falava de modo articulado.

Análise do TDC de Acordo com as Classes de Resposta

Apesar das preocupações excessivas com alguma parte do corpo, os participantes tinham alterações mínimas em sua aparência, difíceis de serem percebidas. Cinco deles já haviam feito algum tipo de correção estética, e nenhum havia ficado satisfeito com os resultados. Os outros dois estavam buscando cirurgias plásticas. Durante as entrevistas, no relato verbal dos participantes, era possível identificar as constantes insatisfações:

– Eu queria operar de qualquer jeito pra ficar boa, operava, não esperava nem dois meses e já operava de novo. Naquela época eu não gostava de mim, eu queria operar o mais rápido possível pra mudar o meu nariz, pra poder arrumar(…)(P1).

Foram relatados comportamentos de olhar fixamente no espelho e evitar olhar; tentativas de camuflar os defeitos; perguntar aos outros sobre o defeito e se comparar com outras pessoas. Além dos comportamentos relacionados à aparência, os participantes apresentaram comporta-mentos característicos de outros transtornos. Todos eles apresentavam comportamentos depressivos e três (P3, P5, P7) relataram ter pensamentos suicidas, exemplo:

– Eu acredito que a minha saúde foi a quase zero, porque eu fui perdendo até a esperança assim de querer viver, sabe; eu não sentia prazer em viver, em andar no meio, em ir, por exemplo, daqui até o terminal, por ficar preocupado com as pessoas que vão me olhar de perfil, então já muda muito a vida né. (P7).

A maioria relatou ter comportamentos que poderiam ser caracterizados como obsessivos e compulsivos, relacionados às preocupações com a aparência:

– Ah, eu penso direto, penso toda hora, a hora que saio. (…) Mas o duro é que eu não consigo evitar olhar, parece que alguma coisa me leva ao espelho, é aquilo que eu falei de energia negativa, eu não consigo evitar (P3). (…) e eu nunca saio sem virar de costas para olhar o bumbum. Hoje mesmo eu fiquei assim no espelho: “não vou virar, não vou virar, não vou virar”. Não agüentei e virei. Sempre (P6).

Alguns participantes apresentaram comportamentos típicos do TOC, como P4 que apresentava rituais na época das entrevistas, e P5 que relatou compulsão por limpeza antes das preocupações com a aparência. Outros comportamentos foram gastar e comer compulsivamente, apresentados por P6.

Foram identificados comportamentos verbais e não verbais que poderiam ser interpretados como delirantes, sendo comum o uso de palavras como: “deformado”, “monstro” e idéias de que “chocavam”, “assustavam” e “causavam impacto”. Alguns acreditavam que as pessoas riam, comentavam o defeito e, para indicá-lo, colocavam a mão sobre a parte do próprio corpo, para ilustrar segue relato do P7:

– Na hora que eu me ponho no meio do grupo, no meio de uma festa, ou shopping, então eu estou seguindo cada pessoa que me vê, que me vê diferente de qualquer outros defeitos que surgirem na multidão, então eu me sinto, eu, como se diz assim, todo deformado, que ninguém vai conseguir passar sem me ver, então eu me sinto sozinho na multidão e todo mundo tá me vendo. (…) As pessoas, eu vejo que quando a gente tá conversando e tal, eles me procuram; quando eu estou de perfil, eu vejo que ele ta dando um arzinho de riso, mesmo que ele disfarça, eu vejo (P7).

Outra classe de comportamentos evidenciada entre os participantes foi de esquiva social. Alguns se esquivavam de sair apenas para alguns lugares específicos, como shoppings, bares, cinemas, clubes, supermercados, enquanto outros, como P4 e P5, beiravam o isolamento social.

Apenas uma participante (P1) negou ter prejuízos em sua vida social, por causa das preocupações com o defeito. Três (P4, P5 e P7) afirmaram ter prejuízos na área ocupacional. Cinco (P3, P4, P5, P6 e P7) afirmaram evitar alguns lugares por causa das preocupações, e apenas um deles afirmou não ter problemas familiares (P2) relacionados às preocupações. Portanto, as preocupações excessivas em relação aos defeitos lhes causavam prejuízo em áreas de funcionamento social, ocupacional e familiar.

Embora os critérios psiquiátricos tenham sido utilizados para a seleção dos participantes, neste trabalho, as classificações limitaram-se à descrição de respostas conhecidas sob o rótulo de TDC. Os participantes apresentaram não apenas a maioria dos comportamentos típicos do TDC, mas também característicos de transtornos como Depressão, Fobia Social, TOC e Transtorno Delirante, justamente aqueles apontados pelo DSM-IV (APA, 1995) como comórbidos ao TDC.

Entretanto, além da descrição das respostas, foi feita uma análise comportamental dos dados que será apresentada a seguir, dando ênfase nas classes de comportamentos, relacionando-as a condições ambientais. Buscou-se entender as contingências de reforçamento em operação na história de vida dos participantes e no presente.

Análise Comportamental da História de Vida e da História de Contingências

A maioria dos participantes teve poucos amigos (P1, P2, P3, P4 e P5) durante a infância e adolescência, devido à falta de contato com pessoas e lugares diversificados. Provavelmente, alguns deles não tiveram oportunidade de desenvolver comportamentos socialmente habilidosos, conforme aponta a literatura (Andreasen & Bardach, 1977; Braddock, 1982; Bloch & Glue, 1988). Essa falta de comportamentos socialmente habilidosos pode ter sido condição importante para o surgimento de comportamentos depressivos, de esquiva social, assim como, o baixo repertório social na fase adulta, para alguns dos participantes (P1, P3 e P5), conforme os relatos abaixo:

– Tive dificuldades de ter amigos, às vezes, no recreio eu ficava sozinha. Não era muito fácil de me entrosar não (P1). Ficava isolado, às vezes um ou outro colega, mas enquanto eles eram colegas, porque eles gostavam de brincar, eu já não brincava mais, então eu ficava sozinho (P2).

Todos apresentaram uma história pessoal de práticas educativas coercitivas. Seus genitores eram exigentes, críticos e rígidos, enfim, usavam punição em alta freqüência para grande parte do repertório dos participantes:

– (…) eu só me lembro assim, que quando eu era mais nova o meu pai já ia falando com o tapa, ele não escolhia lugar pra bater, era na cabeça mesmo, onde pegasse. O meu pai não era muito de conversar: “é assim, é assim e assim”, ele ia dando os murros dele, eu falo pra você que ele era bravo (P5). Eu não sirvo pra ficar ouvindo só críticas, de críticas eu estou por aqui, minha vida foi só de crítica. Da minha mãe, das minhas irmãs(…) a minha mãe nunca foi muito carinhosa, ela é meio neurótica (P2).

Estes dados estão de acordo com relatos de casos na literatura que chamaram a atenção para o fato de que pessoas com TDC tiveram uma educação rígida ou pais superprotetores (Andreasen & Bardach, 1977; Braddock, 1982; Thomas, 1984).

Entre os efeitos colaterais de uma educação coercitiva, Sidman (1995) destacou a generalização de comportamentos de fuga e esquiva para outros estímulos além daqueles apresentados no controle coercitivo. Vários comportamentos observados entre os participantes tinham a função de fuga/esquiva e, provavelmente, foram selecionados a partir de uma história de contingências aversivas/coercitivas mantida pelo uso freqüente de reforçamento negativo ou punição. Entre eles, destacam-se esquiva social, comportamentos obses-sivos e compulsivos, ilustrados nestes relatos:

– É eu tenho vergonha de sair, a minha menina me chama pra sair e eu não saio.(…) Quando as amigas dela vêm em casa, eu fico escondida no quarto, porque eu tenho vergonha, vergonha das marcas no rosto (P5). Mas eu pergunto pra ele, pergunto: “ta aparecendo, ta afundado, ta alto?”Aí ele fala: “não tá”, mas eu tenho necessidade de perguntar(..) (P4). Eu não consigo, eu chego no espelho, aí eu falo “ai meu Deus!”, e começo a passar o pano, pego a toalha e fico passando. (…) Sinto alívio, porque desaparece, aí eu falo: “agora ficou agora ficou bonito! Ficou bonito porque agora sumiu do rosto”, mas fica vermelho, aí eu me sinto mais mal ainda. É porque daí eu falo :”ai meu Deus, olha onde eu fui parar, estragar o meu rosto!”(P5).

Considerando-se o processo de desenvolvimento e a funcionalidade, a falta de aprendizagem de comportamentos socialmente habilidosos e a educação pauta-da no controle coercitivo podem ter originado comportamentos com função de fuga/esquiva comuns ao TDC e a outros transtornos como Depressão, Fobia Social e TOC. Então, por que comportamentos relacionados a preocupações com partes específicas do corpo surgiram e estavam sendo mantidos? Foram levantadas algumas variáveis que, provavelmente, contribuíram para o desenvolvimento destes comportamentos.

No contexto em que viveram alguns participantes (P1, P3, P4, P6, P7), durante a infância, havia pessoas que davam muita importância à beleza, principalmente membros da família, que faziam comparações e ressaltavam qualidades em outros parentes e não nos participantes. Alguns (P3, P4) eram elogiados quando crianças, quanto à aparência:

– A minha mãe sempre vivia comparando ela (P1) com a outra neta, que a outra neta era esperta, sabia conversar, sabia isso, sabia aquilo e a P1 não. Que ela era bobinha, fazia estas comparações na cara dela (mãe de P1). Muitos elogios, acho que fui uma criança muito bonita, eu me lembro disso. (P4)

O que se destaca, nestes dados, é a grande valorização da beleza, da aparência e do status social, seja por meio de críticas ou elogios, que pode ser considerada uma influência cultural de peso, em concordância com autores da área (Birtchenell, 1988; Rosen, 1997; Figueira et al., 1999). Regras a respeito da importância da beleza podem ter adquirido a função de operação estabelecedora na vida dos participantes, no sentido de que alterava o valor reforçador de comentários e elogios sobre a aparência, assim como aumentava a freqüência de comportamentos de olhar no espelho, de perguntar sobre o defeito, entre outros. O alto valor reforçador da aparência física bela pode ser vislumbrado a seguir:

– Nossa, muito importante, eu acho que uma pessoa bonita, eu acho que ele entra em qualquer lugar e em qualquer lugar ele é aceito, tanto que hoje, a maioria dos lugares que estão procurando trabalho, que é mexer com o público né, que é uma recepção, exige uma pessoa de boa aparência. (P7)

Ao longo da vida dos participantes, ocorreram certos eventos relacionados às partes específicas do corpo com que se preocupavam: comentários (P5, P6, P7), cirurgias (P1 e P3) e acidentes (P1 e P2). Presume-se que estes eventos tenham sido importantes para que estas partes do corpo adquirissem função aversiva. Esses dados vão ao encontro das afirmações de Andreasen e Bardach (1977) e de Rosen (1997) sobre críticas, comentários e acidentes, com a parte do corpo de preocupação, como fatores precipitantes.

Análise e Descrição das Contingências Atuais

Devido a histórias de vida e histórias de contingências, citadas anteriormente, partes do corpo específicas podem ter-se tornado estímulos discriminativos, que ocasionavam comportamentos de pensar e se preocupar com a aparência, olhar fixamente no espelho, tentar camuflar, procurar cirurgiões para correções, entre outros, conforme relato:

– Surgem a partir da hora que eu estou me olhando, eu já me deparo com as preocupações, eu posso estar esquecido, olhei no espelho, já vem a preocupação (P7).

Pensamentos repetitivos sobre o defeito, sentimentos de rejeição e reações corporais características da ansiedade, como taquicardia e sudorese, eram discriminados como aversivos. Por isso, os participantes procuravam fugir e/ou se esquivar de estímulos discriminativos que sinalizavam estes comportamentos privados, assim como deles próprios, que adquiriram o caráter aversivo, ilustrados nestes exemplos:

– (…) é uma angústia profunda, quando estou com os outros eu fico meio tenso, fico pensando que os outros estão olhando, se vão perguntar alguma coisa (P3). – É uma coisa doída aqui por dentro sabe, doída por dentro (P4). Quando olho no espelho sinto aquele gelo assim por dentro, que vem assim e gela o corpo (…) (P5).

De acordo com o modelo de esquiva experiencial descrito por Friman et al. (1998), os participantes procuravam se esquivar de eventos, ocasiões e contextos em que suas preocupações e sentimentos aversivos sobre a aparência poderiam ocorrer.

No começo era direto, agora não. – Me fazia mal né, então agora eu nem olho mais, porque sei que vai me fazer mal, deixar eu ficar quieto (P3). – Cheguei a cancelar compromisso de não ir na última hora por causa disso. (…) Ficava agoniado assim, preocupado de não me sentir bem, de não me sentir à vontade por causa disso (P2).

– Olha, quando eu vou sair, eu só posso dizer o seguinte, se eu, por exemplo, estou muito preocupado com a minha aparência, geralmente eu nem saio. Geralmente eu não saio, procuro ver um jeito (P7). (…)porque sempre é a mesma história, eu até estou com vontade de sair, de fazer alguma coisa, aí na hora que eu vou me trocar, porque daí já mistura tudo, né, porque eu estou bem, aí eu vou me trocar, eu já me estresso, fico nervosa, daí choro e não vou. E é sempre assim (P6).

Supõe-se que essas sensações aversivas foram sendo relacionadas a outros estímulos do ambiente dos participantes, que também foram adquirindo o caráter aversivo, provavelmente por meio da transferência de função entre estímulos equivalentes (Wilson & Hayes, 2000), conforme os relatos que se seguem:

Não, ninguém nunca falou nada. Assim como eu já tinha falado dos pêlos do queixo, eu percebo que os outros vêem que eu tenho né, porque quando eu estou conversando com alguém, ficam colocando a mão no queixo, mas nenhum comentário com palavras (P1). – Não, ninguém nunca falou nada. Mas eu percebo que quando falam comigo, desviam o olhar, rebatem o olho e focam na cicatriz (P3).

Conforme se observou entre os participantes, com a extensão cada vez maior das classes de estímulos, vão restando poucas situações que não adquirem o caráter aversivo. Isto poderia explicar a tendência ao isolamento social observado em alguns deles. Todos esses exemplos de comportamentos de esquiva estavam sendo mantidos por reforçamento negativo. A médio e longo prazo, os comportamentos de esquiva estavam trazendo prejuízos, pois ao serem reforçados negativamente, prevenindo-os de se exporem às situações sociais, de serem criticados e de se sentirem ansiosos, impediam-nos de emitir comportamentos que poderiam ser positivamente reforçados. Portanto, como ocorre na esquiva experiencial (Friman et al., 1998), o comportamento de esquiva torna-se incompatível com as respostas operantes do tipo sair de casa, passear, ir ao trabalho, etc.

Os participantes apresentavam baixa variabilidade comportamental e baixa freqüência de classes de respostas positivamente reforçadoras, entre todas as atividades que desempenhavam, como pode ser vislumbrado:

– Ah, comigo acho que está regular. Não tem nada assim que eu esteja feliz, por causa que eu queria estar melhor. Assim, ta tudo regular, no campo profissional, não é aquilo que eu queria, eu até largaria. Quanto ao casal também está regular, porque a gente não tem nossa casa, é tudo mais difícil (…)É isso que eu digo, bom não tá né (P1).

Desse modo, a contingência atual predominante em operação era reforçamento negativo concomitante à extinção por meio da baixa taxa de reforçamento positivo. Este tipo de contingência favorece a baixa variabilidade comportamental, o isolamento social e comportamentos depressivos.

Conclusão

Os dados colhidos basearam-se no relato retrospectivo dos participantes e de seus familiares, com o objetivo de compreensão das possíveis variáveis relevantes para o desenvolvimento e a manutenção dos comportamentos característicos do TDC.

Hipotetizou-se que algumas experiências comuns na infância dos participantes, como a educação pautada na coerção e a falta de interação social, influenciaram grande parte dos comportamentos apresentados e que a ênfase em estímulos discriminativos, sinalizadores de reforço negativo e a falta de reforçamento positivo estavam contribuindo para a manutenção dos comportamentos.

Histórias de contingências semelhantes deram origem a comportamentos topograficamente diferentes. Além dos comportamentos de preocupação com a aparência, característicos do TDC, foram identificados comportamentos depressivos, obsessivos, compulsivos, delirantes, todos com função de fuga/esquiva. Essas análises encontram fundamento no modelo dimen-sional funcional em que comportamentos devem ser organizados em processos relacionados a contingências de reforçamento coercitivo que os teriam produzido e mantido, independentemente de suas diferentes topografias (Hayes et al., 1996).

Vários dos comportamentos foram descritos como esquiva experiencial, pois os participantes buscavam se esquivar da ansiedade, de pensamentos sobre sua aparência, e sobre a reação das pessoas à sua aparência. Os comportamentos de esquiva eram reforçados negativamente, pois os prevenia de se expor às situações sociais, resultando em conseqüências prejudiciais, como isolamento social e comportamentos depressivos.

Apesar de não ser possível levantar todas as variáveis importantes, nem afirmar com segurança a real contribuição e o grau em que as variáveis levantadas influenciaram os comportamentos, que é uma realidade do contexto clínico, esta foi uma tentativa de demonstrar como a história de vida de cada indivíduo deve ser comsiderada para entender seus comportamentos atuais.

fonte: http://revistas.redepsi.com.br/index.php/RBTCC/article/view/143/126

Perguntas e Respostas sobre Dismorfia Corporal

O paciente com TDC tráz para a concretude física o que não consegue subjetivar e experienciar em forma de emoção. Questões físicas figuram as dores mais profundas de uma emocional pouco tratado e necessitando absurdamente de elaboração e respaldo.

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Por que a pessoa vê sua imagem distorcida? Como a capacidade ocular pode intervir nisso? Como posso ver um nariz normal e achá-lo anormal por exemplo, seguindo o ex do Michael Jackson.

R: Os fatores etiológicos da maioria dos transtornos mentais, incluindo o TDC, não são completamente conhecidos. Via de regra, envolvem uma interação entre fatores genéticos e ambientais. Os fatores genéticos parecem desempenhar importante papel na etiologia do TDC: dos indivíduos com o TDC, 8% têm algum membro da família com esse diagnóstico durante a vida, o que representa de 4 a 8 vezes a prevalência na população geral. Além disso, funções anormais de neurotransmissores específicos – serotonina e dopamina – podem estar envolvidas no desenvolvimento do TDC, como foi evidenciado pela boa resposta desses pacientes a medicações que alteram os níveis desses neurotransmissores.

Bulimia, anorexia e vigorexia estão na classe dos transtornos dismórficos? Por que qualquer pessoa com esses transtornos tem a percepção alterada de si mesmo?

R: Tanto o TDC como os Transtornos Alimentares, incluindo a Anorexia Nervosa e a Bulimia Nervosa, são caracterizados por preocupações excessivas com a aparência física e insatisfação com o corpo. Esses transtornos podem cursar com pensamentos obsessivos e comportamentos repetitivos (por ex. checagem no espelho e medidas do corpo).

A diferença é que os portadores de transtornos alimentares sentem-se insatisfeitos com o formato do corpo e com o peso de uma forma mais geral, enquanto que os portadores de TDC preocupam-se com algumas partes do corpo em específico.

A incidência em adolescentes é maior que em adultos?

R: A prevalência do TDC na população geral ainda não é bem estabelecida. No entanto, estima-se que afete aproximadamente 1 a 2% da população geral. Nas populações de estudantes, as prevalências do TDC variam de 2,5 a 28%.

Um indivíduo perfeccionista extremado, não necessáriamente voltado para o corpo, mas para o comportament, por exemplo, procura ser tão perfeito que se torna irreal…um boneco, um robô… Pode ser considerado como um dismórfico?

R: Na verdade , esse limite da vaidade extrema e o dismorfismo , para nós, médicos clínicos, é uma linha pouco precisa. Há que se ter muitas consultas (o que acontece quase sempre) com esses pacientes, para que se possa perceber que há uma supervalorização de determinado incomodo estético. Após ser realizado alguns procedimentos que não satisfaz o paciente, repetir o procedimento é continuar não agradando o individuo. Uso, até como precaução, documentação fotográfica, fazendo fotos do antes e depois, mas mesmo assim não há como satisfazer. Começo então a pensar em algum grau de “dismorfismo”, então, os psicólogos tem que ajudar.

Além dos antidepressivos, outros medicamentos costumam ser associados?

R: O tratamento farmacológico de 1ª linha é o uso de antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina. Mesmo os pacientes portadores da variante delirante do TDC respondem preferencialmente a essas medicações. Em casos refratários, pode-se tentar outras classes de antidepressivos ou estratégias de potencialização medicamentosa, como a associação com antipsicóticos.

O portador do transtorno deve ser medicado com medicação psiquiátrica? Há saldo positivo na maioria dos tratamentos?

R: O transtorno tende a ser crônico, ou seja, o indivíduo frequentemente apresenta exacerbação dos sintomas ao longo da vida. Uma das possibilidades terapêuticas no TDC é o tratamento farmacológico, particularmente o uso de antidepressivos inibidores da recaptura de serotonina, tais como a Fluoxetina e a Sertralina, por exemplo.

O individuo com esse transtorno, quer fazer procedimentos, aumentar lábios e bochechas, mudar sobrancelhas, preencher pontos da orelha, tirar detalhes do contorno do corpo, mais e mais detalhes. Quando e como o profissional dá o limite?

R: O limite é muito pouco preciso ! Mas devemos fazer os tratamentos pertinentes, procurar a ajudar o paciente ansioso e principalmente documentar. Primeiramente deve-se colocar a pessoa ciente do que vai ser feito. Nunca iludir, nem criar “sonhos impossíveis” de serem alcançados. Depois, documentar da maneira mais precisa, com fotos feitas antes do procedimento e feitas após. Mas o mais importante é colocar o resultado que será obtido com muita clareza, dentro da realidade.

De onde vem essa necessidade de intervenções cirurgicas?

R: De acordo com o ponto de vista psicológico, a necessidade de um número desenfreado de intervenções cirurgicas se dá, pela necessidade de reparação de algo interno, mas que pela dificuldade de contato e elaboração do “invisível”, o indivíduo sente a necessidade de concretizar com as alterações físicas.
Com a frequência de intervenções, há uma tentativa recorrente de sanar, eliminar aquilo que o incomoda. Sempre em busca da felicidade e saciedade emocional, que infelizmente, desta forma, nunca acontece.

Fonte: Clínica Psicológica M&C

Quanto a cirurgia plástica é muito?

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Como a cirurgia plástica é demasiada?

Em uma pesquisa da revista Glamour, 75 por cento das mulheres entre as idades de 18 a 35 acreditavam que estavam gordas. No entanto, apenas 25 por cento eram medicamente excesso de peso – a mesma porcentagem de homens com sobrepeso (Mito da Beleza por Naomi Wolf). Este tipo de auto-crítica exagerada, chamado transtorno dismórfico corporal, pode minar sua auto-imagem. Transtorno dismórfico corporal tem sido definido como uma obsessão com um traço facial ou corporal.

Alguns estudos têm determinado que até 12 por cento de todos os pacientes de cirurgia plástica tem esse transtorno. As evidências mostram que esses pacientes são mais propensos a buscar procedimentos múltiplos para a mesma característica.

Então, a questão torna-se, quanto a cirurgia estética é muito?

Pelas razões erradas para começar a cirurgia Cosmética

Prosseguindo a cirurgia estética para as razões erradas pode ser o que leva a uma cirurgia plástica em excesso. Aqui estão alguns exemplos.

  • Contentamento Eterno. É importante compreender que a cirurgia estética não conduz à satisfação de vida. A cirurgia plástica pode impactar positivamente a muitos aspectos da sua vida, no entanto, que não é a razão para a cirurgia plástica. Na verdade, tratamentos cosméticos e procedimentos não durar uma vida. Conforme o tempo passa, o envelhecimento vai continuar a afectar a sua aparência. O envelhecimento também pode afetar a aparência de um procedimento de cirurgia plástica.
  • Vida solução do problema. pacientes de cirurgia plástica estão expostos a diferentes graus de estresse da vida. Alguns pacientes acreditam que a cirurgia estética que a cirurgia plástica vai resolver uma questão interna, aumentar as oportunidades de emprego ou curar dor da perda de um emprego, a perda de um ente querido ou de transição para a aposentadoria. procedimentos de cirurgia plástica são projetados para melhorar a aparência de uma área específica do corpo, e não os problemas da vida.
  • Parecia bom na TV! Algumas pessoas podem se fixar em um procedimento que viram na televisão. Por exemplo, eles podem pedir vários elevadores e dobras que parecia bom na TV, quando eles poderiam alcançar o objetivo desejado com um mini ou micro procedimento. Também é verdade que você pode ver procedimentos mini olhar bom na TV, quando a reforma estiver procurando exigiria mais a cirurgia plástica extensiva. Subestimar o que você precisa pode resultar na vinda de volta para os procedimentos adicionais que, caso contrário não teria sido necessário.

Procedimentos de acompanhamento são uma necessidade legítima

Tendo advertiu contra exageros, lembre-se que os procedimentos de acompanhamento são comuns. procedimentos não-invasivos e minimamente invasiva deve ser repetido a fim de manter o benefício. procedimentos de cirurgia plástica exigem muitas vezes “retoques” na forma de cirurgias secundárias para manter as melhorias cosméticas para o seu corpo. Houve uma taxa de 30 por cento re-operação entre as mulheres que fizeram cirurgia de mama. Muitos destes casos foram para aumentar o tamanho ou revitalizar o aspecto envelhecido da cirurgia inicial. Você também deve estar ciente de suas mudanças emocionais, que são uma parte muito importante do território da cirurgia plástica.

Primeira Vez

Médicos em pacientes de cirurgia plástica ajuda a tomar decisões que incidem sobre a particularidade incômodo, a cirurgia para reduzir as necessidades futuras, tanto quanto possível. Você pode ajudar o seu médico para obtê-lo certo na primeira vez pela compreensão do verdadeiro propósito de ter a cirurgia cosmética e suas opções de tratamento, recebendo apoio daqueles que o rodeiam, por serem preparados para o processo de recuperação e compreensão dos efeitos secundários possíveis.

Mais sobre o transtorno dismórfico corporal

Transtorno dismórfico corporal atinge cerca de 1 em 50 pessoas. O transtorno geralmente começa na adolescência ou após o aparecimento de problemas psicológicos, tais como transtornos alimentares ou o transtorno obsessivo compulsivo. O transtorno pode ser um precursor à doença mental. Os cirurgiões plásticos freqüentemente gastar uma quantidade significativa de tempo na consulta inicial para identificar bandeira vermelha indicadores da doença.

Bandeira vermelha-indicadores para a doença incluem a preocupação com o corpo percebido ou defeito facial, evitando situações sociais devido ao defeito percebido ou comportamentos destrutivos e pensamentos sobre o defeito percebido. Muitas vezes uma pessoa com transtorno dismórfico corporal, podem sentir que têm um defeito quando o médico não. Não há tratamento disponível atualmente para as pessoas com transtorno dismórfico corporal. Recentes estudos têm indicado que os pacientes respondem bem à terapia cognitiva, aprendendo a substituir os pensamentos sobre o defeito percebido com hábitos positivos. Os medicamentos orais também foram encontrados para ser benéficos.

Fonte: Cessão

Transtorno Dismórfico Corporal explicado diferente

Achei um texto muito interessante explicando a dismorfia corporal num blog de um psicólogo de Porto Alegre, ele explica de uma forma diferente das que estamos acostumados a ler a respeito desse assunto. Gostei muito da forma que ele abordou os pontos da doença. Segue:

Este transtorno é incluso entre os transtornos hipocondríacos, e este boa parte das pessoas conhece, mas pensem que a hipocondria é um enfermidade mental em que há depressão e preocupação obsessiva com o próprio estado de saúde: O individuo, por efeito de sensações subjetivas, julga-se preso a condições péssimas (sendo na realidade inexistentes) e passa a procurar, permanentemente, tratamentos que, além de descabidos, são muitas vezes perigosos (medicações, intervenções cirúrgicas, etc).

Pois é, muitas pessoas acreditam que isso acontece na maioria nas mulheres, mas isso não é verídico. As proporções são iguais em homens e mulheres, sendo manifestados normalmente na terceira década de vida. O começo, alguns estudos demonstram que a clinicamente se dá na adolescência, época em que o indivíduo está mais preocupado de sua autoimagem na vida social.

Existem dois picos: Um na adolescência no inicio da idade adulta e outro, somente em mulheres, durante a menopausa.
É um transtorno crônico, intensidade variável, com oscilações e altos e baixos dos sintomas

Biológicamente falando, existe certa alteração na na fisiopatología da serotonina, ou seja certos remédios denominados inibidores da recaptação da serotonina são úteis no tratamento.  A serotonina atua mantendo idéias e pensamentos sob controle.

Seguimos a “saga de não cair na chatice”, mas afinal Cleber, que fatores psicológicos desencadeiam isso? Bom, meninas e meninos… Os ansiosos, perfecionistas, tristes, são mais suscetíveis de desenvolver este transtorno. Calma lá, quase todos nós somos ansiosos, muitos se acham perfecionistas e triste podemos ficar… Não vista os sintomas, por favor… A desproporcionalidade é a causadora. Algumas experiências emocionais vividas, principalmente na infância (em algumas épocas não sabiamos o que era Bullying, lembram), são de certo modo a origem de personalidades suscetíveis, com baixa auto estima, insegurança introversão, dificuldade de relacionamento interpessoal, pessoas tendentes à solidão, insociabilidade, introspeção e má adaptação à realidade exterior etc.

Sei que este tópico vai ficar “gigante”, mas lembrem-se que é apenas um resumo e estou tentando ao máximo, reduzir os temos, mas não podemos deixar de fora os fatores sociais e culturais, como: Apelos publicitários nos meios de comunicação que propagam a compra de cremes, loções, aparelhos para tornar o corpo esbelto. Os defeitos que são objeto de preocupação são diferentes dependendo do país e cultura, e isso nunca é recordado. O corpo da Brasileiro nunca será igual ao da Americana e muito menos da Chinesa, tomando a mulher como público-alvo, deste anúncios.

Fonte: Psicanálise Clínica

500 reais em remédios

Fui no meu psiquiatra pra terça passada porque estou com muito sono, com falta de concentração e desanimada. Mesmo se eu dormir bem eu passo o dia com  sono, quando chego em casa e vejo a minha cama já quero tirar um cochilo ou umas 9h da noite já to apagada dormindo. Fim de semana que não tenho hora pra levantar acordo umas 8 ou 9h da manhã mas as 9 da noite já to morrendo de sono de novo. Isso não é normal.

Cheguei no consultório e expliquei isso pra ele. Ele perguntou se eu poderia gastar R$ 50,00 e falei que sim. Fiz um exame que eu subia numa maquininha e a máquina media meu peso, massa muscular, massa de gordura, act (água corporal total), mlg (massa livre de gordura), imc (índice de massa corporal), pgc (percentagem cintura-quadril), tmb (taxa metabólica basal), massa magra segmentar e gordura segmentar.

Depois ele montou uma receita pra mim (medicina molecular) que é a nova moda pra medicação personalizada pra cada pessoa. A minha receita ficou assim:

Parte 1: 60 cápsulas gelationsas (tomar no almoço e jantar)
Betacaroteno (pró-Vit A): 10.000 ui
Vitamina D: 200 ui
Tiamina (Bit. B-1): 30 mg
Riboflavina (Vit. B-2): 30 mg
Niacinamida (Vit. B-3): 30 mg
Ácido Panctotênico (Vit. B-5): 30 mg
Piridoxina (Vit. B-6): 80 mg
Aspartato de Magnésio: 100 mg
Inositol: 100 mg
Manganês Quelado: 5 mg
Cobre quelado: 500 mcg
Zinco quelado: 35 mg
Selênio quelado: 35 mg

Parte 2: 60 cápsulas sublinguais (colocar 1 cápsula sublingual nas refeições)
Cianocobalamina (Vit. B-12); 250 mcg
Ácido Fólico: 0,375 mg

Parte 3: 60 cápsulas oleosas (tomar no almoço e jantar)
Alfa Tocoferol: 250 ui
Alfatocotrienol: 50 mg

Parte 4: 60 cápsulas gelatinosas (tomar no almoço e jantar)
Colina bitartarato: 250 mg

Parte 5: 60 cápsulas oleosas (tomar no almoço e jantar)
Lecitina de soja

Parte 6: 30 cápsulas gelatinosas (tomar em jejum pela manhã)
Omeprazol: 10 mg

Parte 7: 30 cápsulas (tomar no café da manhã)
Citalopram: 30 mg (meu remédio da depressão)

Parte 8: 60 cápsulas gelatinosas (tomar no almoço e jantar)
Diferurolmetano: 200 mg

Parte 9: 60 cápsulas gelatinosas (tomar no almoço e jantar)
Ascorbato de Cálcio: 500 mg

Parte 10: 60 cápsulas gelatinosas (tomar no café da manhã e lanche da tarde)
Gaba: 250 mg

E aí meu médico falou que eu podia pagar os R$ 50,00 direto pra ele, em vez de pagar pra secretária. Caixa dois? Ele falou pra eu fazer esse tratamento por um ano e voltar nele uma vez por mês. Fui mandar manipular, o valor mensal é de R$ 514,00. De onde vou ter dinheiro pra investir esse valor em remédios? Caraca, não sou hipocondríaca. Meu amigo terapeuta vibracional (aquele que participou comigo no programa da GNT) vai montar outro remédio pra mim. Depois que tiver montado eu posto aqui pra vcs verem.

Eu queria tomar algo como Pharmaton (que minha irmã já toma e disse que é porrada) ou Centrum (aquele do Luciano Huck). Bom, vamos aguardar a próxima receita mais natural e mais barata então.

Entre 8 e 80, 79, ainda é o abismo

Esse é o depoimento sobre dismorfia de um amigo meu (que conheci através do blog).

Lembro-me na época em que eu tinha transtornos iniciais de depressão e tampouco desconfiava de sua origem ou, pelo menos, qual fator à resultava. A priori, quando passei a ter percepção dos fatores que desencadeavam o transtorno depressivo, ainda assim, nada mudou a não ser a noção íntegra de que eu realmente não estava em uma condição tão agradável.
Recentemente, após reencontrar alguns amigos da pré-adolescência me fez lembrar de hábitos antigos que eu tinha e que, hoje, talvez reflita no meu transtorno dismórfico; me lembro que me sentia desmotivado à ouvir uma música ou jogar um determinado jogo só porque o CD estava arranhado – esse hábito me acompanhou durante muito tempo.
Lembro-me, também, que não dei continuidade a prática de “desenhar”, na qual me acompanha dês dos meus 4 anos de idade, justamente por me sentir incapaz de chegar ao nível de perfeição que eu gostaria; essa mesma força perfeccionista se materializou na minha intimidade religiosa, passei a ter aquisição a diversos livros sobre ciência oculta e auto-conhecimento, na qual motivou meu ingresso em uma Fraternidade Iniciativa – isto sem mencionar os diversos sistemas religiosos que tive passagem.
Entretanto, essa força perfeccionista continuou a me influenciar em diversas áreas, principalmente a profissional; passei muito tempo estudando livros com mais de 600 páginas para conquistar Habilitações/Certificações Internacionais. Visei gradativamente investir em minha carreira, como títulos, formação superior, cursos, e por ficar afastado do serviço por algum tempo – devido a dismorfia – eu acabei me sentindo velho suficiente para perder o ânimo em voltar a trabalhar. Por fim, tive a percepção de que eu interrompia as coisas quando não estavam em conformidade com AQUILO que eu gostaria que fosse – e como meu padrão de exigência comigo mesmo era estratosfericamente rígido eu acabava renunciando as coisas. Contudo, o que mais me surpreendeu foi que todos os episódios acima não surtiram nenhuma atenção minha, já que eu podia facilmente TROCAR as coisas, quando essa força perfeccionista atingiu meu lado estético foi a gota d’agua, uma vez que eu NÃO POSSO trocar os defeitos que tenho tampouco meu rosto e essa força da perfeição não aceitava o conformismo, portanto isso foi suficiente para desencadear um ataque dominó, tão simples quanto essa lógica: Vida + Auto-Estima Baixa = Vida Interrompida.
Compreendi que a minha dismorfia, pelo menos, era enraizada em algo mais profundo que a suposta não-aceitação da estética pessoal. Todo esse tempo sempre foi algo mais além. Infelizmente, compreender isso não mudou minha dismorfia em absolutamente nada o que tem reduzido meu índice de crises foram os medicamentos, está sendo difícil adestrar minha mente a qualquer coisa que não tenha esse raciocínio lógico: “Entre 8 e 80, 79, ainda, é o abismo.”

Eu acho essa frase o máximo. Porque descreve bem o dismórfico. o “8” é péssimo, o “79” é quase a perfeição. A gente ta morrendo no “79”. A gente não tá satisfeito ou quase satisfeito com o “79”, a gente ta muito insatisfeito pq não é “80”. “79” é o fim, não serve pra nada. Não existe “estou no caminho”, “estou indo para o 80”, “estou quase no 80”. Existe “Porraaaaaaa, não sou 80, é o fim”.

E tomar medicação (vou fazer um post sobre isso) ajuda a aliviar esse tormento. Você não é “8”, mas também não é “80”, você é um “60”, por exemplo. Sem o remédio ia ser assim “Meu Deus!!!!! Que horror!! Não sou 80!!!”. E com remédio é “Meu Deus! Não sou 80!! Noooooossaaaaaaa!! posso viver assimmmmmm!!!!!”.

Batalha contra o espelho

Por Roberta de Medeiros

As cirurgias plásticas viraram uma obsessão do cantor americano Michael Jackson. As intervenções começaram em 84 e não pararam mais. Em uma entrevista concedida em 1993 à apresentadora americana Oprah Winfrey, o astro pop descreveu sua personalidade como perfeccionista e “nunca satisfeito com nada”, incluindo sua aparência.  Jackson não está sozinho. Afinal, quem nunca se sentiu insatisfeito diante do espelho ao menos por um dia? Mas há quem confira dimensões extremas à conhecida fábula do patinho feio e transforme o próprio corpo num verdadeiro campo de batalha. São pessoas que sofrem de uma desordem psicológica chamada transtorno dismórfico, que faz com que elas alimentem idéias irreais sobre a própria imagem corporal.

É o caso da engenheira química C., de 39 anos, que teve sérios problemas devido à excessiva preocupação com sua aparência física. Dizia que seu rosto se tornava flácido e que suas bochechas estavam prestes a desabar. Começou a se sentir insegura a ponto de não sair na rua sozinha. Deixou de dirigir, ficando a maior parte do tempo em casa. Passou a ter espasmos no rosto e deixou até mesmo de falar.

Exames clínicos, porém, não mostraram qualquer alteração na pele ou no tônus muscular do rosto de C., mulher jovem e de boa aparência. Ainda assim ela persistia em suas queixas quanto à face.

O distúrbio foi relatado pela primeira vez pelo psiquiatra italiano Enrico Morselli, em 1886. À época, foi descrito como um sentimento de feiúra ou defeito no qual a pessoa sente que é observada por outras, embora sua aparência esteja dentro dos limites da normalidade. Por isso, o distúrbio recebeu o nome de “hipocondria da beleza”. Somente nos Estados Unidos o distúrbio atingiria cerca de 5 milhões de pessoas ou 2% da população. “Trata-se de uma certeza, muitas vezes delirante, de que uma parte do corpo não está OK. Enquanto a pessoa que alucina, inventa  o mundo, o delirante vê o mundo com outros olhos”, compara o neurologista Edson Amâncio, autor do livro “O Homem que Fazia Chover”, da editora Barcarola. “Em geral, as queixas envolvem falhas imaginárias ou leves no rosto ou na cabeça, como acne, cicatrizes, rugas ou inchaço”, diz.

Dificuldades sociais e conjugais ocorrem com as pessoas que têm o transtorno, dependendo do grau de gravidade, a ponto de terem sua vida completamente desestruturada. “O prejuízo pode ser resultado do tempo que se gasta com a atenção ao corpo, em detrimento de outros aspectos da vida, quase sempre negligenciados”,  diz Amâncio.

“Quem sofre da doença se olha com freqüência no espelho ou em outras superfícies refletoras para checar a aparência, o que pode consumir muitas horas por dia numa atitude compulsiva bastante difícil de resistir”, diz o neurologista. Outros, ao contrário, esquivam-se de espelhos em uma tentativa não bem sucedida de diminuir o mal estar e a preocupação.

Camuflagem

As queixas de quem tem preocupação exagerada com o corpo, entretanto, são vagas. Muitas pessoas evitam descrever seus defeitos em detalhes, podendo se referir à sua “feiúra” em geral. Essas pessoas tentam camuflar seus defeitos imaginários com óculos escuros, bonés, luvas ou roupas. O psiquiatra e psicoteraupeuta Geraldo Possendoro, professor da Unifesp, lembra que a crença de que algo está errado com o corpo pode extrapolar todos os limites. “A pessoa pode se queixar que os poros do nariz estão muito abertos, por exemplo. Muitas vezes não há defeito algum ou defeito é supervalorizado pelo paciente”, diz Possendoro, para quem o problema muitas vezes está associado à baixa auto-estima.

Os indivíduos com esse transtorno freqüentemente pensam que os outros estão observando o seu “defeito”, o que pode levar a uma esquiva das situações sociais que, levada ao extremo, chega até ao isolamento social. “Esses pacientes com freqüência buscam e recebem tratamentos para a correção de seus defeitos imaginários, em uma peregrinação por diversos profissionais, principalmente cirurgiões plásticos, sem, no entanto, corrigir os supostos defeitos”, diz Possendoro.

Alguns especialistas chegam a questionar se a anorexia poderia ser um caso de dismorfia, já que os indivíduos supervalorizam o seu tamanho do seu corpo e se angustiam com seu defeito imaginado. Já Possendoro defende que o diagnóstico diferencial entre anorexia do transtorno dismórfico. “Na anorexia o paciente tem um daltonismo para o próprio corpo, ela se olha no espelho e se acha muito gorda. O aspecto mais importante do tratamento é fazer com que ela adquira a crença de que ela é daltônica de que ela não pode confiar na imagem que ela faz do próprio corpo”, explica. Ele lembra que o transtorno também não pode ser confundido com transexualismo, no qual a pessoa tem corpo de homem, mas sente-se uma mulher.

O tratamento inclui antidepressivos e psicoterapia. A literatura, no entanto, aponta a possibilidade do transtorno seja, na verdade, um delírio somático, isto uma crença irreal (e incorrigível pela argumentação) sobre o próprio corpo. “Nesse caso, o tratamento incluiria a administração de antipsicóticos associados a antidepressivos”, diz Possendoro.

“Quanto à história familiar, não existem dados que estabeleçam um padrão familiar claro do transtorno dismórfico corporal com outros transtornos psiquiátricos”, diz Amâncio.

Narcisismo

Para a psiquiatra Magda Vaissman, professora da UFRJ, transtornos de personalidade como narcisista, obsessivo-compulsivo e borderline podem predispor à dismorfia. “É muito frequente que o transtorno esteja associado ao narcisismo. São pessoas que estão mais preocupadas consigo do que com o outro, como o mito de Narciso, que se apaixonou pela própria imagem. Do ponto de vista psicanalítico, é um problema na elaboração do narcisismo primário. No complexo de Édipo, a criança sai do narcisismo parar ir ao encontro do outro. Mas isso pode não ser bem elaborado, dando origem à personalidade narcisista”, explica.

Em outros casos, a dismorfia está relacionada ao transtorno obsessivo compulsivo, no qual a pessoa se entrega a uma série de rituais de verificação do corpo marcas e cicatrizes para afastar um pensamento incômodo ou intrusivo. A diferença do paciente com TOC e relação àquele que sofre de dismorfia é que no primeiro caso ele está de convencido de que o pensamento intrusivo que leva à compulsão não é verdadeiro, embora não consiga se libertar, enquanto no segundo caso, a preocupação com o corpo é quase um delírio.  “O quadro pode se apresentar como uma compulsão, no qual a pessoa segue uma série de rituais ou pode ocorrer ao nível do pensamento, que são as obsessões”, analisa.

Ela lembra que a vigorexia, uma espécie de dependência por exercícios físicos associada ao culto à imagem, pode ser uma variante da dismorfia. “A pessoa nunca está satisfeita com o corpo, acha que pode perder massa muscular, mergulha numa rotina extenuante de exercícios e muitas vezes recorre aos anabolizantes para manter o tônus muscular”, diz Magda.

Cultura do belo

Uma entrevista feita com 162 homens e 184 mulheres feita pela divisão de psicologia do Hospital das Clínicas em São Paulo mostrou que 69% dos entrevistados passaram pelo menos uma hora por dia pensando que não têm uma boa imagem. Mas o que leva cada vez mais pessoas a um descontentamento tão grande com a própria imagem?

O transtorno pode ser reflexo de uma sociedade obsessivamente preocupada pela estética corporal, que vende corpos em outdoors. Essa mensagem é amplificada pelos meios de comunicação. “A nossa sociedade finge que transtorno não é um problema. Há um individualismo exacerbado, as pessoas vivem isoladas, as famílias são desestruturadas…A cultura do belo incentiva a competição, o indivíduo vive mergulhado numa sensação de fracasso, ele sente de que nunca vai chegar lá”,  afirma Magda.

“O problema é que a maioria das pessoas com dismorfia não procura atendimento psiquiátrico, já que a sociedade incentiva a cultura do belo”, analisa Magda. Outro motivo que afasta dismórficos dos consultórios é que muitos preferem se entregar ao bisturi. Pesquisa feita pelo Instituto InterScience, revelou que 90% das mulheres e 65% dos homens afirmam sonhar com mudanças no próprio corpo. Do total, 5% já tinham feito alguma plástica e 90% já faziam planos de realizar a segunda. Entre aqueles que nunca fizeram uma cirurgia plástica, 30% declararam que esperavam ter coragem para realizá-la.

Um estudo feito pelo Observatoire Cidil des Habitudes Alimentaires (Ocha) em um universo de mil mulheres revelou que 86% delas se dizem insatisfeitas com suas medidas. Apenas 14% alegaram estar satisfeitas com o próprio corpo. O Brasil é o segundo no ranking dos países que mais realizam cirurgias plásticas, metade delas puramente estéticas – 40% lipoaspiração, 30% mamas, 20% face. A maioria foi realizada em pessoas de 20 a 34 anos. O número de jovens que colocaram próteses para “turbinar” os seios aumentou 300% nos últimos dez anos.

E não adianta o familiar contrariar o paciente que sofre do transtorno. “Quando mais oposição se faz, mas se cria uma resistência por parte do paciente. O ideal é não incentiva-lo. O que a família pode fazer é mostrar que há outros prazeres na vida, que não o culto ao corpo, e fazê-lo entender que ele sofre de uma doença”, aconselha Magda.

Essas pessoas podem apresentar fortes ideações suicidas. 13% dos pacientes psiquiatricos britânicos apresentam o transtorno. 75% das pessoas com dismorfia não se casam ou se divorciam, 70% tem ideações suicidas e 25% realmente se suicidam. 20,7% das pessoas que fazem cirurgias de rinoplastia tem um possível diagnóstico de dismorfia corporal. Pesquisa feita pela Universidade de Utrech, na Holanda, mostra as mulheres que se submetem operações de implante mamário apresentam risco três vezes maior de cometer suicídio em relação às demais mulheres. 82,6/% das pessoas que sofrem o transtorno se sentem insatisfeitas com os resultados das cirurgias. Existe a crença de que a próxima intervenção será a última. E assim, entram num circuito no qual a insatisfação é cada vez maior. Muitos casos vão parar na Justiça.

O problema nos faz questionar sobre a ética no exercício do cirurgião plástico. “O cirurgião plástico deveria estar preparado para identificar a dismorfia. O ideal seria uma interação entre o cirurgião e o psiquiatra ou o psicoterapeuta. Muitas vezes o profissional faz a correção daquilo que é um grande incômodo para o paciente, e esse desconforto em relação à aparência se desloca para outra região do corpo”, observa Amâncio.

Transtornos obsessivos

Pacientes com transtornos obsessivos têm uma maior atividade em uma determinada região do cérebro, o córtex pré-frontal, o que os leva a ter a procedimentos de controle exagerados, como retornar a própria casa várias vezes para checar se o fogão ou o ferro de passar foram desligados. Ou seja, estão sempre em estado de alerta. Dos transtornos psiquiátricos, o que mais se assemelha em critérios diagnósticos com a fobia social é o transtorno dismórfico corporal. Em ambos, os pacientes apresentam ansiedade social elevada, esquiva de situações sociais e medo de crítica e comentários adversos sobre sua aparência. Isolamento social e falta de habilidade social geralmente estão presentes nos dois casos.

Heródutus

Transtorno dismórfico corporal é um novo nome para um velho transtorno. Ele tem sido descrito nas literaturas européia e japonesa por uma variedade de nomes. A primeira referência aparece na história de Herodutus, no mito da garota feia de Esparta, que era levada por sua enfermeira, todos os dias, ao templo para se livrar da sua falta de beleza e atrativos.

Neurose compulsiva

Emil Kraepelin (1856-1926), grande psiquiatra alemão, considerado o criados da moderna Psiquiatria devido às suas enormes contribuições científicas contidas ao longo das oito edições de seu Tratado de Psiquiatria, ocupou-se do tema dismorfia, introduzindo-o na oitava edição do “Tratado sob a Rubrica de Neurose Compulsiva”. Considerou a dismorfia como uma das formas clínicas da série de medos obsessivos que surgem do contato com outras pessoas. É desta forma que a dismorfia assemelha-se à timidez, ao medo de provas e à antropofobia, entre outros.

Homem dos Lobos

Entre os cacos clínicos publicados por Freud, o do paciente Serguéi Constantinovitch Pankejeff ficou conhecido como o “Homem dos Lobos”. Ele iniciou sua análise com Freud em 1910 e apresentava, entre outros sintomas, uma preocupação excessiva com a aparência de seu nariz. Antes de iniciar a análise com Freud, já havia feito vários tratamentos e se consultando também com os médicos Theodor Ziehen, de Berlim, e Emil Krapelein, de Munique. Esse histórico, com certeza, aumentou o interesse de Freud pelo caso, pois considerava esses dois importantes médicos como “rivais” de profissão.

Delírio somático

São formas de delírio em relação ao corpo.  Os mais comuns dizem respeito à convicção de que a pessoa tem deformações de certas partes do corpo.

Fonte: Psiqweb /G J Ballone

Critérios Diagnósticos Transtorno Dismórfico Corporal:

A. Preocupação com um ou mais defeitos ou falhas percebidas na aparência física que não são observáveis ou que parecem leves para os outros.
B. Em algum momento durante o curso do transtorno, o indivíduo executou comportamentos repetitivos (p. ex., verificar-se no espelho, arrumar-se excessivamente, beliscar a pele, buscar tranquilização)
ou atos mentais (p. ex., comparando sua aparência com a de outros) em resposta às
preocupações com a aparência.
C. A preocupação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
D. A preocupação com a aparência não é mais bem explicada por preocupações com a gordura ou o peso corporal em um indivíduo cujos sintomas satisfazem os critérios diagnósticos para um transtorno alimentar.

Fonte: Psiquê