Sou mãe/pai

Sou mãe/pai, meu filho sofre de transtorno dismórfico corporal e não sei como agir.

Eu pedi para a Dra. Cristina Britto escrever junto comigo um texto para esses pais a fim de auxiliá-los. Coloquei em azul as partes da Dra. Cristina e verde as minhas.

A criança ou adolescente pode desenvolver insegurança, problemas de autoimagem e autoestima e outros mais graves se sofrer abuso psicológico e/ou físico, se os pais forem ausentes ou indiferentes às necessidades deles e não fornecerem os cuidados básicos para um crescimento saudável.

A pressão exercida pelos pais, em relação à aparência física deles mesmos e dos filhos, contribui para o desenvolvimento deste distúrbio. Pais exageradamente críticos, sempre envolvidos com dietas e exercícios físicos, tratamentos dermatológicos e cirurgias plásticas, passam a mensagem de que o importante é o exterior, que beleza é garantia de sucesso. Isto não significa que filhos de pais que encaram a questão estética de forma totalmente diferente não desenvolvam o TDC.

Pais cujos filhos evitam o contato social, trancam-se no quarto e manifestam baixa autoestima, dizendo-se feios e desinteressantes, devem averiguar se o jovem não é vítima de bullying. Se não for o caso, é indicado procurar orientação a respeito de outros distúrbios, como depressão, ansiedade, fobia social. O diagnóstico correto é fundamental para o tratamento, que, quanto mais precoce, melhor o prognóstico.

Eu sei que é difícil entender como seu filho pode odiar ser como é. Ele é normal, bonito e fica reclamando de coisas na aparência que não existem. Respeite a dor dele, o sofrimento dele é real e não é uma frescura como os outros acham.

Só dê tratamentos estéticos e cirurgias plásticas para seu filho caso você veja uma necessidade nessa mudança. Se você percebe que não é necessário não dê. Seu filho não precisa de plástica, precisa de tratamento psicológico.

Não bata de frente com seu filho a respeito das insatisfações dele. Isso faz com que ele fique mais frustrado e deprimido por ninguém levar a sério o que ele vê. Diga que não o vê da forma como ele fala, mas que compreende que isso gera uma angústia pra ele e que você está ali para ajudá-lo a superar isso. Será um alivio para ele saber que seu pai/mãe não acha isso uma bobagem

Cada um tem uma velocidade para superar o transtorno dismórfico corporal. Não fique ansioso esperando uma melhora rápida de seu filho. Essa melhora vem, não se sabe ao certo quanto irá demorar, mas devagar a mudança vai começar a aparecer.

 Como a família pode ajudar no tratamento

Quando uma pessoa da família tem uma doença grave, mãe, pai, irmãos, filhos, marido e esposa acaba também desgastados pelo problema. Isso acontece quando o ente querido sofre de uma doença física – um infarto, um derrame ou um câncer, por exemplo -, mas também quando a mente e a alma dele adoecem. Depressão profunda, bipolaridade, personalidade, borderline, anorexia, autismo, alcoolismo, dependência química, esquizofrenia e mal de Alzheimer são todos problemas psiquiátricos sérios, que provocam rupturas na vida da pessoa que adoeceu e obrigam os familiares a aprender um novo jeito de compreendê-la e de se relacionar com ela. Por tudo isso, são problemas que assustam. O adoecimento mental, especialmente em casos severos, coloca uma carga emocional tão pesada sobre os familiares que, sem que eles percebam, acabam tendo reações que dificultam a evolução da doença. Para evitar que isso aconteça, eles precisam ser orientados tanto quanto os próprios pacientes.

Já é dado científico comprovado que a inclusão da família no tratamento, por meio de qualquer estratégia – orientações dadas pelo próprio médico, cursos educativos que oferecem informações detalhadas sobre a doença, grupos de apoio compostos por familiares que compartilham do mesmo problema, terapia de casal ou de família – , melhora o ambiente doméstico e, com isso, aumenta a adesão da pessoa doente aos remédios, à psicoterapia e a outros recursos de tratamento, reduz as recaídas, diminui a necessidade de internação e aumenta as chances de controlar o transtorno. Do contrário, quando a família não é bem orientada e amparada, a eficácia dos outros recursos de tratamento – medicamentos, inclusive – é posta em risco”, afirma a psicóloga Jonia Lacerda, do Ambulatório de Família do Instituto de Psiquiatria da USP.

Para dar alguma contribuição nesse sentido, serão apresentadas, a seguir, oito dicas práticas de comportamentos, hábitos e posturas que os familiares podem adotar para ajudar no tratamento dos problemas emocionais de seus entes queridos. As orientações foram elaboradas com a ajuda da especialista Jonia Lacerda.

1. Procure afastar as culpas

Quando se deparam com a notícia de que têm em casa um parente com um problema psiquiátrico grave, via de regra, as familiares reagem com um misto de incredulidade e revolta. “Por que com a gente?”, perguntam-se. Com frequência, os familiares culpam a si mesmos e aos outros pelo adoecimento. “Onde foi que eu errei?”; “qual minha parcela de culpa no aparecimento desse problema?”; “qual o grau de participação do restante da família?”, questionam. Pais e mães se põem a refletir se foram muito rígidos com seus filhos ou permissivos além da medida, se o excesso de trabalho os fez ausentes, se os tapas que deram nas crianças deixaram sequelas emocionais… Irmãos acalentam uma dúvida íntima: “será que as brigas que tive com ele, quando criança, tiveram alguma influência?”. Maridos e esposas se indagam se os problemas conjugais deixaram o outro doente. Questões como essas quase sempre vêm à cabeça de quem tem um familiar com um transtorno mental grave. E acabam alimentando comportamentos que atrapalham a evolução do quadro psiquiátrico e a vida de toda a família.

É comum que um dos parentes – geralmente, a mãe ou o pai – abandone completamente a própria vida para reparar a culpa que sente em relação ao adoecimento do ente querido. Isso dificulta a recuperação da autonomia da pessoa adoeceu e traz infelicidade para ambos. Movidos por um senso de responsabilidade que se apresenta de forma explícita ou inconsciente, muitos familiares acabam também cobrando excessivamente a pessoa que desequilibrou mentalmente e pressionam para que ela retome antigos hábitos e atividades. É uma maneira de dizerem para si mesmos que estão fazendo tudo o que podem para ajudar o ente querido a se reerguer. Ou, o contrário: o parente não lhe exige coisas mínimas, nem lhe impõe nenhuma contrariedade, por pensar que não pode cobrar esforços daquela pessoa que já sofre tanto – talvez até por sua culpa, fantasiam. Todos esses comportamentos são prejudiciais ao paciente e à vida familiar.
Por isso, um dos primeiros temas abordados por psicólogos, médicos e demais profissionais envolvidos na orientação das famílias de pacientes psiquiátricos é justamente a origem do problema mental. Eles tratam logo de esclarecer que problemas complexos como os desequilíbrios psíquicos e emocionais não são desencadeados por uma única causa, nem são culpa de uma só pessoa. Por mais que, em alguns casos, haja influência das relações familiares e do ambiente doméstico no desencadeamento desses transtornos, há uma conjunção complexa desses elementos com fatores genéticos, questões de personalidade, experiências de vida e diversos outros componentes ambientais. “Querer explicar o porquê das coisas é um desejo emocional do ser humano. Nós não lidamos bem com o inexplicado. Mas dizer que foi precisamente isso ou aquilo, fulano ou sicrano que levou a um problema mental é uma fantasia onipotente. Ninguém é capaz de dizer exatamente como as coisas se conformaram para chegar àquele quadro – nem os médicos, nem os psicólogos, e menos ainda os familiares, que estão totalmente imersos emocionalmente no problema”, diz Jonia Lacerda. Mesmo em situações extremas, em que o pai agredia o filho sistematicamente antes do adoecimento, por exemplo, não se pode dizer que o problema se originou exclusivamente desse fator. “Ninguém em sã consciência deixará de reconhecer que há a agressão física uma influência, mas o total da situação é resultado de vários elementos. Tanto que há pessoas que passam por maus-tratos e não desenvolvem um transtorno psiquiátrico. Além disso, muitos desajustes no comportamento da família já são resultados da presença do transtorno em casa – um filho que vai ficando muito difícil de lidar desperta reações que talvez os pais não tivessem com outro filho que funcionasse de outro jeito”, explica a psicóloga.

Suspender a culpa é importante para que os familiares baixem as armas, saiam da posição de acusarem a si mesmos e aos outros e consigam reunir forças para ajudar o parente que está precisando. É importante também para que a família compreenda que o profissional de saúde mental não trabalha com o dedo apontado na direção de nenhum deles – a preocupação fundamental do especialista é auxiliar os familiares e analisar o problema de forma realista, compreender o adoecimento, ajustar expectativas, estabelecer relações menos desgastantes e mais afetivas, reconhecer os próprios limites e comemorar as melhoras, para que a vida de todos siga da melhor maneira possível. “As famílias têm sempre as suas teorias sobre o adoecimento. Elas não acabam. Se eu falar com a família cinco anos depois do primeiro contato, vai haver uma nova teoria. Isso é inevitável. O que não pode acontecer é que essas teorias impeçam mudanças”.

2. Ajuste as expectativas de forma realista

Lidar com as dificuldades impostas por problemas de saúde psíquicos costuma ser mais complicado para as famílias do que compreender limitações de vida trazidas por deficiências físicas.

Por não existirem incapacidades físicas para o trabalho, estudos, vida social e afetiva, os pais têm grande dificuldade em compreender por que sus filhos nao conseguem se arrumar na vida. Na maioria das vezes é mais fácil culpar o próprio paciente pelos seus fracassos do que aceitar que a doença lhe tirou a capacidade de crescimento e independência.
Em quadros graves, é preciso um grande esforço da família e do próprio paciente para o problema de saúde que se apresentou. Do contrário, a decepsção surge de forma muito concreta para todos. Não da para por a doença na gaveta e agir como se nada tivesse acontecido e querer que tudo volte ao normal imediatamente. Isso não é realista. Se a coisa for encarada assim, é maior a chance de vir uma nova crise pela frente. Então, dê-se o direito de reconhecer que você adoeceu e que está se recuperando aos poucos. Haverá ganhos – não da maneira e no ritmo que você previa, mas eles virão. E virão também outras conquistas importantíssimas, que você nem tinha previsto – essas conquistas significam sobrevivência, reação, saúde e paz de espírito recuperadas.

Quando os familiares não recebem informações suficientes sobre a doença, nem apoio emocional especializado, os familiares tendem a ficar eternamente nostálgicos do tempo em que seu filho, irmão ou cônjuge não tinha um problema. Como esses transtornos são problemas crônicos, a sensação que os parentes têm é de que a pessoa “não melhora nunca”. Essa frase, dita geralmente em tom de cansaço e frustração, revela que a vida do familiar adoecido está sendo analisada em contraste com um ideal perdido. E, em relação a esse ideal, a realidade atual só pode mesmo ser vista de forma muito crítica, desencantada, sem que a família consiga reconhecer a luta implicada nos pequenos e grandes movimentos que a pessoa consegue fazer.

3. Reconheça e comemore as melhoras

O desgaste imposto pelos transtornos vai, aos poucos, detonando a capacidade dos familiares de ver algo em seu parente que não sejam os problemas causados pela doença. Eles precisam de ajuda para conseguir enxergar e comemorar as melhoras. Eles precisam de ajuda para conseguir enxergar e comemorar com as melhoras. A psicóloga Jonia Lacerda cita como exemplo o caso de um garoto de 15 anos, que, três meses após uma tentativa de suicídio, fruto de uma depressão severa, estava já recebendo muitas cobranças da mãe. “Uma pessoa fora era capaz de ver claramente a desproporção entre os fatos: como é que ela está brigando com um filho que acabou de tentar suicídio porque ele deixou os sapatos na sala? Como é que ela quer que, três meses depois de tentar se matar, ele corra atrás de um supletivo para voltar a estudar? Mas a mãe, envolvida até o limite na situação, não conseguir ver isso. Só conseguia ver na frente dela o fato de que o filho estava fora da escola e que isso era ruim para ele. Naquele momento, ela não estava ainda em condições de pôr as coisas em perspectiva, para lembrar, por exemplo, que, quando nós começamos a trabalhar juntos, o garoto não saía do quarto e chorava o tempo todo. Aos poucos, foi voltando a sair com os amigos, se interessou por uma menina, parou de querer bater na irmã, começou a frequentar uma aula de música… Essas coisas são ganhos. Faz parte do meu trabalho ajudar a mãe desse menino e a reconhecer isso”.

A psicóloga recomenda que as melhoras sejam avaliadas em comparação ao momento anterior que a pessoa estava vivendo, não em relação a um passado distante ou a um ideal de futuro. Para alguém que há pouco precisava de ajuda para comer e tinha de ir ao psicólogo discutir motivos para não desistir da própria vida, tomar a iniciativa de arrumar o próprio quarto, cuidar da própria aparência, sair para fazer compras e tomar a medicação corretamente são avanços importantes. Uma recuperação mais ambiciosa pode e deve seguir acontecendo e é possível que a pessoa recupere sua vida produtiva e volte a ter uma existência rica. Mas as pequenas melhoras precisam ser reconhecidas para que a pessoa se motive a seguir em frente.

4. Modere o tom e a quantidade de críticas

Quando a família não consegue reconhecer os avanços alcançados pela pessoa em tratamento e fica só remoendo as perdas e dificuldades que a doença psiquiátrica trouxe para suas vidas, abre-se uma brecha para constantes críticas, comentários amargos e depreciativos e ofensas diretas. Com o tempo, sem que se perceba, esse tipo de relação se cristaliza entre os membros da família, mesmo os momentos em que não há nenhum fato novo produzindo tensão. Até as conversas mais cotidianas, como pedir para baixar o volume da TV ou retirar o prato da mesa de jantar, se dão em tom acusatório, servindo para apontar defeitos nas atitudes e no jeito de ser do outro. Por apresentar sempre um tom irônico, desdenhoso ou explicitamente exaltado, esse tipo de postura acaba provocando sentimentos de raiva, inferioridade, remorso e culpa em ambos os lados envolvidos. Muitas vezes, os familiares perdem completamente o hábito de elogiar uns aos outros, fazer comentários carinhosos ou demonstrar afeto com um abraço ou um sorriso. Se o objetivo não é criticar o outro, pouco se fala em casa. O clima pesa uma tonelada.

Quando essa atmosfera de hostilidade excessiva se instala, os especialistas dizem que ha entre os parentes um alto nível de emoção expressa. Os profissionais de saúde mental se preocupam bastante com isso, porque altos níveis de emoção expressa em casa funciona como fatores estressantes para os pacientes, comprometendo a eficácia do tratamento medicamentoso e psicológico, favorecendo recaídas.

Contar até dez antes de explodir de raiva; observar o melhor momento de falar; escolher palavras amenas; usar um tom de voz que, apesar de firme, não seja agressivo; aproximar-se de maneira afetuosa, mesmo quando for para falar sobre um problema; fazer uma critica de cada vez; criticar atitudes pontuais da pessoa, e não ela, ou seja, dizer que está chateado com determinado comportamento, mas reassegurar o sentimento de amor e carinho pelo familiar; elogiar, sempre que couber. Essas são dicas difíceis de pôr em prática, mas fundamentais de se perseguir. Costumam ser mais facilmente conquistadas quando os cuidados em relação à pessoa com transtorno de comportamento são divididos entre os membros da família. É esse o assunto do próximo tópico.

5. Distribua os cuidados entre os familiares

Pessoas com problemas psiquiátricos graves requerem da família um alto grau de dedicação. Sujeitos em profundo estado depressivo precisam de ajuda. Frequentemente, observa-se um padrão de comportamento polarizado entre os membros de uma família: um dos parentes deixa de lado a própria vida para se dedicar exclusivamente aos cuidados do filho, marido, pai ou irmão que adoeceu. O superenvolvimento de um dos familiares, apesar de ter a melhor das intenções, acaba comprometendo a possibilidade de que a pessoa em sofrimento desenvolva um nível maior de autonomia e vá retomando sua vida prática e sua relações, objetivo maior de qualquer tratamento psiquiátrico. Frequentemente, a pessoa que é o alvo da dedicação sem limites, acaba se afastando da pessoa que mais se dedica a ela por se sentir que representa um peso na vida do familiar. Quem “cuida demais” acaba ficando exausto pelo excesso de dedicação e pode chegar a um nível de exaustão e se deprimam.

O extremo oposto também não é saudável. Familiares que se afastam totalmente do parente com problemas, ou seja, que, além de não ajudar nos cuidados do dia a dia, não querem nem saber das necessidades dele ou de ouvir as dificuldades de quem lhe dedica mais atenção, indicam que há por trás desse distanciamento questões muito íntimas e delicadas de ressentimento, incompreensão, ciúmes, culpa e medo de sofrer. É comum que sujeitos que se afastam da pessoa com um problema psicológico passem anos questionando se o familiar é mesmo doente e criem teorias de que a pessoa ficou dependente dos pais e com problemas de comportamento porque foi muito mimada na infância. Muitos têm dúvidas se tiveram alguma participação no adoecimento do familiar,, sentem ciúmes porque os pais tiveram de se dedicar muito ao irmão doente, em detrimento dos outros, e muita dor por terem testemunhado a vida do parente “normal” tomar um rumo tão difícil. E, intimamente, tendem a alimentar uma culpa por não estarem próximos, prestando algum auxílio.

Para os psicólogos, não querer saber de se envolver é a outra face da moeda de se envolver demais. “Se o familiar não consegue se aproximar, é porque, na verdade, a presença da pessoa dentro dele é muito grande e ele tem medo de se machucar. É um mecanismo de defesa compreensível, mas, em muitos casos, traz problemas”, pondera Jonia Lacerda.
Por isso, o que a terapeuta indica, é promover uma redistribuição dos cuidados. A idéia é que todo mundo possa preservar uma parte das suas vidas para poder trabalhar ou passear.

6. Equilibre as punições com recompensas

Quando um familiar apresenta uma alteração de comportamento que traz problemas para si e causa dificuldade também para os que estão em volta, é comum que a família estabeleça um sistema de restrições, como forma de pressioná-lo a assumir atitudes e hábitos mais adequados. Para uma jovem bipolar em fase de euforia que parou de trabalhar, passa noites na balada e os dias contraindo dívidas no shopping, os pais tentam amenizar a situação cortando-lhe os recursos financeiros, por exemplo. Algumas atitudes desse tipo podem se fazer necessárias, mas é bom que se evite estabelecer um sistema de punições muito ostensivo contra o familiar, que acaba não sendo eficaz para o objetivo almejado e não é bom para as relações familiares também.

Voltando ao exemplo do rapaz de 15 anos em recuperação de um processo depressivo, após uma tentativa de suicídio. Para incentivá-lo a voltar a estudar, a ajudar nas tarefas de casa e para readquirir uma rotina mais saudável, a mãe começou a lhe tirar coisas de que ele gostava. Certo dia, suspendeu o uso do celular por uma semana; no outro, tirou-lhe a mesada. em seguida, o modem do computador; mais adiante o próprio computador. Segundo a psicóloga Jonia Lacerda, punições feitas dessa maneira são excessivas e não surtem efeito. “Quando a punição é muito severa ou longa demais, a pessoa se acostuma com a situação e deixa de se sentir punida. Numa analogia: se alguém me tira a luz de casa, no primeiro dia eu reclamo muito, porque a mudança altera minha rotina; no segundo, também; no terceiro , ainda um pouco; mas, depois de uma semana sem energia elétrica em casa, eu vou me adaptar – arranjo umas velas, invento coisas para fazer que não exijam ligar nada na tomada. Eu passo a planejar a minha vida sem luz. Por isso, as punições precisam ser curtas, para que estejam sempre conectadas à situação que esta sendo corrigida. Do contrário, a pessoa que está sendo punida nem associa mais o castigo ao que ela fez de errado e não aprende nada com aquilo”. No exemplo do adolescente, explica Jonia, ao fim de uma semana sem celular, ele já nem pensa que o celular é dele e deixa de sentir que perdeu algo por não ter feito um esforço para voltar à escola ou para arrumar o próprio quarto.

Segundo a psicóloga, as negociações em casa também precisam ser feitas com base em prêmios, não apenas em punições. De novo, usando como exemplo a situação do adolescente em depressão: a psicóloga sugeriu que a mãe do garoto combinasse com ele um sistema de troca do tipo “se você não faltar a nenhuma aula de música, te deixo ficar no computador, aos sábados e domingos, até a hora que você quiser” (como todo adolescente, o garoto adora ficar no computador até tarde da noite). Jonia explica a lógica da estratégia: “A restrição, para ter efeito de punição, precisa ser alternada com reconhecimento, elogio, parceria. Sem o contraste de uma coisa boa, o castigo não funciona mais”, diz.
Neste sistema de punições e recompensas, é preciso eleger prioridades. Não se pode querer que o familiar com problemas psiquiátricos faça tudo o que a família gostaria que ele fizesse, o tempo todo, mesmo que sejam coisas boas para ele, como procurar um trabalho, voltar a estudar, praticar atividade física, maneirar nos gastos e na bebida, porque a pessoa não está completamente no controle de suas vontades e de seus comportamentos. EÉ melhor se concentrar numa coisa importante de cada vez e levar o resto com tolerância. Colocar constantemente contra a parede uma pessoa em sofrimento mental pode levá-la a situações de risco. “Para agredir o familiar, a pessoa que está doente pode agredir a si mesma – para de tomar os remédios ou comete atos de kamikaze, como abusar de drogas ou até tentar suicídio”, alerta Jonia Lacerda.

7. Evite superproteger ou ser permissivo com o paciente

Se impor regras muito rígidas e fazer criticas em excesso pode ser uma fonte de estresse para uma pessoa com um quadro psiquiátrico grave, a ponto de piorar seu estado psíquico e emocional, deixar de lhe exigir responsabilidades mínimas ou liberá-la de tentar seguir qualquer rotina da família também não contribui para sua melhora. Querer proteger contra tudo e todos é uma reação instintiva de qualquer homem ou mulher que teme pela integridade física e emocional de seu filho, sobretudo quando ele é considerado frágil, vulnerável, imaturo ou ingênuo demais. Exatamente por isso, nos casos psiquiátricos graves, acontece com frequência.

Mães de garotos dependentes de drogas abrem suas carteiras para sustentar o vício dos filhos, temendo que eles se tornem ladrões de rua ou contraiam dívidas com traficantes e acabem presos ou assassinados. Pais de moças bipolares pagam as dívidas vultosas contraídas por elas, em momentos de euforia, sem que as filhas tenham de se preocupar em resolver o problema depois. E ninguém da família impõe limites ao parente que passa madrugadas na internet ou na rua, trocando o dia pela noite, fazendo sabe-se lá o que, para não lhe causar nenhum estresse.

A permissividade, muitas vezes, ocorre pelo medo de que a pessoa tenha uma recaída ou uma reação intempestiva se tiver suas atitudes confrontadas. Outras vezes, ocorre mesmo é por cansaço. São atitudes compreensíveis, pela dificuldade de situações, mas não ajudam o familiar a se recuperar.

8. Respeite seus próprios limites

Relacionar-se com uma pessoa em sofrimento mental pode ser bastante duro. Algumas vezes, nem todos os esforços do mundo são suficientes para animar uma pessoa deprimida, por exemplo. O indivíduo perde a vitalidade de tal maneira que não consegue se empolgar nem quando alguém prepara seu prato preferido. Convites para ir ao cinema ou dar um passeio nunca são atraentes o bastante. Por isso, quem está por perto tem de observar até onde aguenta ir, para não sucumbir, ele próprio, ao cansaço e à tristeza. Diz a psicóloga Jonia Lacertda: “Cada um tem seus limites. Até eu, como psicoterapeuta, tenho os meus. Não costumo tratar muitos casos de depressão severa de uma vez, porque eles trazem conteúdos que não são fáceis de segurar. Geralmente, alterno o atendimento a pacientes graves com casos mais leves e atividades acadêmicas”. Segundo a psicóloga, uma forma de ajudar a pessoa deprimida, sem pôr em risco a própria saúde, é simplesmente estar presente. “A melhor forma de apoio pode ser estar por perto e cuidar para que a pessoa vá ao psicólogo, tome os remédios indicados pelo psiquiatra corretamente, tente fazer exercícios físicos e durma horas suficientes, para que tudo isso lhe ajude a sair da tormenta emocional”, ensina. Sentir-se responsável por fazer o familiar reagir e abrir mão da própria vida para se engajar nessa batalha resulta, na maioria das vezes, em frustração e cansaço.
Saber o momento de se retirar também é necessário em alguns casos. Às esposas de homens alcoólatras, por exemplo, recomenda-se explicitamente não conversar ou estabelecer qualquer relação com seus maridos enquanto eles estiverem alcoolizados. A psicóloga Jonia Lacerda explica por que: “Se a mulher se confrontar com seu marido alcoolizado, ele provavelmente vai maltratá-la, depois vai se sentir mal por isso e terá mais um motivo para beber. Ou seja, não é bom para nenhum dos dois. A mulher tem que tentar não se expor à violência do álcool – e nessas situações, o que acontece é que ela está conversando com o álcool, não com o marido”. A orientação para esses momentos é a seguinte: vá para um lugar onde esteja protegida e diga ao seu marido: “Quando você melhorar, conversamos”.

Texto retirado do livro: Não é coisa da sua cabeça – Naiara Magalhães e José Alberto de Camargo

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