O Transtorno Dismórfico Corporal em Homens Adultos

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Resumo: Esse estudo visa investigar algumas questões oriundas do TDC em homens adultos, com base em estudos empíricos. A partir desse conhecimento, elaborar uma construção sistemática desse transtorno, conhecer os critérios para o diagnóstico do TDC, bem como a dismorfia muscular que é um subtipo dessa patologia e entender os aspectos etiológicos e suas perspectivas de tratamento. Nesse sentido, é valido considerar que a psicologia apresenta propostas de intervenção com intuito de amenizar as conseqüências e riscos para o sujeito portador de TDC, propor discussões sobre a imagem corporal distorcida e resgatar a auto-estima do paciente.

Considerações Iniciais

É comum que muitas pessoas desejem fazer mudanças em seu corpo. No entanto, existem algumas de aparência normal que se vêem impossibilitadas de formar vínculos e interagir com outras pessoas, pois se sentem indignas por sua aparência “não agradável”. O transtorno dismórfico corporal tem sido denominado “feiúra imaginária”. Esse pensamento distorcido é decorrente de algum tipo de “defeito físico” que é ampliado e transformado em um sentimento exacerbado de “feiúra”.

Embora seja essa a definição oficial desse transtorno, alguns autores promovem uma discussão de caracterizá-lo como um modo de manifestação de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), visto que ambos apresentam características semelhantes. O TDC é um transtorno somatoforme porque sua característica principal é a uma excessiva preocupação psicológica com características somáticas.

A pessoa portadora desse transtorno costuma ter idéias de referência, isto é, acredita que tudo o que acontece na esfera social em que vive está relacionada com ela, nesse caso, como o “defeito imaginado”.

A manifestação desse transtorno em homens adultos tem tido uma representação considerável na sociedade atual. Apresenta-se em subtipos, como é o caso da dismorfia muscular, que se configura como uma distorção da imagem corporal que tende a prejudicar o aspecto físico, social, afetivo e psicológico do indivíduo.

Critérios do DSM-IV para o Diagnóstico de Transtorno Dismórfico Corporal
Conforme o DSM-IV (Manual de Diagnóstico dos Distúrbios Mentais) para que o indivíduo seja considerado portador de TDC é necessário que ele atenda as seguintes características:

A pessoa portadora do transtorno dismórfico corporal acredita que está sendo observados e que o seu “defeito” é algo extremo. Ao passo que esses sujeitos podem se esquivar das situações sociais. Em casos extremos, pode ocorrer o isolamento social. Esses pacientes procuram serviços médicos em várias especialidades, a fim de corrigir os supostos defeitos.

Dismorfia Muscular em Homens Adultos

Ao longo da história, as preocupações mórbidas com a imagem corporal eram problemas somente do interesse feminino. No entanto, diante das transformações contemporâneas esses problemas podem acometer de forma acentuada os indivíduos do sexo masculino e comprometer varias áreas da sua vida.

De acordo com Assunção (2012) A dismorfia muscular é um subtipo do transtorno dismórfico corporal que ocorre principalmente em homens que, apesar da grande hipertrofia muscular, consideram-se pequenos e fracos. Além de estar associada a prejuízos sociais, ocupacionais, recreativos e em outras áreas do funcionamento do indivíduo.

Não obstante, a constituição social favorece a construção do corpo belo, em que as pessoas cultuam a boa forma e uma aparência impecável. Nos dias atuais, os homens se voltaram aos padrões sociais, no que diz respeito a cuidados com a parte física.

Cone & Pope (apud Assunção 2012) realizaram uma revisão sobre aspectos relacionados à imagem corporal em indivíduos do sexo masculino. Em termos gerais, a revisão aponta que alterações de imagem corporal no sexo masculino, ao contrário do que se pensava, são quadros relativamente comuns e diferem do padrão de distorção tipicamente feminino. As mulheres apresentam níveis bem maiores de insatisfação que os homens e descreve sempre corpos mais magros como objetivo. No caso dos homens, há aqueles que seguem o padrão feminino, mas a maioria considera um corpo mais musculoso como representação da imagem corporal masculina ideal.

A preocupação de um indivíduo de que seu corpo seja pequeno e franzino, quando na verdade é grande e musculoso, é a característica principal da dismorfia muscular. Este sintoma está relacionado a padrões de alimentação específicos, geralmente compostos de dieta hiperprotéica além de inúmeros suplementos alimentares a base de aminoácidos ou substâncias para aumentar o rendimento físico. A atividade física pode ser realizada de forma excessiva, inclusive causando prejuízos nos funcionamentos social, ocupacional e recreativo do indivíduo, chegando a ocupar de 4 a 5 horas por dia. As atividades aeróbias são evitadas para que não ocorra perda da massa muscular adquirida durante as pesadas sessões de musculação. Os possíveis ganhos musculares são checados exaustivamente chegando a 13 vezes ao dia. (ASSUNÇÃO, 2012).

O processo de sistematização do transtorno no homem deve ser entendido de forma científica e cultural. Esse fenômeno começa a partir da idéia de que o homem deve ter uma estrutura física avantajada e se assim não for o sujeito se sente fora dos padrões impostos socialmente. Para lidar de forma coerente com essa situação, é necessário ter um suporte social efetivo e uma boa estrutura de personalidade.

Etiologia e Tratamento do Transtorno Dismórfico Corporal

Sabemos muito pouco sobre a etiologia e o tratamento do transtorno dismórfico corporal. Não temos quase nenhuma informação sobre se ele acontece nas famílias e, por isso, não podemos investigar uma contribuição genética especifica. De forma semelhante, não temos nenhuma informação significativa sobre os fatores ou as vulnerabilidades de predisposição biológica ou psicológica. (BARLOW, 2011).

No transtorno dismórfico corporal o foco reside na aparência física, via de regra não tende a acontecer de forma simultânea aos transtornos somatoformes. Em muitos casos podem ocorrer semelhanças entre o TDC e o TOC. Os indivíduos com TDC tendem a apresentar comportamentos compulsivos, pensamentos intrusivos e persistentes sobre sua aparência física ou algum “defeito” visível.

Alguns autores vêem o TDC como tendo origem em conflitos inconscientes. Virtualmente, qualquer parte do corpo pode ser objeto do TDC, mas há predomínio para alvos como pele (pequenas escaras, acne), orelha, nariz, cabeça e face. Com freqüência estão associadas idéias ou delírios de referência, bem como comportamentos ritualísticos e repetitivos, como olhar várias vezes ao espelho para checar o defeito imaginário, picar repetidas vezes a pele e questionar persistentemente os outros em busca de confirmação do defeito. (AMÂNCIO, 2002).

O arcabouço psicanalítico tem numerosas especulações acerca desse transtorno e centra-se na idéia do mecanismo de defesa do deslocamento, isto é, um conflito inconsciente pode provocar angústia ou ansiedade no sujeito, e então, o indivíduo desloca essa inquietação para uma parte do corpo.

A terapia cognitivo-comportamental parece ser útil no tratamento da dismorfia muscular. Suas estratégias incluem a identificação de padrões distorcidos de percepção da imagem corporal, identificação de aspectos positivos da aparência física e confrontação entre padrões corporais atingíveis e inatingíveis. Os comportamentos compulsivos relacionados ao exercício, dieta ou de checar o grau da musculatura devem ser inibidos. Da mesma forma, o indivíduo deve ser encorajado a gradualmente enfrentar sua aversão de expor o corpo. (ASSUNÇAO, 2012).

Algumas estratégias comportamentais podem ser de grade valia na recuperação de pacientes em tal condição, bem como a prevenção de exposição e de respostas utilizada no modelo cognitivo-comportamental. E deve ser combinado com tratamento farmacológico, como antidepressivos.

A partir das discussões apresentadas acima ressalta-se a necessidade de pesquisas futuras sobre o tema, entre elas: estratégias de avaliação e intervenção, incluindo nessa última categoria pesquisas sobre eficácia de medicações e de intervenções psicológicas em suas diferentes abordagens. (SALINA, 2011).

Considerações finais

Em conclusão, pode-se considerar o transtorno dismórfico corporal em homens adultos associado a uma insatisfação em sua aparência física, porém, de caráter patológico, visto que há um pensamento específico de defeito imaginário no próprio corpo. Nesse aspecto, os indivíduos possuem estrutura corporal notável, mas se vêem magros e franzinos, esse comportamento reflete em prejuízos físicos, sociais, ocupacionais e psicológicos na vida do paciente. As intervenções psicológicas são uma tentativa de amenizar os efeitos nocivos do transtorno e despertar o desejo de mudança no sujeito, bem como uma re-interpretação sobre o conceito de beleza cultuado pela sociedade. Além disto, esse estudo mostra que há uma carência efetiva de pesquisas científicas acerca dessa problemática em homens, o que sugere novas reflexões e estudos que visem embasar o conhecimento patológico, assim como fornecer subsídios no manejo clínico desse transtorno.

Fonte: Psicologado

Sobre o autor: Alex Barbosa Sobreira de Miranda – Departamento de Psicologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Teresina, PI, Brasil
email: alex_barbo_sa@hotmail.com

Padre Marcelo Rossi tinha Vigorexia?

Será que o Padre Marcelo Rossi tinha vigorexia?

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“A única coisa que cultuava era o corpo. Treinava cerca de três horas por dia e comia a clara de 60 ovos. Eu nunca usei drogas, mas cheguei a usar anabolizantes por dois, três anos. Nunca tinha contado isso antes.”

Segundo o Padre Marcelo, sua vida mudou depois que viu Ayrton Senna (1960 -m 1994) agradecendo a Deus por suas vitórias. Ele disse que reconheceu que precisava ser menos narcisista.

Para ver o vídeo da reportagem do Fantástico clique aqui.

Monografia sobre Dismorfia Muscular

Ladies and gentlemen,

Esse blog anda com pouco post porque minha vida anda uma bagunça, mas espero que logo eu volte  a postar com mais frequência aqui. Sinto falta de fazer posts meus, e não só postando textos de outros lugares.

Enfim. O post de hoje é sobre um trabalho de conclusão de curso (monografia) sobre Dismorfia Muscular (2010). Coooooooomoooo são 70 páginas eu vou colocar aqui só as partes mais interessantes e no final vou por a monografia (autora: JULIANA HAMMES DE´CARLI) para quem quiser baixar. Até porque o blog é sobre dismorfia corporal e não vigorexia. Então só vou postar o que tem a ver com a auto imagem distorcida e não vou postar as partes sobre a prática excessiva de exercícios físicos.

Fiz minhas observações em ROSA.

Resumo:
Este trabalho trata da dismorfia muscular, um transtorno dismórfico corporal recente em relação a outros já estudados, como bulimia e anorexia. A mídia e a cultura são fortes fatores influenciáveis, que estimulam a propagação desse transtorno. O indivíduo com dismorfia muscular apresenta distorção de imagem corporal e os sintomas deste problema estão associados a sintomas de estresse psicoemocional. Este transtorno apresenta comorbidade e por se tratar de um problema recente (eu não acho que o problema seja recente, eu acho que é um problema bem antigo mas que nunca houve uma preocupação em estudar e tratar. Da mesma forma que falam erroneamente que a dismorfia corporal é uma NOVA DOENÇA, que mané nova pow! É nova a atenção que estão dando para ela, mas ela já existe há séculos!), ainda não há descrição para tratamento específico, tendo práticas “emprestadas” de quadros correlatos e que não podem ser descritas como definitivas.

De acordo com a American Psychiatric Assocition (DSM-5 Development), transtornos de dismorfia corporal são caracterizados por
1. Preocupação com uma falha ou defeito percebido na aparência física que não é
observável por outras pessoas.
2. A preocupação causa sofrimento clinicamente significativo (por exemplo: humor depressivo, ansiedade, vergonha), prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes de funcionamento (como na escola ou o relacionamento em casa).
3. As preocupações não se restringem aparentemente a sintomas de um transtorno alimentar (exemplo, preocupação com a gordura corporal ou peso).

A distorção da imagem corporal está comumente associada a distúrbios alimentares como anorexia, bulimia e transtorno dismórfico corporal. Quando falamos de imagem corporal, a auto-percepção do peso é importante e determinante entre os transtornos dismórficos corporais, podendo ser influenciado por diversos fatores, incluindo a cultura e os padrões sociais. (VEGGI ET al, 2004).

Achei esse parágrafo confuso. Parece que o transtorno dismórfico corporal está diretamente ligada à um distúrbio alimentar. E isso não procede. Da mesma forma que a vigorexia é um SUBTIPO da dismorfia corporal, a anorexia também é. Agora no transtorno dismórfico corporal é muito mais predominante a obsessão por DEFEITOS FÍSICOS ESPECÍFICOS. O parágrafo podia ter sido escrito passando o “transtorno dismórfico corporal” pra frente pra não gerar confusão.

Mudanças na aparência, forma e tamanho corporais, que são comuns em toda
sociedade, têm uma importante função social e expressam onde o indivíduo está inserido na sociedade e pode ainda demonstrar mudança no status social (CONTI, 2005- 6). O indivíduo só é aceito estando nos padrões do grupo. Assim pessoas não atraentes podem ser discriminadas e não recebem tanto suporte em seu desenvolvimento quanto os sujeitos reconhecidos como atraentes, podendo ser rejeitadas, o que dificulta o desenvolvimento de habilidades sociais e da auto- estima. (SAIKALI, 2004).

A distorção da imagem corporal é um fator determinante para os transtornos alimentares. De acordo com Saikali ET AL (2004), a autoavaliação desta pode ocorrer de três formas:
“(…) o indivíduo pensa em extremos relacionados à sua aparência ou é muito crítico em relação a ela; quando o indivíduo compara a sua aparência com padrões extremos da sociedade; quando o indivíduo se concentra em um aspecto de sua aparência.” (SAIKALI ET al, 2004. V.31,n.4.). Tanto a anorexia, quanto a dismorfia muscular, foi considerada por Pope (2002) como doenças ligadas à perda de controle de impulsos narcisistas.

TRATAMENTO

No tratamento psicológico é feito a identificação de padrões distorcidos de percepção da imagem corporal e identificação de aspectos positivos da aparência física. Deve-se abordar e encorajar atitudes mais sadias e enfrentar a aversão de expor o corpo e isso, na maioria das vezes, não flui resultado, pois, o vigoréxico tem um bloqueio muito grande e não aceita
opinião.

Não só o vigoréxico, né? Eu mesma, dismórfica, sou a dona da minha verdade e tenho grande dificuldade de aceitar “conselhos”.

A influência da mídia, sociedade e meio esportivo de que corpos perfeitos são
sinônimos de beleza e sucesso, vem acometendo homens e mulheres para o desenvolvimento de transtornos alimentares e mentais, levando o ser humano ao extremo para conseguir os resultados impostos por estes meios de comunicação.

Essas pessoas se tornam perfeccionistas consigo mesmas e obsessivas pelo exercício (BATISTA, 2005). Estes complexos podem ser agravados pela busca inconstante da beleza física e vem acompanhada de ansiedade, depressão, fobias, atitudes compulsivas e repetitivas, como olhar muitas vezes ao espelho (ASSUNÇÃO, 2002).

4.1 Dismorfia muscular, adolescentes e formação da Imagem Corporal

De acordo com McCabe ET AL. (2001), a maioria dos estudos sobre imagem corporal é feito com meninas e ressaltam os efeitos das influências socioculturais. Ainda existem poucos estudos teóricos sobre as influências em meninos. Foi feito um estudo no qual o principal objetivo era examinar detalhadamente a natureza das mensagens que os adolescentes recebem sobre seus corpos de diferentes fontes. As mensagens foram organizadas de acordo com o tipo de fonte, que foram as seguintes: pais, mães, irmãs, irmãos, amigos homens, amigos mulheres e a mídia. Participaram do estudo 40 meninas e 40 meninos adolescentes com 13 a 15 anos da classe média na Austrália. O índice de massa corporal nas meninas tinha
a média de 23,13kg/m² enquanto nos meninos a média era de 22,49kg/m² (McCABE ET AL, 2006). As informações foram adquiridas através de entrevista, foram feitas perguntas em aberto e depois perguntas mais diretas.

Baixa auto- estima, e altos níveis de depressão, ansiedade e sensibilidade interpessoal prevêem distúrbios como distúrbio de imagem corporal e juntamente com outros sintomas, a dismorfia muscular. Apesar de sintomas de depressão estar relacionado com distorção de imagem corporal e dismorfia muscular, sendo uma variante única, só aparece significantemente na
dismorfia muscular.

O processo dos indivíduos que acreditam serem objetos ou mercadorias quando são olhados e avaliados chama-se auto-objetivação (FREDRICKSON e ROBERTS, 1997). A autoobjetivação tem sido mostrada resultando em ansiedade aparente, vergonha do corpo,sintomas de depressão, baixa satisfação corporal, baixa auto-estima e transtorno alimentar.

Os benefícios dos exercícios físicos não são tão vivenciados para pessoas que se auto-objetivam (MALTBY e DAY, 2001). O que mostra que este é um fator de risco para a pessoa ter uma imagem corporal negativa (McKINLEY, 1998; STRELAN ET AL, 2003). Uma pessoa que não usufrui dos benefícios e treina por autoobjetivação não necessariamente mudará sua imagem corporal positivamente. Por exemplo, uma pessoa com alto índice de gordura corporal, ao emagrecer nem sempre tem uma satisfação corporal correspondente. E é importante lembrar que desejar ter uma aparência melhor, não necessariamente quer dizer que deseja se sentir melhor. Portanto, o que esteestudo mostra é que tanto para homens, quanto para mulheres, treinar com a resposta específica de auto-objetivação só agrava o problema.

Um estudo feito em 2001 por Hitzeroth notou que cinco em cada quinze homens com transtorno dismórfico corporal (TDC), possuíam dismorfia muscular. Em 2005, Pope et al fizeram um estudo com o objetivo de comparar homens com TDC com dismorfia muscular e homens com TDC sem dismorfia muscular. Homens com DM se preocupam com mais partes do corpo do que homens com TDC, mas quando comparam os dois grupos sem levar em conta a preocupação com os músculos, os dois grupos são semelhantes. Entre os homens com DM a principal preocupação são os músculos, seguidos de cabelo e depois a pele, enquanto os homens com TDC preocupam-se mais com cabelo e pele. Comparando comportamento entre os dois grupos, ambos possuem “checagem no espelho” e se escondem partes do corpo com roupas.

Devido ao fato da DM ocorrer juntamente com outras manifestações do TDC, espera-se que a DM responda ao mesmo tipo de tratamento, com inibidores de serotonina ou terapia cognitivo-comportamental. De qualquer forma os sintomas de DM precisam ser ainda estudados.

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depois de fazer o download tem que renomear e por .pdf no final do arquivo pra poder abrir.

Vigorexia

Matéria meio grande mas bem interessante. Segue:

Os especialistas garantem que a vigorexia é um transtorno masculino, que afecta homens que passam horas no ginásio e, apesar de serem supermusculados, ao espelho vêem-se como fracos. Como os anorécticos, que nunca se sentem suficientemente magros, os vigorécticos querem ser sempre mais fortes.

Antes de ir para o emprego, às 05h30, Emanuel Grilo come quatro claras de ovo. Não são saborosas, mas nos últimos seis anos tornou-se um «hábito» contar todas as proteínas que ingere, a pensar na definição dos músculos: «Sou capaz de tudo para ter um corpo perfeito.» Os bíceps e peitorais denunciam o trabalho diário no ginásio e espantam todos os que se lembram dele quando pesava apenas sessenta quilos. Entre barras, halteres e passadeiras, Emanuel Grilo, de 22 anos, encara o exercício físico «religiosamente», tenta controlar cada centímetro do corpo, mas nunca está satisfeito: «Hoje em dia, quando me vejo ao espelho, ainda não estou bem. Não sei explicar. Sinto-me fraco. Sei que evoluí, mas quero sempre mais. Como há pessoas viciadas no álcool, sou viciado no ginásio», assume olhando para os ombros muito mais largos do que o resto do corpo.

A busca obsessiva pela silhueta perfeita já não afecta apenas as mulheres. Segundo o psiquiatra americano Harrison G. Pope, a vigorexia ou síndrome de Adónis (deus grego cujo corpo representa «um padrão sublime de masculinidade») surge no contexto de «uma crise de saúde que atinge homens de todas as idades».

Quando o ginásio é um templo

Emanuel Grilo não esquece o dia em que uma barra de quarenta quilos o fez ceder e o obrigou a ficar três meses sem musculação. «Ia para a última série, mas quis fazer mais uma ou duas. Estava muito cansado e caiu-me um peso em cima. Parti um dente e desloquei um ombro. Foi a pior etapa da minha vida. Não por causa das dores, mas por não poder ir ao ginásio. O pânico de pensar que estava a ficar pequeno deixou-me desesperado», conta, exibindo uma camisa de alças demasiado pequena para o porte. Mal regressou ao ginásio, Emanuel Grilo voltou também à disciplina e à «dedicação». Na adolescência, apreciava, na praia, os corpos e a forma física dos rapazes mais velhos. Sem se aperceber do isolamento, deixou de sair com os amigos ou com a família e, caso hoje tivesse uma namorada, «daria prioridade aos treinos». «Antes, saía de casa, mas a partir dos 16 anos, quando entrei para o ginásio, a minha vida mudou. Tudo o que faço é em função disso. Sem beber álcool, sem fumar, sem fazer noitadas, vemos melhores resultados.» Depois de ultrapassar os cem quilos, não tardou até ser contratado como segurança numa discoteca aos fins-de-semana. No entanto, nunca foram os motivos profissionais que o levaram a treinar ou a comer de duas em duas horas para aumentar a massa muscular. «Há muita gente que vai ao ginásio para se sentir bem. Eu vou para ficar maior, para crescer e ficar contente comigo próprio. Se não for ao ginásio, não estou contente comigo nem com o resto das pessoas.»

«Exercício levado ao extremo»

Todos os dias são de treino no fórum de culturismo português bodybuilding-pt.com. Minuto a minuto, os mais de 4500 membros actualizam notícias, diários de treino, dicas sobre dietas e avaliações de produtos para aumentar os músculos. Junto às mensagens publicadas, os participantes exibem fotografias que mostram corpos insuflados, em pose, muitos deles ao espelho. Quem chega pela primeira vez deve apresentar-se, deixando as medidas e a experiência de ginásio, enquanto o staff regista que o fórum é «o resultado do esforço de amantes do exercício físico levado ao extremo». Isac Fernandes é dos que mais participam nas discussões. O finalista do curso de Gestão, de 22 anos, treina musculação há sete e deixa dicas aos que agora começam. As descrições detalhadas dos esquemas de treino, sugestões de receitas de batidos energéticos e conselhos quanto a possíveis lesões geram rapidamente centenas de reacções na comunidade. Todos querem expor as suas dúvidas e expectativas acerca do culto do corpo. «Quem gosta mesmo de body building e culturismo tem de se dedicar. Saber o que deve comer, quando deve comer. Nós nunca estamos satisfeitos e quando engordamos um quilo, por desleixo, notamos logo. A genética também conta muito e quem não tem uma genética favorável ao crescimento dos músculos tem de trabalhar ainda mais», sublinha, lembrando que raramente come um bolo. Isac Fernandes não afasta a ideia de um dia vir a participar em competições de culturismo. Todas as manhãs faz corrida ou bicicleta ainda em jejum, para ter a certeza de que perde gordura. Depois do pequeno-almoço, vai para o ginásio e, quando pode, joga futebol ou pratica jiu-jitsu durante a tarde: «A minha vida gira um pouco em função do ginásio e do exercício físico. Se ficar mais de dois dias sem treinar começo a sentir-me fraco e flácido.» Isac Fernandes não se considera um vigoréctico, mas confessa que apesar de todos lhe dizerem que «está muito bem assim» encontra sempre defeitos no seu corpo e fica «ansioso e deprimido» se não o exercitar ao máximo.

O body building não é sinónimo de vigorexia e a maioria dos culturistas profissionais estão longe de ser vigorécticos. No entanto, muitos rapazes não se sentem respeitados se não tiverem o corpo dentro dos «padrões», com a musculatura bem definida e zero por cento de gordura. Jorge Iriart alerta para a necessidade de «relativizar» o culto que compromete a saúde: «A pessoa pode sentir-se valorizada por outros atributos que não somente a aparência. Os media contribuem negativamente para a disseminação do modelo de corpo ideal e de masculinidade como um corpo cheio de músculos, o que pode contribuir para que um número crescente de jovens abuse de esteróides anabolizantes, na intenção de rapidamente desenvolverem massa muscular.»

A toma de esteróides anabolizantes tem sido apontada como um dos principais perigos para os vigorécticos. Desde os batidos às injecções, as substâncias sintetizadas em laboratório são vistas como drogas poderosas que permitem ao organismo trabalhar mais rapidamente, proporcionando resultados quase mágicos, e recompensando imediatamente o suor despendido nos treinos. Augusto Gomes, de 23 anos, já trabalhou num ginásio do «ferro» – gíria usada para os locais destinados a quem deseja ficar «grande e inchado». Instrutor há dois anos, explica que a impaciência com o tempo necessário para o desenvolvimento da massa muscular leva muitos homens a recorrerem aos químicos: «Já lidei com pessoas obcecadas pelo físico, ao ponto de algumas fazerem anabolizantes inconvenientes, por terem problemas de coração ou fraqueza nas articulações. Tomam substâncias que lhes destroem o corpo, sem se importarem.» Augusto Gomes assegura que é fácil ter acesso a este tipo de produtos dentro dos ginásios e admite que os adolescentes rapidamente começam a tomá-los: «Aqueles que querem desenvolver e fazer hipertrofia vão ter com os “maiores”, perguntam-lhes como eles cresceram e estes arranjam um bom ciclo de anabolizantes.»

Apesar de aumentarem os músculos, os anabolizantes provocam frequentemente desequilíbrios hormonais, impotência, atrofia testicular, hipertensão arterial ou insuficiência renal, acrescentando-se o risco de os atletas desenvolverem infecções por transmissão sanguínea, como o vírus da sida ou as hepatites B e C, ao usarem seringas não esterilizadas. Augusto Gomes garante que não é raro ver os rapazes a injectarem substâncias, nos ginásios, como o decanoato de nandrolona, a chamada «deca». «Metem “deca”, que se usa nos bebés subnutridos, a nível médico, para conseguirem absorver tudo o que ingerem. Depois metem sempre um pouco de testosterona, mas nunca vão a médicos. Nota-se que ficam mais agressivos devido à testosterona. A nível hormonal tudo muda, até o desempenho sexual, mas não se importam por causa da estética.»

Vigorécticos só olham para os defeitos

A prática compulsiva de exercício físico, o abuso de esteróides anabolizantes e as perturbações alimentares que advêm de uma preocupação excessiva com a imagem são perigosos para a saúde e a busca de um corpo musculado, a todo o custo, começa a ser tratada como uma patologia. À semelhança da anorexia e da bulimia, os investigadores encaram a vigorexia como um transtorno emocional ligado à perda de controlo de impulsos narcisistas. «É uma insatisfação específica com a musculatura, mais do que com o corpo como um todo. A ênfase na imperfeição é tão preocupante que as pessoas ficam frequentemente depressivas e obcecadas, podendo até perder os relacionamentos e os empregos», explica o especialista em Educação Física, James Leone, da Universidade Southern Illinois, nos EUA.

Apesar de não estar incluída nas classificações de distúrbios psiquiátricos, a vigorexia é considerada uma espécie de dismorfia corporal, ou seja, uma obsessão por alguma parte do corpo, que impede a realização de uma vida normal. Embora seja difícil fazer estimativas, os estudos indicam que cerca de cem mil pessoas em todo o mundo se encontram dentro dos critérios de diagnóstico.

Fonte: Jornal de Notícias